Levada das 25 Fontes ao Amanhecer em Porto Moniz
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Levada das 25 Fontes ao Amanhecer em Porto Moniz

· · Porto Moniz

Às 7h15 da manhã, está sozinho na lagoa das 25 Fontes. Às 9h, vão chegar grupos de quarenta pessoas. A diferença entre uma experiência inesquecível e um disparate turístico cabe inteira no despertador.

Às 6h47 da manhã, o parque de estacionamento do Rabaçal está vazio excepto por uma carrinha branca onde dorme um casal alemão, e um senhor de Câmara de Lobos que veio apanhar agriões. Duas horas mais tarde, este mesmo asfalto vai parecer o párkulo do Continente em véspera de Natal: carrinhas de tour, grupos de quarenta pessoas a esticar gémeos, guias a gritar instruções em quatro línguas. É por isso que estamos aqui antes do sol nascer. A Levada das 25 Fontes é provavelmente o trilho mais famoso da Madeira, e é também aquele onde mais turistas estragam a experiência uns aos outros. Existe uma forma de fazer isto bem. E essa forma envolve um despertador às 5h.

Porque é que toda a gente vai à 25 Fontes (e porque é que está cheia de razão)

Vou ser honesto: a 25 Fontes merece o hype. Há trilhos mais bonitos na Madeira, há trilhos mais difíceis, há trilhos com menos pessoas. Mas há poucos sítios no arquipélago onde se chega a uma lagoa rodeada por uma parede vertical de basalto com vinte e cinco nascentes a cair em fios finos, como se alguém tivesse furado a montanha com uma agulha. O caudal é maior na primavera, depois do inverno chuvoso, e mais discreto no fim de agosto. Em maio, que é quando este texto vai ser mais útil, está no ponto certo: cheio sem ser violento, fresco sem ser gelado.

O problema não é o sítio. O problema é a logística. O Rabaçal, ponto de partida da maioria das pessoas, tem um parque de estacionamento minúsculo (cerca de 30 lugares) numa estrada estreita de montanha que desce a partir da ER110. Em alta temporada, esse parque enche às 8h30 da manhã. Depois disso, ou se desce a pé desde a estrada principal (mais 1,5 km de descida íngreme, e na volta é a subir, em pleno calor), ou se apanha a shuttle oficial, que custa em torno dos 3€ ida e volta mas obriga a esperas frustrantes. Confirme o preço e horário localmente porque isto muda.

O plano: chegar antes que o mundo acorde

A regra é simples: estar no parque do Rabaçal às 6h30, com botas calçadas e mochila feita. Isso significa sair do Funchal por volta das 4h45 (uma hora e quarenta de carro, principalmente pela VE3 e depois pela ER110, que serpenteia o planalto do Paul da Serra). Se estiver alojado em Porto Moniz, é mais fácil: cerca de quarenta minutos pela ER101 e depois ER209, mas atenção que a estrada do Paul da Serra ao amanhecer apanha frequentemente nevoeiro denso. Conduza com as máximas, devagar, e desconfie de tudo o que pareça uma vaca à beira da estrada (porque provavelmente é).

Se nunca andou em levadas, ou se quer enquadrar este trilho num plano maior pela ilha, leia primeiro este apanhado dos trilhos essenciais para começar pelo lado do Funchal. Para a 25 Fontes especificamente, o trilho oficial é o PR6, com cerca de 4,3 km até à lagoa e o mesmo de volta, em piso plano (é uma levada, lembre-se), com algumas zonas estreitas onde o corrimão é metálico e há pequena exposição. Não é técnico. É só comprido o suficiente para o cansar ao quinto grupo de quarenta pessoas que tem de deixar passar.

O que pôr na mochila

  • Lanterna frontal. Vai precisar dela nos primeiros vinte minutos.
  • Casaco corta-vento. O Paul da Serra é uma estepe ventosa e fria, mesmo em maio.
  • Água: 1,5 litros por pessoa. Não há fontes potáveis no trilho, apesar do nome.
  • Um lanche decente. Sandes, fruta, chocolate, qualquer coisa que dê energia.
  • Toalha pequena e mais um par de meias se planeia molhar os pés.

O trilho, hora a hora

6h30 às 7h15: a descida no escuro

Saindo do Rabaçal pela estrada de alcatrão que desce para a Casa do Rabaçal, vai estar escuro, ou no melhor cenário num cinzento azulado que ainda não é dia. Esta é a parte chata da caminhada: 1,5 km de descida íngreme em piso de alcatrão. Faça-a devagar, porque na volta vai ser cansativa. Quando chegar à Casa do Rabaçal (uma cabana de pedra que serve como ponto de encontro de guias durante o dia), vire à esquerda e entre na levada propriamente dita.

A primeira luz começa a coar-se entre os loureiros e os til, e percebe que está dentro da Laurissilva, a floresta primitiva que sobreviveu desde antes do último período glacial e que é Património Mundial UNESCO desde 1999. O cheiro é húmido, ligeiramente acre, com notas de musgo molhado. Os pássaros começam a acordar. Um tentilhão-da-madeira, que é endémico, anda por aqui se tiver sorte.

7h15 às 8h00: chegada à lagoa

Vai chegar à lagoa das 25 Fontes praticamente sozinho. É um momento estranho: este sítio, que viu literalmente milhares de pessoas a tirar selfies no dia anterior, está só para si e talvez para mais dois ou três caminhantes madrugadores. A água é gelada (não brinque com mergulhar, a hipotermia é real mesmo em maio), tem uma cor verde-esmeralda quando o sol bate, e o som das nascentes a cair é o tipo de ruído que faz qualquer cidade parecer um disparate.

Fique vinte minutos. Coma uma maçã. Não tire trinta fotografias, tire três. Sente-se na pedra plana à direita da queda principal (cuidado, está sempre molhada) e deixe o lugar fazer o que tem a fazer. Por volta das 8h00, vai começar a ouvir o primeiro grupo de tour a chegar. É a sua deixa.

8h00 às 9h30: o regresso e o desvio para o Risco

No caminho de volta, antes de chegar à Casa do Rabaçal, há um desvio sinalizado para a Cascata do Risco, mais ou menos quinhentos metros adicionais. Faça-o. Em maio, com o caudal cheio, o Risco é uma cortina vertical de cem metros que cai contra a parede de basalto. Está sempre menos cheio que a 25 Fontes e leva-lhe quinze minutos extra.

De volta ao parque por volta das 9h30, vai cruzar-se com a multidão que mal está a começar. Acene com cortesia. Você já fez o trabalho.

Depois do trilho: descer a Porto Moniz e comer como deve ser

Estará faminto, com aquela fome boa que só se ganha com seis quilómetros de levada e três horas de manhã ao ar livre. A descida do Paul da Serra para Porto Moniz pela ER209 é uma das estradas mais bonitas da ilha: zigue-zague de curvas apertadas, parede de fajãs à direita, oceano a aparecer e desaparecer à esquerda. Demora cerca de quarenta minutos.

Em Porto Moniz, esqueça-se das piscinas naturais (faça-as à tarde, quando estiverem com sol). Vá direito a comer. O bolo do caco com manteiga de alho é obrigatório, mas peça-o de entrada, não como acompanhamento, porque o pão acabado de fazer numa pedra basáltica quente é uma coisa séria. Para o prato principal, lapas grelhadas com limão se estiverem na ementa, ou um filete de atum em cebolada. Beba uma poncha regional, não uma poncha de turista de cinco frutas que parece um cocktail de hotel. A poncha original é mel, limão e aguardente de cana. Mais nada.

Como esticar este dia (ou esta viagem)

Se ficou com adrenalina a mais e está em forma, a Ribeira da Laje fica do lado de Porto Moniz e oferece uma das melhores experiências de canyoning da ilha. Veja o guia detalhado do canyoning na Ribeira da Laje antes de marcar, porque há níveis técnicos diferentes e nem todos servem para principiantes. As empresas locais saem da vila de manhã, mas há sessões de tarde que se encaixam bem se fizer a 25 Fontes ao amanhecer.

Para quem quer um plano mais relaxado, vale a pena marcar uma saída de barco. A costa noroeste tem cetáceos durante todo o ano, e em maio é particularmente boa para baleias-piloto. Escrevi um roteiro honesto sobre whale watching entre Calheta e Porto Moniz que vale a pena ler antes de escolher operador, porque há diferenças importantes entre empresas no que toca a respeito pelos animais.

Se está a planear estender a viagem para outras zonas da ilha, dois textos podem ajudar. Em junho, o Funchal entra em modo festival com o atum como ingrediente central de uma série de eventos gastronómicos: este apanhado de Funchal em junho com atum, levadas e noites de festival dá-lhe as datas certas. E para um contraste total com Porto Moniz, um dia inteiro em Santana, do lado norte, é a forma certa de fechar a viagem: leia 24 horas em Santana ao ritmo da ilha para perceber porque é que aquela vila vale mais do que as casas típicas de palha que toda a gente fotografa.

Erros comuns que toda a gente faz

  • Calçar ténis em vez de botas. A levada está molhada, o piso é irregular, e há trechos de raízes. Botas com sola decente fazem a diferença entre uma manhã boa e um tornozelo torcido.
  • Levar pouca água. Não há onde encher cantil potável no trilho. 1,5 litros mínimo.
  • Ir vestido para o calor do Funchal. O Paul da Serra está dez graus abaixo. Camadas, sempre.
  • Fazer o trilho ao meio-dia em pleno agosto. Calor, sombra zero em partes, e multidões. Manhã cedo ou esqueça.
  • Ignorar o tempo. Se chover muito, a levada pode encerrar por questões de segurança. Verifique sempre o estado dos trilhos no site oficial das Florestas da Madeira na véspera.

Vale mesmo a pena?

Vale, com uma condição: faça-o como aqui está descrito. Ao meio-dia em pleno verão, com fila para passar, com gente de chinelos a pedir para tirar uma foto à sua frente, com guias a falar em alemão, espanhol e inglês ao mesmo tempo, a 25 Fontes é um disparate. Às 7h15 da manhã, sozinho, com o som das nascentes a cair contra a parede de basalto e a Laurissilva inteira ainda meio adormecida, é uma das experiências mais bonitas que se podem ter na Madeira. Mesma levada, dois mundos. A diferença é o despertador.

Ponha-o.

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