O Que Fazer com Crianças em Machico: o Guia Honesto
Sem parque aquático e sem fast-food com escorrega: Machico não foi feita para crianças, e é por isso que resulta tão bem. Da areia importada de Marrocos ao bolo do caco que evita birras, o guia honesto para férias em família.
Vamos começar pela verdade que ninguém diz nos folhetos: Machico não foi desenhada a pensar em crianças. Não tem parque aquático, não tem cadeia de fast-food com escorrega de plástico, não tem aquele tipo de entretenimento embrulhado que mantém um miúdo de seis anos calado durante quatro horas. E é exatamente por isso que pode resultar tão bem. Aqui a diversão é analógica: areia, água, ladeiras para subir a correr, gatos para perseguir na praça. Se vier com expectativas de resort, vai sair desiludido. Se vier disposto a deixar os filhos aborrecerem-se durante dez minutos até inventarem uma brincadeira, Machico devolve-lhe qualquer coisa que o Funchal, com todo o seu charme, já perdeu.
A praia: o trunfo óbvio (e a verdade sobre a areia)
A Praia de Machico é a razão pela qual famílias inteiras descem a serra. É uma praia de areia amarela, importada de Marrocos no início dos anos 2000, porque a Madeira é uma ilha vulcânica e quase não tem areia dourada própria. Os locais ainda gozam com isto, mas a verdade é simples: para crianças, areia macia ganha sempre a calhau. A baía é abrigada, o mar entra devagar, e há uma zona pouco funda onde os mais pequenos podem chapinhar sem que o pai entre em pânico de cinco em cinco minutos.
O meu conselho: vá de manhã, entre as 9h e as 11h. Ao meio-dia no verão, a areia queima e a praia enche-se. De manhã o sol ainda está manso, há sombra junto ao paredão, e consegue estacionar sem dar três voltas ao quarteirão. Leve baldes e pás de casa, porque comprar na zona vai pagar preço de turista. Há balneários e chuveiros, e a água é, sendo honesto, fria mesmo em agosto. As crianças não se importam. Os adultos arrependem-se sempre do primeiro mergulho.
Mesmo ao lado fica a praia da Banda d'Além, de calhau. Vale para adolescentes que já gostam de saltar das rochas, mas para miúdos pequenos é tortura de pés descalços. Fique-se pela amarela.
Onde ficar: dois hotéis, duas filosofias
A questão do alojamento com crianças resume-se a uma coisa: distância a pé da praia e da comida. Se carregar um carrinho de bebé por ladeiras de Machico ao fim do dia, vai querer atirar-se ao mar com o carrinho.
O Hotel White Waters é a aposta mais confortável para famílias que querem estar mesmo no centro, perto do areal e dos cafés. Funciona bem para quem quer fazer tudo a pé e voltar ao quarto a meio da tarde para a sesta dos mais novos, aquele ritual sagrado que salva qualquer dia de férias. Para um perfil mais tranquilo e familiar, o Hotel Vila Bela tem o tipo de ambiente sem pretensões que funciona bem com crianças, sem o stress de andar com pezinhos lamacentos por lobbies de mármore. Reserve quartos com varanda se puder: pendurar fato de banho a secar e ter espaço para o saco de praia faz uma diferença enorme quando se viaja com gente pequena.
Comer com crianças sem perder a paciência
Eis a regra de ouro das refeições com filhos na Madeira: a espadarte preta com banana frita vai assustar metade das crianças, mas o bife de atum, esse, costuma conquistar até os exigentes. É carne, sabe a carne, e não tem espinhas. Peça-o malpassado para os adultos e bem passado para os miúdos, com batata cozida ao lado.
O Restaurante Lily é o tipo de casa onde se pode ir com crianças sem aquela sensação de estar a incomodar os outros clientes. Peça o prato do dia, peça arroz de marisco para partilhar, e deixe os miúdos provarem o bolo do caco com manteiga de alho, que é basicamente o pão de batata-doce mais viciante da ilha e funciona como antídoto para qualquer birra pré-refeição. Uma dica de pai veterano: peça o bolo do caco assim que se sentar, não no fim. Crianças com fome são terroristas. Crianças com pão na mão são anjos.
Evite restaurantes com cartas plastificadas de dez páginas e fotografias da comida. Na Madeira, isso é quase sempre sinal de cozinha congelada e preços inflacionados para autocarros de turistas. Procure as casas pequenas, onde a ementa cabe numa folha e muda conforme o que o mar deu nesse dia.
Sair da praia: o que resulta mesmo com miúdos
Caça à arte urbana pela cidade velha
Esta é, sem dúvida, a melhor maneira de transformar uma caminhada chata num jogo. A zona antiga de Machico está cheia de murais e intervenções de arte urbana, e em vez de arrastar as crianças a ver "casas bonitas", transforme tudo numa caça ao tesouro. O roteiro autoguiado de arte urbana pela cidade velha dá-lhe o mapa e a ordem das paragens. Dê a cada criança a missão de ser a primeira a encontrar o próximo mural e, de repente, ninguém se queixa de estar cansado. Funciona melhor ao fim da tarde, quando o sol baixa e as cores ficam mais quentes, e demora cerca de uma hora se houver paragens para gelado pelo meio (e deve haver).
Caminhada para famílias aventureiras
Não vou mentir: a caminhada no Larano, o trilho dos pescadores, não é para todas as crianças. Há troços altos, com vista para o mar a pique, e crianças muito pequenas ou que não estejam habituadas a andar não vão aguentar. Mas para famílias com filhos a partir dos oito ou nove anos, habituados a caminhar, é uma daquelas experiências que ficam na memória de uma forma que nenhum parque temático consegue. Leve água a mais, chapéu, e calçado a sério, não chinelos. E faça-a de manhã cedo, antes do calor.
Se quiser algo mais suave e clássico da ilha, vale a pena estudar as levadas do Funchal e os trilhos mais acessíveis antes de escolher. As levadas são canais de água com caminhos planos ao lado, e algumas são perfeitamente niveladas e largas, ideais para pernas pequenas. Outras têm precipícios e túneis escuros que vão dar pesadelos aos pais. Leia com atenção qual é qual antes de meter a família a caminho.
Excursões de um dia a partir de Machico
Machico tem a vantagem geográfica de estar perto de quase tudo o que interessa no leste e no centro da ilha. Em vinte minutos de carro chega à Ponta de São Lourenço, a península árida e dramática que parece outro planeta, onde o trilho inicial é largo e seguro o suficiente para crianças darem os primeiros passos antes de a coisa ficar mais exposta. Há um bar de apoio no início e casas de banho, o que com miúdos não é detalhe nenhum, é tudo.
Para um dia inteiro fora, Santana e as suas casinhas de colmo triangulares são um clássico que as crianças adoram, porque parecem casas de conto de fadas a sério. Está a cerca de quarenta minutos de carro pela via rápida e funciona bem como passeio de meio-dia. E se a viagem calhar em junho, vale a pena planear uma ida ao Funchal para apanhar a época do atum e as noites de festival, embora aí o conselho seja claro: noites de festival e crianças pequenas não combinam depois das nove da noite. Vá ao início, coma cedo, e volte antes de a festa aquecer.
O dia de chuva (porque vai chover)
A Madeira tem microclimas e Machico, por estar no leste mais seco, costuma escapar à pior chuva. Mas vai apanhar pelo menos uma tarde cinzenta. Não entre em pânico. A piscina coberta do complexo desportivo é uma salvação conhecida das famílias locais, e uma chuvada na Madeira raramente dura o dia inteiro. A estratégia certa é fazer as compras de mercearia de manhã, almoçar com calma e esperar que o céu abra à tarde, o que acontece com surpreendente frequência.
A logística que ninguém lhe conta
- Carro: sem carro em Machico, fica refém da praia e dos cafés à volta. Para tudo o resto, precisa de rodas. As estradas têm túneis e subidas íngremes, mas são excelentes. Cadeira auto adequada à idade é obrigatória e fiscalizada.
- Aeroporto: Machico fica a uns dez minutos do aeroporto, o que é uma bênção com crianças cansadas no dia da chegada. Pouse, conduza, e esteja com os pés na areia antes de a má disposição de viagem se instalar.
- Sol: o sol da Madeira engana. Não queima como o do Algarve, mas apanha-se na mesma. Protetor solar de manhã, repetir depois do banho, sempre.
- Custos: uma refeição de família num restaurante honesto fica bem mais em conta do que no Funchal turístico. A praia é gratuita. Os melhores momentos, como quase sempre com filhos, não se pagam.
No fim de contas, Machico funciona com crianças precisamente porque não tenta demasiado. Ninguém lhe vai vender uma experiência embrulhada em celofane. O que tem é uma baía calma, comida a sério, ladeiras para gastar energia e uma escala humana onde uma criança pode andar dez metros à frente sem que se perca de vista. É, no melhor sentido da palavra, antiquado. E os miúdos, esses, vão adorar sem perceber porquê.