Monção Sem Carro: Termas, Muralhas e Alvarinho a Pé
Guia

Monção Sem Carro: Termas, Muralhas e Alvarinho a Pé

· · Monção

O comboio para Monção acabou em 1990 e a vila ficou melhor por isso: os carris viraram ecopista ao longo do Minho. Termas no centro, muralhas com a Galiza em frente, lampreia na época e Alvarinho sempre. Tudo a pé, sem pensar em estacionamento.

Comecemos pela suposta má notícia: o comboio para Monção acabou em 1990. O ramal que ligava Valença a esta vila raiana foi desativado e, durante anos, isso significou uma escolha simples: ou tinha carro, ou não vinha. A boa notícia é que a vila fez a coisa mais inteligente possível com os carris abandonados, transformou-os numa ecopista plana ao longo do rio Minho. E a segunda boa notícia é que Monção, dentro do perímetro das antigas muralhas, atravessa-se a pé em dez minutos. Termas, praça, restaurantes, miradouros sobre o rio e sobre a Galiza do outro lado: tudo cabe numa manhã de caminhada lenta. Este guia é para quem chega de autocarro, deixa a mala e não volta a pensar em estacionamento.

Chegar sem carro (e porque não faz falta nenhuma)

A ligação faz-se de autocarro, com serviços a partir do Porto, de Braga e de Viana do Castelo. Os horários e operadores mudam com as estações, por isso confirme antes de viajar, sobretudo ao domingo, quando o Alto Minho inteiro abranda. A viagem desde o Porto ronda as duas horas, dependendo das paragens. Chegado a Monção, esqueça transportes: o centro histórico é pequeno, plano no essencial, e desenhado à escala de quem anda. A única exceção é o Palácio da Brejoeira, a uns cinco quilómetros, e para isso há táxis na vila. De resto, os seus pés chegam e sobram. Se vier de Espanha, Salvaterra de Miño fica mesmo em frente, na outra margem, ligada pela ponte internacional.

Praça Deu-la-Deu: a mulher que venceu um cerco com pão

Toda a vila gravita em torno da Praça Deu-la-Deu, e o nome merece a história. No século XIV, durante as guerras fernandinas, Monção estava cercada pelas tropas castelhanas e a fome apertava dentro das muralhas. Deu-la-Deu Martins, mulher do alcaide, mandou juntar a última farinha que havia, cozeu pães e atirou-os por cima da muralha aos sitiantes, com o recado de que, se precisassem de mais, era só pedir. O bluff funcionou: convencidos de que a vila tinha mantimentos para meses, os castelhanos levantaram o cerco. Ela está no brasão da vila, com os pães na mão, e a estátua dela preside à praça. Sente-se numa esplanada, peça um café e olhe para ela: poucas praças portuguesas têm uma padroeira laica tão boa. Antes ou depois, passe na Pastelaria Esteves para o café da manhã e um doce; é o tipo de casa onde a vila se cruza a meio da manhã, e é aí que se percebe o ritmo do sítio. Depois suba ao troço de muralha virado ao rio: do miradouro vê-se o Minho largo e verde e, do outro lado, a Galiza. É a fronteira mais tranquila que alguma vez verá.

Termas no meio da vila, não num vale remoto

Eis a raridade de Monção: as termas ficam dentro da vila. Na maioria das estâncias termais portuguesas, o balneário está isolado num vale, rodeado de hotéis de época e de tédio. Aqui não. Sai do tratamento e em poucos minutos está numa esplanada da praça com um copo de Alvarinho na mão, o que nos parece a ordem correta das coisas. A água sai quente da nascente, coisa pouco comum tão perto de um centro histórico, e o balneário trabalha sobretudo problemas reumáticos e respiratórios, além dos programas de bem-estar para quem só quer meia hora de água quente depois de um dia de caminhada. Atenção: a época termal não cobre o ano inteiro e os preços variam com os programas, por isso confirme localmente antes de marcar. O nosso conselho de utilização: ecopista de manhã, termas ao fim da tarde, jantar a seguir. É difícil desenhar um dia melhor.

Comer: lampreia, foda à moda de Monção e o resto do ano

Monção come a sério, e come do rio e do monte. Entre janeiro e abril manda a lampreia, o bicho pré-histórico que divide opiniões à primeira garfada e cria devotos à segunda. O arroz de lampreia é o clássico, escuro e intenso, e nesta época há quem atravesse o país só para isto. Fora da época da lampreia, o prato que define a vila tem um nome que faz sorrir qualquer forasteiro: a foda à moda de Monção, anho assado no forno de lenha, servido com arroz feito no próprio assado. É prato de festa e de domingo, historicamente ligado às romarias, e quando aparece na mesa percebe-se porquê: o arroz, ensopado nos sucos do assado, vale sozinho a viagem. Para pôr isto tudo à prova, marque mesa no Restaurante Sete a Sete e pergunte o que está bom nesse dia; na época da lampreia, pergunte pela lampreia, e em qualquer época peça Alvarinho da sub-região para acompanhar, porque pedir outra coisa em Monção é quase uma descortesia. Reserve ao fim de semana, que o Alto Minho leva os almoços de domingo muito a sério.

Alvarinho: a pé até ao copo, de táxi até à quinta

Monção e Melgaço formam a sub-região dos Vinhos Verdes onde o Alvarinho atinge a sua melhor forma: solos graníticos, um microclima mais seco e quente do que o resto da região, e gerações de produtores que trataram a casta como coisa séria muito antes de ela estar na moda. Dentro da vila, prova-se Alvarinho em qualquer restaurante e esplanada decente. Para ir à origem, a Rota do Alvarinho em Monção leva-o às quintas e às provas com quem faz o vinho, que é sempre melhor do que ler contraetiquetas. E depois há o Palácio da Brejoeira, o palácio neoclássico em Pias que é provavelmente o rótulo mais famoso da casta: fica a uns cinco quilómetros da vila, dez minutos de táxi, e as visitas devem ser confirmadas com antecedência. Se calhar de visitar na primavera, verifique as datas da festa dedicada ao Alvarinho e ao fumeiro que a vila organiza anualmente: é a melhor desculpa possível para provar muito num raio de duzentos metros.

A ecopista e o rio

O antigo caminho de ferro para Valença é hoje uma ecopista ao longo do Minho: plana, sombreada em troços, com o rio quase sempre à vista e a Galiza na margem oposta. É o passeio óbvio para uma manhã, a pé ou de bicicleta, e a inclinação de via férrea significa que ninguém chega ao fim a arfar. Leve água e vá cedo no verão, que o Minho também aquece. Para quem prefere estar no rio em vez de ao lado dele, há o kayak no rio Minho entre Monção e Melgaço, que troca o alcatrão da ecopista pela perspetiva da água, com a fronteira a passar-lhe literalmente ao lado do remo. Entre a ecopista e o kayak, escolha conforme a energia do dia; entre qualquer um deles e uma tarde no sofá, escolha o rio.

Se calhar em junho: a Coca

Monção tem uma das festas mais estranhas e melhores do calendário português: no Corpo de Deus, São Jorge, a cavalo, enfrenta a Coca, um dragão, em plena rua, perante uma vila inteira a torcer. Manda a tradição que, se São Jorge acertar na cabeça do bicho, o ano corre bem. É teatro popular com séculos de idade, sem ironia nem encenação para turistas, e se a sua visita puder coincidir com a data, ajuste a agenda sem hesitar. Confirme o programa localmente, porque a festa enche a vila e as camas desaparecem depressa.

Dormir dentro do mapa

A lógica de uma visita sem carro exige dormir onde tudo acontece, e é para isso que serve o Paço Alojamento Local: fica à distância de caminhada de tudo o que este guia descreve, o que em Monção quer dizer minutos. Acordar e estar na praça antes de o café arrefecer, voltar a pé do jantar sem pensar em condução depois do segundo copo de Alvarinho: é este o luxo real de uma vila pequena, e convém usá-lo.

E depois de Monção?

Se a viagem continuar para sul, o Minho ainda tem muito para dar. Barcelos fica a caminho de quase tudo e, se for em maio, temos um guia honesto da Festa das Cruzes que lhe diz o que vale a pena e o que pode saltar. Mas isso é outra viagem. Esta acaba aqui: na muralha ao fim da tarde, com o rio a correr para o Atlântico, um copo frio na mão e a certeza confortável de que o carro não fez falta nenhuma.

Minho vinho verde Termas Alvarinho Monção sem carro