Monção das Águas: Caldas e Margens do Rio Minho
Guia

Monção das Águas: Caldas e Margens do Rio Minho

· · Monção

Há mais de cem anos que Monção se organiza em volta de uma água termal que sai do chão a 49ºC, no centro da vila. Junte caldas, caminhadas pela Ecovia do Minho, kayak até Melgaço e Alvarinho à porta da quinta, e tem o roteiro mais subestimado do Minho.

Há uma certa lógica em começar o dia em Monção com uma garrafa de água quente nas mãos. Não é metáfora: é literal. As Caldas de Monção, em pleno centro histórico, brotam a 49ºC, ricas em bicarbonato e sódio, e há mais de um século que a vila se organiza à volta delas. Antes de o turismo do Alvarinho ter posto Monção no mapa enológico, era a água que trazia gente. Continua a trazer, só que agora os hóspedes do termalismo partilham os passeios da Praça Deu-la-Deu com ciclistas franceses, caiaquistas espanhóis e uma nova geração de portugueses que descobriu que se pode dormir a olhar para a Galiza por menos do que custa uma noite em Lisboa.

Este guia é para quem quer fazer Monção devagar: tratamento termal de manhã, almoço sem pressa, passeio ao longo do Minho à tarde, copo de Alvarinho gelado ao pôr do sol. Vou dizer o que vale a pena, o que se pode saltar, e como combinar tudo sem precisar de carro durante metade do tempo.

As Caldas: o que são, o que tratam, e como entrar

O Termas de Monção fica no centro, a poucos metros da igreja matriz, e essa é a primeira coisa que distingue estas termas de tantas outras espalhadas pelo país. Não há um vale isolado, nem floresta envolvente. Há uma rua, há casas, há a vida da vila a passar à porta. A água, sulfúrea e bicarbonatada-sódica, é indicada sobretudo para problemas de pele, vias respiratórias e reumatologia. Os programas tradicionais duram catorze ou vinte e um dias, mas para quem está de passagem há sessões avulsas, dia-spa e tratamentos curtos.

Aviso: se vai com expectativas de spa de hotel cinco estrelas, ajuste. As Termas de Monção foram renovadas, sim, mas mantêm uma estética mais clínica do que cosmética. Isto não é mau. É honesto. Vai-se aqui para tratar, não para fotografar. Os preços (confirme localmente porque mudam todos os anos) costumam ser muito razoáveis comparados com a oferta termal moderna de Chaves ou de São Pedro do Sul.

Dica prática: marque com antecedência por telefone ou email. Em julho e agosto, e durante a Festa do Alvarinho no primeiro fim de semana de julho, o sítio enche de aquistas habituais que reservam o ano inteiro. Setembro e outubro são, na minha opinião, os melhores meses: tempo ainda morno, vindima a decorrer, e as termas com horários completos.

Onde dormir para acordar a dois passos da água

A escolha óbvia, e que recomendo sem hesitar, é o Paço Alojamento Local. Fica dentro das muralhas, num edifício com história e quartos que respeitam essa história sem cair no pastiche. Da janela vê-se Monção a acordar: padeiros a abrir portas, idosos a caminho da missa das oito, o cheiro a pão quente que sobe das traseiras. Para um banho de manhã, dormir aqui poupa-lhe vinte minutos de aborrecimento logístico. E a anfitriã tem mapas anotados à mão com os trilhos do rio, o que vale ouro.

Caminhar à beira-Minho: o ecovia que muda tudo

O segredo mais bem guardado de Monção, se é que ainda é segredo, é a Ecovia do Rio Minho. É um percurso pedestre e ciclável que segue o rio, plano, à sombra de carvalhos e amieiros, com vistas constantes para a margem galega. De Monção, pode caminhar para oeste em direção a Valença, ou para leste em direção a Melgaço. Os dois sentidos têm os seus encantos.

Recomendo o sentido nascente, em direção a Melgaço, por três razões: o terreno é mais variado, há mais quintas de Alvarinho à vista, e termina-se numa povoação que vale uma visita por si só. A caminhada completa, cerca de vinte e quatro quilómetros, faz-se num dia de ciclismo ou em dois de caminhada com noite no meio. Para quem quer só uma manhã, sugiro fazer cinco a sete quilómetros até à zona da Capela de Longos Vales e regressar pelo mesmo caminho.

Equipamento mínimo: ténis confortáveis (não precisa de botas), água, chapéu no verão, e protetor solar. Há fontes públicas pelo caminho mas não confie nelas todas. Em agosto, parta antes das nove ou depois das cinco; o calor à beira-rio, sem brisa, surpreende.

O rio visto de dentro: trocar as pernas pela pá

Se quer perceber porque é que esta zona do Minho é diferente, faça-o a partir da água. O rio aqui é largo, lento na maior parte do percurso, com algumas zonas de águas mais vivas que dão tempero a quem rema. A nossa sugestão é o passeio de kayak entre Monção e Melgaço, que combina logística simples (recolha de carro à chegada) com paisagem espetacular. Vai-se passando ao lado de quintas com vinhas até à beira-água, ilhotas onde garças nidificam, e a sensação rara de estar a fazer fronteira sem fronteira nenhuma.

Não é desporto extremo. Se sabe nadar e tem alguma forma física, faz-se sem drama. Mas leve muda de roupa: vai molhar-se, mesmo que não caia, e o vento a subir o rio à tarde pode ser fresco.

Comer em Monção sem cair no turístico

Vou ser direto: Monção tem uma das cozinhas mais interessantes do Minho, mas precisa de saber onde procurar. O lampreia (na época, entre janeiro e abril), o cabrito assado, o arroz de sarrabulho, o bacalhau à moda da Sé. Os pratos pesam. As doses são generosas. Os preços, comparados com Lisboa ou Porto, parecem um erro de impressão.

A minha recomendação é o Restaurante Sete a Sete, no centro, para um almoço sem cerimónia mas com a comida feita como deve ser. Peça o prato do dia, beba o vinho da casa (que aqui é, claro, Alvarinho), e deixe-se ficar. Se for em grupo e tiverem fome a sério, dividam um arroz de cabidela ou um cozido. Sair de lá leve não é opção.

Para o jantar pós-termas, sugiro algo mais ligeiro: uma das tascas perto da Praça Deu-la-Deu serve petiscos de qualidade, com tábuas de presunto, alheira, queijo de Chaves, e o Alvarinho aos copos. Não vou fingir que sei o nome certo da que está hoje em melhor forma: rode por uma ou duas, ouça onde estão os locais, sente-se onde o ambiente lhe parecer real. Em Monção é difícil errar muito.

Pequenos almoços que valem a manhã

O café em Monção é sério. Padarias antigas, máquinas bem reguladas, croissants ainda quentes às oito da manhã. Para quem se interessa por este ritual diário (e é um ritual sério em qualquer terra minhota), vale a pena ler o nosso guia do café em Barcelos, que serve como mapa mental para perceber o que distingue um bom café minhoto de um café qualquer. As regras são as mesmas em Monção: chávena pequena, leite separado se quiser, e nunca depois das onze da manhã se não quiser olhares de soslaio.

O Alvarinho: onde, quanto, como

Monção e Melgaço são a casa do Alvarinho, com denominação própria desde 1908. A diferença em relação ao resto dos vinhos verdes é audível ao primeiro gole: corpo, complexidade, capacidade de envelhecer. Beber Alvarinho aqui, à porta da quinta, com o produtor a explicar de onde veio cada uvazinha, é uma experiência diferente de beber a mesma garrafa no Chiado.

A nossa sugestão consolidada é a Rota do Alvarinho com quintas e provas, que organiza visitas a três ou quatro produtores num só dia, com transporte incluído. Para quem chega de carro próprio, escolha uma ou duas quintas e ligue a marcar com antecedência: as visitas espontâneas funcionam às vezes, mas em vindima esqueça.

Os preços de prova andam entre quinze e trinta euros por pessoa, dependendo de quantos vinhos e do que inclui de petisco. Se ficar para almoço numa quinta, conte entre quarenta e setenta euros por cabeça. Comprar à porta sai geralmente mais barato do que comprar na garrafeira da vila, mas a diferença não é abismal.

Combinar termas e vinho: é boa ideia?

Não. Quero dizer: pode, mas não no mesmo dia. O termalismo é tratamento, exige hidratação e descanso. O Alvarinho a quinze graus pede sesta. Combine-os ao longo de dois ou três dias, e o corpo agradecerá. Banho de manhã, almoço leve, sesta, prova de vinhos ao fim da tarde: aí está um dia de Monção bem desenhado.

Atravessar o rio: a Galiza a cinco minutos

Uma das vantagens absurdas de estar em Monção é que Espanha fica do outro lado da ponte. Salvaterra do Miño, na margem galega, tem mercado às quintas, restaurantes de polvo notáveis, e uma vibe que muda subtilmente assim que se atravessa. O euro é o mesmo, o relógio também, mas a linguagem corporal é diferente. Vale uma manhã, sobretudo se gosta de mercados.

Se está com família e quer planear um itinerário mais alargado pelo Minho, o nosso guia honesto de Barcelos com miúdos tem ideias para combinar Monção com Barcelos, Ponte de Lima e Viana, todos a menos de uma hora de carro.

Quando ir: o calendário honesto

Janeiro a abril: época da lampreia, restaurantes cheios aos fins-de-semana, termas com horário normal. Reserve mesa.

  • Maio: tempo ideal, paisagem verde, ainda sem multidões. Boa altura para caminhadas e para combinar com Barcelos no Festa das Cruzes.
  • Junho e julho: Festa do Alvarinho no primeiro fim de semana de julho, com concertos, provas e movimento na vila. Termas funcionam normalmente mas reserve cedo.
  • Agosto: calor mais sério, rio com mais movimento, alojamento mais caro. Os locais estão de férias, alguns restaurantes podem fechar.
  • Setembro e outubro: a minha época preferida. Vindima a decorrer, temperaturas perfeitas para a Ecovia, restaurantes a funcionar a sério, termas com toda a oferta. Vá agora.
  • Novembro a dezembro: Monção encolhe-se, há nevoeiro matinal sobre o rio, e os preços caem. Para quem gosta de melancolia produtiva, é o segredo dos invernos minhotos.

Como chegar e como circular

De carro a partir do Porto, conte uma hora e quarenta minutos pela A28 e A3. De comboio, o mais prático é até Valença e depois autocarro ou Uber até Monção (cerca de meia hora). Há autocarros diretos do Porto operados por empresas locais, com horários que mudam: confirme antes.

Já em Monção, o centro histórico faz-se inteiramente a pé. Para os trilhos do rio e as quintas de Alvarinho, ter carro ajuda, mas a Rota do Alvarinho organizada resolve isso. Bicicletas alugam-se localmente; pergunte no posto de turismo ou no seu alojamento.

O que levar consigo de Monção

Uma garrafa de Alvarinho de produtor (não a da garrafeira do centro comercial). Um frasco da água termal, vendida no balneário, para uso doméstico em problemas de pele. Um quilo de presunto de Melgaço, se conseguir encontrar bom (pergunte aos locais). E a memória de uma vila que faz pouco barulho mas que, com calma, oferece mais do que muitas terras que gritam mais alto. É essa a graça de Monção: não precisa de se vender. A água continua a correr, o rio continua a passar, e quem cá chega percebe.

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