Monção e Melgaço: As Quintas de Alvarinho Que Importam
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Monção e Melgaço: As Quintas de Alvarinho Que Importam

· · Monção

Visitar Monção e ficar pelo centro é um erro. As quintas que tornam o Alvarinho num dos brancos mais sérios do mundo estão nas freguesias em redor e em Melgaço, onde o granito e a fronteira espanhola fazem o trabalho. Um guia opinativo, sem rodeios, sobre o que provar, onde dormir e quando ir.

Há um erro clássico que quase toda a gente comete na primeira visita a Monção: ficar pelo centro. Dá-se uma volta pela Praça Deu-la-Deu, fotografa-se o miradouro sobre o Rio Minho, prova-se um copo de Alvarinho num restaurante turístico, e parte-se com a sensação de ter "feito" a região. Não fez. O Alvarinho, este branco fresco e cítrico que pôs o noroeste de Portugal no mapa do vinho mundial, vive nas freguesias em redor: Pinheiros, Lapela, Troviscoso, Riba de Mouro. E vive ainda mais para leste, em Melgaço, onde as encostas são mais íngremes, os solos mais graníticos e os produtores mais teimosos.

Este guia é para quem quer sair do centro e perceber porque é que esta subregião do Vinho Verde é diferente de tudo o resto. Não é poética: é geográfica. Monção e Melgaço estão protegidas a sul pela Serra da Peneda e do Soajo, o que cria um microclima mais quente e seco do que o resto do Minho. Daí o Alvarinho atingir aqui graduações alcoólicas de 12 a 13,5%, quando os outros Vinhos Verdes raramente passam dos 11. Daí também a acidez vibrante e os aromas de pêssego branco, flor de laranjeira e, nos exemplares mais sérios, mineralidade salgada que faz lembrar o mar, mesmo estando a sessenta quilómetros dele.

Como funciona a subregião (e porque é que isso importa)

A DOC Vinho Verde Monção e Melgaço é a única do país onde o Alvarinho pode ser engarrafado como varietal puro com a designação Vinho Verde. Em todas as outras subregiões, o Alvarinho é minoritário ou inexistente. Esta exclusividade explica em grande parte os preços: uma garrafa decente arranca nos 8 a 10 euros, os vinhos de quinta com estágio em madeira facilmente passam dos 25, e há reservas com vinte anos que já se vendem por mais de cem.

A boa notícia para o visitante é que quase todos os produtores recebem visitas, mesmo os mais conceituados. A má notícia é que é preciso marcar com dias de antecedência, especialmente entre maio e setembro. Apareçam de forma improvisada num sábado de agosto e ficam a olhar para portões fechados.

Antes de avançar para os nomes, uma confissão: visitar quintas de Alvarinho de carro próprio é estupidez. Não pelos quilómetros, que são poucos, mas porque o objetivo é provar. Há duas soluções razoáveis: contratar transporte com motorista (a partir de cerca de 80 euros por dia em táxis locais, confirme localmente) ou aderir a uma rota organizada. Recomendo, sem reservas, a Rota do Alvarinho em Monção: Quintas e Provas, que junta três a quatro produtores num único dia, com almoço incluído e logística tratada. É a forma mais eficiente de entender a diversidade de estilos sem ter de fazer reservas individuais nem preocupar-se com o regresso.

Os nomes incontornáveis (e o que pedir em cada um)

Soalheiro, em Alvaredo (Melgaço)

Comecem por aqui se só puderem visitar uma. A Soalheiro foi a primeira casa em Portugal a engarrafar um Alvarinho varietal, em 1982, e continua a ser uma das referências mundiais. Ficam encostados à fronteira espanhola, num vale onde o microclima é tão particular que conseguem produzir Alvarinhos de guarda longa, algo que durante décadas se considerou impossível. A visita standard inclui passeio pela vinha, explicação do processo e prova de quatro ou cinco vinhos. Peçam para provar o Soalheiro Reserva e, se estiver disponível, o Granit, que vinifica parcelas específicas de solo granítico. A diferença entre o Alvarinho clássico e estes dois é a diferença entre ouvir uma música no telemóvel e ouvi-la em vinil num bom equipamento.

Palácio da Brejoeira, em Pinheiros (Monção)

É o sítio mais fotografado da subregião, com uma fachada neoclássica do início do século XIX que parece transplantada da margem do Loire. Durante anos foi também o Alvarinho mais caro do mercado, com base mais em mística do que em qualidade absoluta. Hoje, a casa modernizou-se, e o vinho voltou a fazer sentido pelo preço. Vale a pena pela arquitectura tanto quanto pelo conteúdo do copo. A visita guiada percorre os jardins, a capela, e termina com prova. É talvez a única quinta da região onde o cenário compete com o vinho.

Anselmo Mendes, em Barbeita (Monção)

Anselmo Mendes é considerado por muitos o maior enólogo de Alvarinho vivo. Trabalha com várias quintas pela região, mas a sua casa-mãe recebe visitas e é onde se prova a gama completa, do Muros Antigos básico ao Parcela Única, que é dos vinhos brancos mais sérios feitos em Portugal. Se gostam de vinho a sério, não saiam daqui sem provar pelo menos um Curtimenta, fermentado em contacto com as peles, que muda completamente o que pensavam saber sobre Alvarinho.

Quinta de Melgaço e os pequenos produtores

Para lá destes três nomes, há dezenas de pequenos produtores que merecem atenção: Adega Regional de Monção (a cooperativa, com vinhos honestos a preços acessíveis), Quinta de Santiago, Reguengo de Melgaço, Casa de Paços. Não vou listar mais porque o que torna estas visitas memoráveis é o factor humano: o produtor que abre uma garrafa rara só porque viu que o visitante percebia, a avó que aparece com pão e presunto a meio da prova, a conversa sobre a geada de abril que arruinou metade da colheita. Isto não se planeia. Acontece se forem com tempo e curiosidade.

Onde ficar (sem complicar)

Monção tem opções razoáveis no centro, mas a minha preferência clara é ficar fora, num alojamento que respire o ritmo da região. O Paço Alojamento Local resolve isto bem: está suficientemente perto do centro para ir a pé jantar, mas suficientemente isolado para se acordar com o som dos pássaros e não com o do camião do lixo. Para quem não quer alugar carro, é também uma boa base porque há transporte para a maioria das quintas a poucos minutos.

Reservem com antecedência se vão entre junho e setembro, ou durante a vindima (final de agosto a meados de setembro). É a altura mais bonita para ver as quintas, mas também a mais disputada.

O que comer entre provas

O grande perigo das rotas de vinho é almoçar mal. A combinação típica de cinco horas, três quintas e nada substancial no estômago é o caminho mais directo para uma tarde estragada. A cozinha minhota local, felizmente, está à altura do vinho.

O prato a procurar é a lampreia, em arroz ou à bordalesa, mas só de janeiro a abril, porque é uma espécie sazonal e o que servem fora dessa janela ou está congelado ou é fraude. Fora da época, peçam o cabrito assado no forno (sobretudo no domingo), o sável quando aparece, ou o bacalhau à minhota. Para acompanhar, é claro, Alvarinho da casa, frequentemente servido em malga branca de barro, à moda antiga.

Em Melgaço, não saiam sem provar o presunto curado da região, que goza de IGP e é genuinamente diferente do bisaro transmontano ou do alentejano. As tábuas no Solar do Alvarinho (o centro de interpretação na vila) são uma boa introdução para quem chega sem referências.

Para lá das quintas: o rio que faz tudo isto fazer sentido

Uma coisa que poucos visitantes percebem é que o Rio Minho não é um cenário decorativo: é a razão pela qual esta subregião existe. As cheias históricas depositaram solos aluviais nas margens, criou-se um corredor de humidade que modera as noites quentes do verão, e a fronteira natural com a Galiza moldou séculos de troca, contrabando e identidade.

Por isso recomendo seriamente intercalar pelo menos meio dia de actividade no rio com as visitas a quintas. A descida em kayak no Rio Minho de Monção a Melgaço é a forma mais directa de perceber a geografia: vê-se as encostas das vinhas do nível da água, percebe-se a relação visual com a Galiza do outro lado, e atravessam-se zonas onde o rio se alarga em pequenas ilhas fluviais. Trinta euros e meia manhã. Voltem para almoçar com fome a sério, e a prova da tarde sabe a outra coisa.

Quando ir (e quando evitar)

A janela ideal é maio e início de junho, ou final de setembro a meados de outubro. No primeiro caso apanha-se a vinha em flor, dias longos, temperaturas amenas, poucos turistas. No segundo, vê-se a vindima ou as suas consequências imediatas, e provam-se vinhos do ano anterior já estabilizados.

Julho e agosto são quentes e cheios. Não são impossíveis, mas perde-se a tranquilidade que torna a região especial. Inverno é honesto: chove, faz frio, várias quintas reduzem horários, mas em compensação os preços do alojamento caem para metade e os almoços de lampreia são reais.

Se estão a planear um itinerário mais longo pelo Minho, vale a pena cruzar para Barcelos (a uma hora e meia de carro) e adicionar um par de dias de contraste urbano. Há um guia honesto sobre os cafés sérios de Barcelos que ajuda a perceber a cidade fora do circuito do galo, e se calhar com a família, este guia de Barcelos com miúdos evita os erros típicos de quem viaja com crianças no Minho.

O conselho final, em três linhas

Marquem as visitas a quintas com pelo menos dez dias de antecedência. Não conduzam. Façam o esforço de ir a Melgaço mesmo que pareça mais um quilómetro do que esperavam: é onde o Alvarinho fica mais interessante. E não tenham vergonha de cuspir nas provas. Os produtores agradecem, e a tarde também.

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