Machico para Famílias: Areia Dourada, Piscinas e Sossego
A única praia de areia dourada da Madeira é meio batota: a areia veio de barco do Norte de África. Mas para quem viaja com filhos, essa confissão soa a excelente notícia. Porque é que Machico, plana e tranquila, é a base ideal para férias em família na ilha mais vertical do Atlântico.
Há uma fotografia de Machico que engana toda a gente. Areia cor de mel, mar calmo, palmeiras: parece o Algarve transportado para o meio do Atlântico. E é meio batota. A Madeira nasceu de vulcões e quase todas as suas praias são de calhau escuro, daquele que aquece os pés e faz as crianças choramingar aos dois minutos. A Praia da Banda d'Além, no coração de Machico, é a exceção: a areia veio de barco, do Norte de África, despejada aqui em 2008 para dar à vila a única praia de areia dourada digna desse nome na ilha. Sabe como soa a confissão? Como uma excelente notícia para quem viaja com filhos.
Porque viajar com crianças na Madeira tem um problema logístico real: a ilha é vertical. Tudo é levada, miradouro, escada, túnel, curva. Magnífico para adultos de pernas firmes, menos encantador quando se empurra um carrinho de bebé ou se negoceia com um miúdo de seis anos que já não quer andar. Machico é o antídoto. É plano, é compacto, tem uma baía protegida onde o mar entra manso, e tem aquela areia onde se pode montar acampamento com baldes e toalhas sem ninguém escorregar. Foi aqui, dizem, que João Gonçalves Zarco desembarcou em 1419 e batizou a ilha. Faz sentido que o primeiro pedaço de Madeira a receber gente seja também o mais fácil de habitar com uma família a reboque.
A praia, e a outra praia que ninguém menciona
A Praia da Banda d'Além é a estrela. Fica mesmo dentro da vila, ladeada por dois fortes de pedra escura que parecem montados ali de propósito para as fotografias. A baía é fechada por molhes, o que significa ondulação reduzida e fundo que desce devagar: exatamente o que se quer quando os filhos ainda estão a aprender a flutuar. Tem bandeira azul, nadador-salvador na época balnear, chuveiros e acesso para carrinhos. Vá de manhã. Por volta das dez já há famílias a marcar território, mas às nove ainda se escolhe o lugar com calma e a areia ainda está fresca.
O que quase ninguém diz aos turistas é que há uma segunda opção mesmo ao lado, mais selvagem e mais autêntica: a Praia de São Roque, com o seu calhau redondo e a água transparente até ao desespero. Não é para os pés delicados das crianças pequenas, mas para adolescentes que já sabem nadar e querem mergulhar onde se vê o fundo a vários metros, é o sítio. A regra prática: a areia dourada para os pequenos, o calhau para os crescidos. E há ainda o Complexo Balnear, com piscinas que dão para o mar, ideais para quem quer a segurança de paredes definidas e a sensação de estar dentro do Atlântico sem a imprevisibilidade das ondas. As piscinas costumam abrir no verão e cobram entrada simbólica; confirme localmente os horários, que mudam de ano para ano.
Onde ficar sem complicar a vida
A escolha do hotel, quando se viaja em família, resume-se a uma pergunta: a que distância fica do mar, em minutos de criança cansada? Em Machico, a resposta é quase sempre "perto". O Hotel White Waters é a opção mais confortável da vila, a poucos passos da baía, com a vantagem de pôr a praia e os restaurantes a uma caminhada curta que até um miúdo birrento aguenta. Para um orçamento mais contido, o Hotel Vila Bela faz o serviço sem drama: cama, pequeno-almoço, e a mesma proximidade ao centro que torna Machico tão prática.
O conselho de quem já cometeu o erro de alugar uma casa de sonho no alto de uma encosta: em família, escolha a localização antes da vista. Uma varanda panorâmica não compensa três voltas de carro por dia em estradas que parecem desenhadas por alguém com sentido de humor cruel. Machico permite ficar a pé enxuto do mar e dispensar o carro durante dias inteiros, o que com crianças vale mais do que qualquer infinity pool.
Comer com miúdos sem perder a dignidade
A grande angústia de quem janta fora com crianças é o tempo. O tempo entre sentar e comer, o tempo de paciência antes do primeiro "já está?". Em Machico resolve-se com lugares simples e bem feitos. O Restaurante Lily é a aposta segura: cozinha honesta, peixe fresco, e a flexibilidade que se agradece quando um dos comensais só quer mesmo arroz branco e frango grelhado. Peça o peixe do dia, que muda conforme a lota, e deixe os adultos provar uma espetada em pau de loureiro, a carne enfiada num espeto de madeira que perfuma tudo, servida a escorrer manteiga de alho. É o prato que define a Madeira à mesa.
Acompanhe com bolo do caco, aquele pão achatado cozido em pedra e barrado com manteiga de alho e salsa: as crianças adoram-no porque é basicamente uma versão melhorada de pão com manteiga, e os pais adoram-no porque está sempre quente. Para a sobremesa, procure pudim de maracujá, a fruta que cresce em meio quintal da ilha. E uma nota para os pais: a poncha, a bebida nacional da Madeira feita de aguardente de cana, mel e limão, é deliciosa e traiçoeira. Uma ao almoço, não três, sob pena de a tarde na praia se transformar numa sesta forçada.
Quando a praia já não chega: o que fazer à volta
Há sempre aquele dia em que o céu fica cinzento ou as crianças, inexplicavelmente, se fartam de areia. Machico tem resposta sem obrigar a entrar no carro. A vila velha está cheia de cor, e a melhor forma de a descobrir com miúdos é transformá-la num jogo: o roteiro autoguiado pela arte urbana da cidade velha é uma caça ao tesouro de murais escondidos em becos, ideal para gastar energia entre fotografias. Funciona como passeio e como distração, e termina sempre perto de uma gelataria, o que ajuda na negociação.
Para famílias com filhos mais velhos e fôlego, Machico é também porta de entrada para uma das caminhadas mais bonitas da costa nordeste. A caminhada no Larano, o velho trilho dos pescadores, segue a falésia com o mar lá em baixo e dá aos adolescentes aquela sensação de aventura genuína sem ser tecnicamente difícil. Não é para carrinhos de bebé nem para pernas muito pequenas, mas para uma família de caminhantes habituados é uma manhã que se recorda mais do que qualquer praia.
E se a vontade for de levada, o clássico absoluto da ilha, vale a pena planear uma ou duas das levadas essenciais à volta do Funchal, escolhendo as mais planas e largas para quem leva crianças. As levadas são canais de água com caminhos ao lado, quase sempre direitos, o que as torna surpreendentemente amigas de famílias, desde que se evite as de precipício à beira do trilho.
Usar Machico como base
Aqui está o argumento que faz de Machico mais do que uma praia: a localização. Fica a vinte minutos do aeroporto, o que significa que se chega cansado e está-se com os pés na areia antes do jantar, sem a maratona de atravessar a ilha no primeiro dia. E está perfeitamente posicionada para excursões de um dia que devolvem as crianças exaustas e felizes à cama.
Santana, com as suas casas triangulares de colmo que parecem saídas de um livro ilustrado, é o passeio mais fotogénico da ilha para miúdos. Vá com calma, sem pressa de cumprir lista: o roteiro de 24 horas em Santana ao ritmo da ilha mostra como esticar uma manhã num dia inteiro sem que ninguém perca a cabeça. E o Funchal, a capital, fica a meia hora pela via rápida. Se a viagem cair em junho, a capital ganha vida com festivais e o ritual do atum acabado de pescar: vale a pena perceber o que esperar de Funchal em junho, entre atum, levadas e noites de festival antes de decidir os dias.
O segredo é não fazer quase nada
A tentação, na Madeira, é encher os dias. A ilha é generosa e a lista de coisas a ver não cabe numa semana. Mas viajar em família é uma arte da subtração, não da soma. A grande lição de Machico é que se pode ter umas excelentes férias na ilha mais espetacular do Atlântico fazendo, na prática, muito pouco: praia de manhã, almoço demorado, sesta, mais praia, jantar com peixe fresco, dormir.
O luxo real de Machico é o sossego. Não tem o burburinho do Funchal nem as multidões dos pontos turísticos de cartão-postal. Tem uma baía protegida, uma areia que não devia estar ali mas está, e o tipo de ritmo lento que faz as crianças dormirem bem e os pais lembrarem-se de que férias deviam ser isto. Chegue de manhã, ponha os filhos na areia, peça uma poncha (uma só), e deixe a ilha vertical para outra altura. Machico foi o primeiro pedaço de Madeira a ser habitado por gente. Continua a ser o mais fácil de habitar com uma família inteira a reboque.