Faro e o Mar: Onde Surfar, Aprender ou Apenas Olhar
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Faro e o Mar: Onde Surfar, Aprender ou Apenas Olhar

· · Faro

Faro não é uma cidade de surf, e qualquer pessoa honesta diz isto na primeira frase. Mas é uma base brilhante para mar, desde que aceite trocar ondas por ria, ilhas, kayak e flamingos ao amanhecer.

Vamos resolver isto já no primeiro parágrafo, porque há demasiada gente a chegar a Faro com uma prancha debaixo do braço e a expressão de quem foi enganado. Faro não é uma cidade de surf. Repito: Faro não é uma cidade de surf. A cidade não dá para o Atlântico aberto, dá para a Ria Formosa, um sistema lagunar protegido por uma cordilheira de ilhas-barreira que faz exactamente o trabalho que o nome sugere: barra o mar. As ondas que chegam a Faro são para crianças com bóias e para velhinhos a fazer hidroginástica.

Mas. E é um mas grande. Se aceitarmos que Faro é a base e não o palco, e se estivermos dispostos a fazer 20 minutos de carro ou um barquinho até à Ilha do Farol ou à Ilha Deserta, então sim, há mar a sério, há praia a sério, e há até espuma branca para quem tiver paciência de a procurar nos dias certos. Este é um guia honesto para quem quer combinar Faro com mar, sem fingir que estamos em Ericeira ou em Sagres.

A geografia importa: porque é que Faro tem ria e não rebentação

A Ria Formosa estende-se ao longo de 60 quilómetros, de Ancão a Cacela Velha, e protege a costa sotavento do Algarve numa espécie de braço de areia em movimento permanente. Para quem quer ondas, isto é um problema. Para quem quer águas calmas, kayak, paddle, observação de aves, banhos com crianças e marisco fresco, é um milagre.

A consequência prática: as melhores praias para banhos calmos ficam nas ilhas (Farol, Culatra, Deserta, Barreta), todas acessíveis por barco a partir do cais de Faro ou de Olhão. Para surf a sério, é preciso ir para barlavento, ou pelo menos até Albufeira/Armação de Pêra para ondas razoáveis e até Sagres ou Arrifana para ondas a sério. Falaremos disso já a seguir.

Onde ver mar (e não fingir que é praia urbana)

Praia de Faro: a praia da cidade que não é da cidade

A Praia de Faro fica na Ilha de Faro, a 9 quilómetros do centro, ligada por uma estrada estreita que passa ao lado da pista do aeroporto. Sim, vai ouvir aviões. Sim, vai ver aviões a passar por cima da cabeça enquanto se molha os pés. É surreal e divertido, e ninguém devia perder essa experiência pelo menos uma vez. O autocarro 16 sai do terminal e do centro de Faro com regularidade no verão, demora cerca de 20 minutos, e é a opção mais barata. Bilhete simples ronda os 2,35 euros (confirme localmente porque a Vamus mexe nos preços de tempos a tempos).

O lado virado para o oceano tem ondas, mas pequenas, frequentemente desorganizadas e raramente algo que um surfista experiente chame de surf. Para iniciantes absolutos, num dia de swell decente, dá. Há escolas que operam aqui no verão, com aulas de grupo a rondarem os 35 a 45 euros por pessoa por duas horas, prancha e fato incluídos. É um sítio razoável para experimentar pela primeira vez. Não é um sítio para evoluir.

Ilha Deserta (Barreta): a praia onde só há praia

Se a sua ideia de mar é silêncio, areia branca, água transparente e absolutamente nenhum bar de praia com sistema de som, a Ilha Deserta é o que procura. Sem electricidade fora do restaurante Estaminé (que é caro mas tem peixe fresco e um deck que justifica), sem ruas, sem nada. O barco sai do cais de Faro, demora cerca de 45 minutos, e a viagem em si já vale o bilhete. Para quem quer ir mais longe, recomendo combinar isto com um passeio de barco na Ria Formosa, que faz a circunavegação por várias ilhas e dá uma noção real do ecossistema.

Ilha do Farol e Ilha da Culatra

São duas comunidades piscatórias com gente que ali vive todo o ano, casinhas baixas pintadas de branco, redes a secar e cães a dormir à sombra. A Ilha do Farol tem a praia oceânica mais bonita acessível por barco a partir de Faro, com ondas pequenas mas presentes, areia fina e quase nenhuma sombra natural. Leve chapéu. A Culatra tem mais alma comunitária e marisco a preços decentes em tasquinhas que abrem e fecham conforme o humor do dono.

Surf a sério: para onde fugir de Faro

Praia da Falésia (Albufeira): o compromisso aceitável

A 30 minutos de carro para oeste de Faro, a Falésia é uma praia comprida com falésias avermelhadas espectaculares e ondas que, em dias bons, dão para iniciantes intermédios. Não é Supertubos, não é Coxos, mas é o que está mais perto de Faro com qualidade razoável. Há escolas que pegam alunos no centro de Faro e levam até aqui, com pacote de meio dia a rondar os 50 a 60 euros.

Costa Vicentina: Arrifana, Bordeira, Amado

Aqui falamos de outro nível. A 1h30 a 2h de carro de Faro, na costa oeste do Algarve, é onde os surfistas portugueses vão quando querem ondas a sério na zona sul. A Arrifana tem uma baía em forma de concha com ondas mais protegidas, ideal para iniciar quem já se aguenta em pé, e a Bordeira ou o Amado têm rebentação mais aberta para níveis intermédios e avançados. É um dia inteiro saindo de Faro, mas vale a pena. Para quem quer fazer o trajecto e ficar lá, vale a pena espreitar o guia de bairros de Lagos, que é a base mais lógica para explorar a costa oeste.

Sagres: o lado mítico

Sagres é onde a Europa acaba e o Atlântico começa a sério. Tonel, Beliche, Mareta, Martinhal, cada uma tem o seu carácter e a sua direcção de swell. É uma viagem grande a partir de Faro (cerca de duas horas), mas se vai fazer surf no Algarve e quer fazê-lo bem feito, é em Sagres ou na Costa Vicentina. Ponto.

Alternativas para quem quer mar sem ondas

Kayak na Ria Formosa

Se aceitarmos que em Faro o mar não dá ondas, a melhor forma de o usar é em kayak ou stand-up paddle. A Ria Formosa de manhã cedo, com nevoeiro a levantar e flamingos ao longe, é uma das experiências mais subestimadas do Algarve. Há tours organizados que saem do cais e levam até ilhotas que os barcos turísticos não conseguem atingir, e este passeio de kayak na Ria Formosa é a forma mais directa de experimentar isso sem ter de pedir a barcos cheios de turistas que parem onde queremos. Preço médio ronda os 35 a 45 euros por pessoa para um tour de duas a três horas.

Observação de aves: o desporto mais subestimado de Faro

Se nunca pensou em observação de aves, leia-me com paciência por dois minutos. A Ria Formosa é casa de flamingos, garças, alfaiates, perna-longas e centenas de espécies migratórias. Em Outubro e Novembro, e novamente em Março e Abril, a paisagem fica densa de aves. Não precisa de ser ornitólogo. Precisa só de uns binóculos baratos e uma manhã sem pressa. Os passadiços do Ludo, à beira do aeroporto, são gratuitos e têm vistas sobre as salinas onde os flamingos se concentram em maior número.

Como organizar o dia: a logística sem ser chata

Se a ideia é fazer um dia equilibrado, recomendo isto: começar cedo, antes das oito, com pequeno-almoço numa pastelaria a sério. A Pastelaria Gardy é o clássico do centro, instituição da cidade, com pastéis de nata acima da média e um café decente. Quem quiser uma alternativa menos óbvia, a Pastelaria Padaria Centeio faz pão de forma mais artesanal e tem o tipo de bolo de noiva que só sobrevive em pastelarias com mais de 30 anos. Para o lado mais doce e antiquado, com vitrines coloridas e senhoras de avental, a Pastelaria Cinderela é o sítio.

Depois do pequeno-almoço, vá ao cais e apanhe o primeiro barco para a Deserta ou para o Farol. Passe a manhã na praia. Volte ao centro pelas duas para almoçar (peixe grelhado em qualquer tasca da Vila Adentro ou da zona ribeirinha) e, à tarde, em vez de voltar à praia, faça uma exploração lenta dos tesouros escondidos de Faro: a capela dos Ossos, o claustro do convento, as muralhas. É a parte da cidade que toda a gente passa a correr e que merece duas horas tranquilas.

Para quem quer perceber melhor o lado humano e gastronómico da cidade, o nosso guia sobre cultura local em Faro tem mais detalhe sobre tradições, mercados e festas que dão à cidade um carácter próprio que se perde se ficarmos só pela praia.

O que comer quando se sai do mar

Voltar do mar com fome e sal na pele é um dos maiores prazeres possíveis. A pergunta é: comer o quê? A resposta honesta é: peixe. Mas peixe a sério, não o peixe congelado que algumas esplanadas turísticas servem como se fosse fresco. O Mercado Municipal de Faro abre de manhã cedo e fecha por volta das duas, e é onde se vê o que chegou ao porto naquela noite. Carapau, sardinha (na época), dourada, robalo, polvo, lulas. Quem cozinhar em casa, é aqui que compra. Quem for almoçar fora, há tasquinhas na zona da Sé e da Vila Adentro que servem peixe grelhado a preços razoáveis. Espere pagar entre 12 e 18 euros por uma dose decente, dependendo do peixe.

Conjuntinho importante: cataplana de marisco em Faro, sim ou não? Sim, mas escolha o sítio com cuidado. A cataplana é prato de partilha, é caro (40 a 60 euros para dois), e quando feita por mãos preguiçosas é um insulto. Pergunte ao vosso anfitrião do alojamento qual é o sítio dele, não a primeira esplanada com o cartaz a oferecer.

Para famílias e para quem viaja com crianças

Faro com crianças é mais fácil do que parece, exactamente porque o mar não tem ondas. As praias da Ria Formosa são piscinas naturais à temperatura do mar mediterrânico, com fundo de areia fina e descida lenta. Para quem está a planear uma viagem de família mais alargada pelo Algarve, vale a pena combinar Faro com Silves, e o nosso guia honesto de Silves com crianças dá uma ideia clara do que esperar.

Quando ir e o que evitar

Junho e Setembro são os meses certos. Julho e Agosto têm a praia cheia, os preços inflados, e calor que pode chegar aos 38 graus em dias maus. Maio e Outubro são deliciosos, com mar ainda frio mas suportável e quase sem multidões. Novembro a Março, o mar não convida a banhos para portugueses, mas convida a caminhadas, observação de aves, gastronomia e a essa luz invernal do Algarve que é, sem exagero, das melhores do país.

Evitar: as esplanadas com menus em sete línguas e fotos do bacalhau à brás. Evitar: barcos turísticos sobrelotados que param por dez minutos em cada ilha e tratam o passeio como uma linha de produção. Evitar: pensar que Faro é só passagem para Albufeira ou Tavira. A cidade tem mais para dar do que parece, e o mar à volta dela, mesmo sem ondas, é dos mais bonitos da Europa quando se sabe onde olhar.

Em resumo, sem ser bonitinho

Faro é uma boa base para uma semana de mar, desde que a definição de mar não exija obrigatoriamente ondas. Para surf a sério, vá uma manhã a Albufeira ou faça uma escapada de dois dias a Sagres. Para nadar, é nas ilhas. Para kayak, é na ria. Para flamingos e silêncio, é nos passadiços do Ludo às sete da manhã. Para acabar o dia, é numa pastelaria do centro com um galão e um pastel decente, a olhar para a calçada portuguesa e a perceber porque é que esta cidade, apesar de tudo, é dos sítios mais subestimados do sul do país.

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