Escapadinha à Serra da Estrela: Fugir ao Calor de Albufeira
Guia

Escapadinha à Serra da Estrela: Fugir ao Calor de Albufeira

· · Albufeira

Quando Albufeira aperta a 35 graus, há uma fuga de quase 500 quilómetros que vale cada minuto de estrada: rios glaciares, poças de água gelada e queijo de ovelha feito com flor de cardo. Guia prático para quem troca o Atlântico morno pelo frio da Serra da Estrela.

Há uma altura em agosto, normalmente por volta das três da tarde, em que Albufeira deixa de ser uma cidade e passa a ser uma sauna com esplanadas. O ar não mexe, o asfalto da Avenida da Liberdade devolve o calor que apanhou de manhã e a única sombra decente já está ocupada há horas. É nessa altura que aparece a ideia mais irracional e mais acertada do verão algarvio: meter-se no carro e conduzir quase quatro horas e meia, sensivelmente 480 quilómetros, até um sítio onde a água do rio dói de fria. Chama-se Serra da Estrela e, sim, é uma loucura fazer essa viagem a meio das férias de praia. É também, sem exagero, a melhor decisão que se pode tomar quando o mar já não chega para arrefecer ninguém.

Não é a mesma água. O Atlântico em Albufeira em agosto anda por volta dos 21 ou 22 graus, uma temperatura simpática, quase morna ao fim da tarde. A água que desce da Torre, o ponto mais alto de Portugal continental a 1993 metros, nasce gelada e continua gelada quilómetros depois. Entrar numa piscina natural da Serra da Estrela em pleno verão é um choque físico, dos bons: o corpo inteiro contrai, a respiração corta-se por um segundo e depois vem aquela sensação de estar completamente acordado que nenhuma piscina de hotel algarvio consegue replicar.

Antes de arrancar: um dia em Albufeira para preparar a fuga

Ninguém deve conduzir cinco horas de estômago vazio ou com o carro por arrumar. Se vai partir de madrugada, vale a pena fazer o check-out mental do Algarve com calma no dia anterior. Um almoço decente antes da estrada, sem pressas, faz diferença: o Restaurant Atrium é a escolha certa para isso, uma refeição que não deixa ninguém a conduzir com fome nem demasiado cheio. E se ainda não conhece bem a cidade que está prestes a trocar por uma semana por granito e pinheiros, um passeio de bicicleta elétrica com a Bikesul pelas falésias, praias e centro histórico de Albufeira é uma forma inteligente de despedida, cobrindo em duas horas o que a pé levaria o dia todo.

Há também quem prefira encerrar o capítulo algarvio com as mãos na massa, literalmente: a aula de cozinha portuguesa na MIMO Algarve ensina a fazer em casa o que normalmente só se come em esplanada, o que é útil porque na Serra da Estrela a gastronomia muda completamente de registo, de peixe grelhado para queijo curado e enchidos fumados. E antes de fechar a porta de casa, vale subir ao Miradouro do Pau da Bandeira ao final da tarde, para ver o sol cair sobre o Atlântico uma última vez antes de trocar o horizonte de água por horizonte de montanha.

A estrada até lá

Não há forma de disfarçar: é uma viagem longa. Do litoral algarvio até Manteigas ou Seia conta-se, com uma paragem para café, umas boas quatro horas e meia a cinco horas de estrada, a maior parte em autoestrada até chegar às serras do interior centro. A parte final, já dentro do Parque Natural da Serra da Estrela, é onde a viagem deixa de ser um sacrifício e passa a ser parte do programa: estradas de curvas apertadas, afloramentos de granito à vista e, em pleno agosto, uma temperatura que cai visivelmente à medida que se sobe.

Vale a pena não fazer a viagem numa só sentada. Quem parte de manhã cedo de Albufeira consegue, com sorte e sem grandes desvios, chegar a tempo de um mergulho ainda a meio da tarde. Quem prefere ir com calma, divide em dois dias e dorme algures pelo caminho.

Onde a água realmente vale a pena

A Serra da Estrela não tem praias fluviais a cada esquina, mas as que tem são das melhores do país, e é preciso escolher com cabeça porque nem todas merecem a mesma paragem.

Praia Fluvial de Loriga

Esta é a única praia fluvial em Portugal instalada dentro de um vale glaciar, o que já diz muito sobre a paisagem que a rodeia. Fica no concelho de Seia, tem Bandeira Azul e as águas claras e frias da Ribeira de Loriga formam pequenas poças naturais e quedas de água que convidam a saltos e mergulhos. É a que recomendo sem hesitar a quem só vai fazer uma paragem: chegar de manhã, antes das famílias com crianças a gritar de frio ao entrar na água, é a melhor versão de Loriga.

Poço do Inferno

O nome assusta mais do que o sítio. Esta queda de água perto de Manteigas, acessível a partir da estrada que liga a vila à EN232, é uma das cascatas mais fotografadas da serra, e com razão. A água cai numa poça rodeada de rocha e vegetação densa, fresca o ano inteiro, mas em agosto é ali que se percebe porque é que vale a pena fugir do calor do Algarve: a temperatura sobe uns bons cinco ou seis graus assim que se sai da sombra das árvores em redor.

Praia Fluvial de Valhelhas

Menos conhecida do que Loriga, esta praia fluvial fica entre Manteigas e o acesso à autoestrada, na EN232, o que a torna uma paragem prática para quem está de passagem. É mais pequena, mais discreta, e por isso costuma ter menos gente, mesmo em pleno agosto.

Covão da Ametade

A cerca de 1420 metros de altitude, já no concelho de Manteigas, este é o ponto onde começa o vale glaciar do Zêzere, o rio que nasce perto da Torre. Não é bem uma praia fluvial no sentido tradicional, mas as poças de água límpida ao longo do rio, com a paisagem aberta do vale glaciar como pano de fundo, tornam este um dos sítios mais bonitos de toda a serra. Vá cedo: ao fim da manhã, os carros já não têm onde estacionar.

O que levar, o que comer

  • Roupa em camadas: pode fazer 28 graus em Seia e 14 na Torre no mesmo dia.
  • Calçado que aguente pedras molhadas e escorregadias, sandálias de praia não chegam.
  • Toalha e roupa extra: a água é fria e ninguém quer conduzir de fato de banho molhado.
  • Dinheiro vivo para as aldeias mais pequenas, onde nem todos os cafés aceitam cartão.

Quanto à mesa, esqueça o peixe grelhado por uns dias. Aqui manda o queijo da Serra da Estrela DOP, feito com leite cru de ovelha bordaleira, coalhado com flor de cardo em vez de coalho animal, uma técnica antiga que dá àquele queijo untuoso, quase líquido no ponto certo, o sabor levemente ácido que não se encontra em mais lado nenhum. Prove-o em Manteigas ou em Seia, de preferência acompanhado de broa e um vinho tinto da região. Sabugueiro, a aldeia mais alta de Portugal, é onde se compra o queijo direto a quem o faz, sem intermediários.

E se não conseguir fugir?

Nem toda a gente tem cinco dias livres a meio de agosto para trocar o Algarve pela Serra da Estrela, e não há mal nenhum nisso. Se a fuga tiver de esperar para o próximo ano, o Algarve interior também tem as suas próprias versões de sossego: Silves com crianças oferece rio, castelo e sombra sem sair da região, um dia inteiro fora do burburinho costeiro sem gastar em portagens. E para quem quer perceber o Algarve que não está nos postais, vale a pena ler sobre a cultura local em Faro, uma cidade que continua a viver ao seu próprio ritmo, longe da agitação de Albufeira em agosto.

Mas se conseguir escapar, mesmo que só por três ou quatro dias, faça-o. Voltar para Albufeira com a pele arrepiada de frio na memória, depois de um mergulho no Zêzere ou na Ribeira de Loriga, muda a forma como se vive o resto do verão. De repente o calor da esplanada às três da tarde parece suportável, porque já se sabe que a alguns quilómetros de estrada há água que ainda dói de fria em agosto, e isso, sinceramente, vale mais do que qualquer piscina de hotel.

Algarve Albufeira Serra da Estrela praias fluviais verão