Albufeira ao Ritmo das Festas: O Calendário Local Explicado
Onze freguesias, onze calendários, e uma cidade que parece duas. Da procissão de São Pedro à doçaria conventual de Setembro, este é o ano de Albufeira contado por quem não come sardinhas para a Instagram.
Há duas Albufeiras. A primeira, a que sai nos folhetos das agências britânicas, vive entre Junho e Setembro, dança até às 4h na Oura e acha que o Algarve foi inventado em 1986. A segunda, a que interessa, abre o ano com um cortejo de Reis em Paderne, fecha-o com bacalhau assado nas ruas da Guia, e no meio disso tudo serve sardinhas em pratos de barro a euro e meio cada. Este artigo é sobre a segunda Albufeira, organizada pelo único calendário que aqui faz sentido, o das festas.
Aviso de leitor honesto: o concelho tem onze freguesias e cada uma reza a um santo diferente. Não tente fazer tudo. Escolha duas ou três datas, reserve alojamento com antecedência (preços sobem 30% nas semanas das festas grandes) e prepare-se para comer em pé, com guardanapo de papel, ao som de um acordeão desafinado. É assim que se faz.
Janeiro a Março: o Algarve que ninguém vê
Quem chega a Albufeira em Janeiro encontra uma cidade encolhida sobre si mesma. Metade dos restaurantes da zona velha está fechada para férias do pessoal, a praia dos Pescadores tem três pessoas, e os cafés do Largo Engenheiro Duarte Pacheco abrem só ao balcão. É a melhor altura do ano para falar com locais sem pressa.
O Dia de Reis, a 6 de Janeiro, ainda se vive com seriedade no interior do concelho. Em Paderne, a aldeia medieval a vinte minutos de carro do centro, há cantares dos Reis pelas ruas, grupos a baterem à porta a pedir bolo-rei e aguardente em troca de coplas. Não é encenação para turistas. Se calhar de aparecer, não tire o telemóvel logo, ouça primeiro. Os miúdos cantam mal e os avós cantam pior, e é exactamente isso que torna a coisa preciosa.
Em Fevereiro chega o Carnaval, que em Albufeira é mais discreto do que em Loulé (a vinte minutos de distância e infinitamente mais barulhento), mas mais autêntico. O desfile passa pela Avenida da Liberdade, há matrafonas, há crítica política grosseira em verso, e há sandes de chouriço a dois euros nas barracas. Vá ao desfile do domingo gordo, almoce uma feijoada algarvia (a versão local leva couve portuguesa e morcela) em qualquer tasca da Guia, e volte para o hotel a dormir a sesta. É o programa.
Março é mês de descobrir a costa sem multidões. Aproveite para fazer o tour de e-bike pela orla costeira com a Bikesul, que nesta altura do ano oferece falésias vazias e luz baixa, perfeita para fotografias. Pare no Miradouro do Pau da Bandeira para ver a praia dos Pescadores ainda sem chapéus de sol, é uma imagem diferente da que sai nos postais.
Páscoa: a folar e o cabrito
A Páscoa em Albufeira não é o espectáculo barroco que se vê no Norte. Aqui é caseira. As famílias trocam folar (o algarvio leva canela e erva-doce, é mais perfumado que o transmontano) e há missas concorridas na Igreja Matriz e na Igreja de São Sebastião, esta última um pequeno tesouro do século XVIII com tecto pintado que vale entrar mesmo fora de cerimónia.
No Domingo de Páscoa, reserve uma mesa numa casa de comida tradicional para cabrito assado no forno. Os preços rondam os 18 a 22 euros por pessoa, e a maioria das casas só faz reserva por telefone, à moda antiga. Se quiser perceber porque é que a Páscoa algarvia é uma coisa séria, faça antes a aula de cozinha portuguesa na MIMO Algarve: aprende-se a fazer xerém, açorda de marisco e, dependendo da estação, sobremesas conventuais.
Maio e Junho: a explosão dos santos populares
Se tem de escolher um único momento para visitar Albufeira, escolha as duas primeiras semanas de Junho. É quando a cidade explode em festas de bairro, quando os largos se enchem de manjericos, e quando aquela imagem batida de Portugal, a das sardinhas a grelhar na rua, é literalmente a paisagem que se vê em cada esquina.
Santo António (13 de Junho)
Albufeira tem o seu Santo António, mas não é uma versão menor da festa de Lisboa, é outra coisa. As celebrações concentram-se na zona antiga e em alguns largos da Guia. Há marchas, há arraial, há sardinhada comunitária. Os preços são honestos: sardinha assada com pão e pimento entre 6 e 8 euros, imperial a euro e meio, vinho da casa a três euros o copo. Não é gastronomia de revista, é comida de rua a fazer-se bem.
Conselho de quem já fez a asneira: não jante em restaurante na noite de 12 para 13. Compre na rua, sente-se num passeio, e olhe à volta. A multidão é o prato principal.
São João (24 de Junho) e São Pedro (29 de Junho)
São João, em Albufeira, é mais celebrado do que parece à primeira vista. Há quem use os martelinhos de plástico (importação portuense que pegou), há fogueiras na areia em algumas praias, e há um arraial no Largo Eng. Duarte Pacheco que se estende pela noite dentro. Mas a verdadeira festa do mar é São Pedro, padroeiro dos pescadores.
A 29 de Junho, na praia dos Pescadores, há procissão fluvial: as embarcações da comunidade piscatória, ainda activa apesar de tudo, saem com a imagem do santo, passam pela costa e regressam ao cais. Quem queira ver isto bem, suba ao Miradouro da Rua Latino Coelho uma hora antes da procissão. Tem vista panorâmica sobre toda a baía e está sempre menos cheio do que o Pau da Bandeira.
Julho e Agosto: a sobreposição infernal (mas com bons momentos)
Em Julho e Agosto, Albufeira recebe mais de 600 mil dormidas mensais. É muita gente. Os preços de restaurante sobem, os parques de estacionamento ficam impossíveis depois das 10h, e a zona da Oura transforma-se num parque temático britânico que é melhor evitar a não ser que se tenha 22 anos e tolerância para pop dos anos 2000 a alto volume.
Mas há razões para vir, mesmo no pico. A principal chama-se Festival al-Buhera, a recriação histórica da Albufeira islâmica que ocupa a zona antiga durante três ou quatro dias em Agosto (a data exacta muda todos os anos, confirme no site da Câmara). Há mercado mourisco, há demonstrações de falcoaria, há concertos de música árabe-andaluza em pátios, há um cheiro permanente a tâmaras e a especiarias. Entrada gratuita, comida e bebida pagam-se nas barracas (orçamente 15 a 20 euros por pessoa para uma refeição completa).
O outro evento estival que merece atenção é o Festival de Marisco na Olhos de Água, normalmente em finais de Julho. Pequeno, com programação musical modesta, mas com mariscadas a preço de feira (lagostim a 15 euros, gambas a 12, percebes quando há) que em qualquer restaurante da marina lhe sairiam o triplo.
Em Agosto, a 15, é dia da padroeira da Guia, Nossa Senhora da Guia. A freguesia da Guia, conhecida pelo seu frango piri-piri (sim, é aqui que nasceu, não em Lisboa nem em qualquer corrente de fast food), enche-se de gente. Procissão de manhã, almoço comunitário ao meio-dia (mesa corrida, traga prato e talher se quiser participar a sério), arraial à noite.
Para fugir do calor e da confusão, aproveite os fins de tarde no Miradouro do Rossio: a brisa do mar entra pela rua, o sol cai por trás das falésias a oeste, e por dez minutos ninguém se lembra que estamos em época alta.
Setembro: o mês secreto
Pergunte a qualquer local quando é a melhor altura para visitar e a resposta é unânime: Setembro. A água do mar atinge nesta altura a temperatura máxima do ano (22 a 23 graus), os miúdos voltaram à escola, os britânicos vão-se embora, e a luz dourada de fim de Verão favorece tudo, da pele às fotografias.
Setembro tem dois eventos que vale a pena reter. O primeiro é a Mostra de Doçaria Conventual e Tradicional, normalmente na primeira ou segunda semana, na zona antiga. Há doces que só se fazem aqui (morgados de figo, dom-rodrigos algarvios, queijinhos de figo seco), há provas a preços simbólicos (entre um e três euros por dose), e há senhoras de avental a explicar receitas com paciência.
O segundo é a Vindima na Quinta do Francês, em Lagoa (quinze minutos de carro), aberta ao público em fins-de-semana de Setembro. Vinhos algarvios, pisa da uva à moda antiga (sim, é encenação, mas é boa encenação), almoço regional incluído na visita. Reserve. Não é caro, ronda os 35 euros por adulto, e enche.
Aproveite Setembro também para descobrir o que está perto. Uma boa hipótese é o nosso guia de Silves para famílias, que dá um dia completo a quarenta minutos de Albufeira (castelo, fábrica do inglês, almoço junto ao rio Arade).
Outubro a Novembro: castanhas, magusto e silêncio recuperado
Outubro traz de volta o Algarve dos algarvios. Os preços normalizam, a luz fica mais baixa, e há uma sensação de cidade que respira fundo depois de meses a suster a respiração.
A 11 de Novembro celebra-se o São Martinho. Em Albufeira, o magusto é tradicionalmente pequeno e familiar, mas há fogueiras públicas em vários largos, há castanhas assadas a três ou quatro euros o cone, e há água-pé (vinho ainda em fermentação, suave, doce, traiçoeiro) servida em copos de plástico em quase todas as tascas do centro. Vá com cuidado, a água-pé entra a brincar e sai a chorar.
Outro evento a marcar é a Mostra de Gastronomia do Mar, em Olhos de Água, em finais de Outubro ou princípios de Novembro (a data muda, confirme). Pequena, dois ou três dias, mas com pratos sazonais que não se encontram nos restaurantes turísticos: caldeirada de raia, sopa de cação, polvo à algarvia feito à moda da Guia (com batata cozida, não frita).
Dezembro: o presépio e o bacalhau
Dezembro em Albufeira é quase clandestino. Há iluminação no centro, há o presépio gigante no Largo Eng. Duarte Pacheco (não é Verssolheiro, mas tem o seu charme), e há mercadinhos de Natal de pequena escala em vários largos. Nada disto se compara aos mercados germânicos, é claro, e quem vier à espera de glühwein vai-se desiludir.
Mas a véspera de Natal e a noite de 31 são experiências interessantes para quem queira fugir das casas cheias de família. Restaurantes locais servem consoada (bacalhau cozido com batata, couve e ovo, regado com azeite, simples e perfeito) por preços que variam entre os 25 e os 40 euros por pessoa, vinho incluído. Reserve com antecedência, são poucas as casas que abrem nesta noite.
A passagem de ano oficial é na praia dos Pescadores, com fogo-de-artifício sobre as falésias visto do miradouro principal (chegue uma hora antes para ter lugar). Não tem a escala do Funchal ou do Porto, mas é decente, dura cerca de doze minutos, e o reflexo nas falésias amarelas tem uma estética muito particular.
Como navegar tudo isto sem dar em maluco
Cinco conselhos práticos de quem já cometeu todos os erros:
- Reserve alojamento com três a seis meses de antecedência para as festas de Junho e Agosto. Os preços duplicam na semana de Santo António.
- Não alugue carro só para as festas. Use táxi ou TVDE entre freguesias. Conduzir e procurar estacionamento em noite de arraial é uma forma rápida de arruinar a viagem.
- Coma na rua sempre que possível. As barracas das festas têm comida mais honesta, mais barata e mais autêntica do que 90% dos restaurantes turísticos do centro.
- Leve dinheiro vivo. Multibanco nas festas de bairro é raríssimo. Tenha sempre 50 a 100 euros em notas pequenas.
- Pergunte aos locais. As datas exactas mudam, há festas pequenas que não estão nos folhetos turísticos, e a única forma de saber é perguntar no café da esquina, ao senhor que está a tomar a bica das 11h.
Se Albufeira lhe souber a pouco, ou se quiser perceber o Algarve para lá da costa, leia o nosso guia de cultura local em Faro ou o nosso guia de bairros de Lagos. São cidades irmãs, com calendários próprios, e juntas dão-lhe um retrato muito mais honesto do Algarve do que qualquer brochura.
O resto, faça-o à algarvia: devagar, com sombra, e com tempo para uma bica antes do próximo plano.