Câmara de Lobos: O Que Fica Depois dos Turistas Saírem
Guia

Câmara de Lobos: O Que Fica Depois dos Turistas Saírem

· · Câmara de Lobos

A maioria dos turistas dá trinta minutos a Câmara de Lobos: fotografia ao porto, poncha rápida, adeus. Mas a vila que Churchill pintou tem vinhas em socalcos, espada preta acabada de pescar e uma das melhores falésias da Europa, tudo à espera de quem fica para o dia inteiro.

Toda a gente conhece a cena: o porto pitoresco, os barcos coloridos, a baía que Churchill pintou em 1950. Câmara de Lobos é provavelmente a vila mais fotografada da Madeira, e por boas razões. O problema é que a maioria dos visitantes chega de autocarro, tira a fotografia no miradouro, bebe uma poncha no primeiro bar que encontra, e vai embora. Trinta minutos. É tudo o que dão a um sítio que merece um dia inteiro.

Vou ser directo: se só conhece a marina, não conhece Câmara de Lobos.

Para lá da baía de Churchill

O centro histórico de Câmara de Lobos organiza-se em torno do porto, sim, mas estende-se por ruelas íngremes que sobem em direcção à igreja de São Sebastião e para lá dela. É aqui que a coisa fica interessante. De manhã cedo, antes das dez, as ruas junto ao porto ainda cheiram a peixe fresco e a sal. Os pescadores que trabalham com espada preta, o peixe de profundidade que é uma obsessão madeirense, chegam com as capturas e há uma energia real, não encenada para turistas.

Suba pela Rua de São João de Deus em direcção à parte alta da vila. As casas têm fachadas desgastadas pelo tempo, com roupa a secar nas varandas e vasos de gerânios que ninguém plantou para ficar bonito na fotografia. É uma aldeia a funcionar, não um cenário. Há uma capela pequena, a Capela do Corpo Santo, junto ao porto, que vale a pena espreitar se estiver aberta.

O que comer (e o que evitar)

Câmara de Lobos é território de espada preta com banana. Se nunca provou, este é o sítio certo para o fazer. O peixe é pescado a grandes profundidades ao largo da costa da Madeira e tem uma textura firme, quase carnuda. A combinação com banana frita pode parecer estranha, mas funciona. Procure tascas com ementa curta e sem fotografias na porta, é quase sempre melhor sinal.

A espetada madeirense, carne de vaca no espeto de louro, é outro clássico que encontra aqui. O Estreito de Câmara de Lobos, a freguesia vizinha que fica na encosta acima da vila, é particularmente conhecida pela espetada. Nos fins-de-semana, há restaurantes por ali que enchem com famílias locais, o que é sempre um bom indicador.

Evite os restaurantes com menus em cinco línguas na zona mais turística do porto. Não são maus, mas são medianos e cobram a mais pela vista. Se quer comer com vista para o mar, prefira subir ao miradouro do Cabo Girão, a poucos quilómetros, e fazer um piquenique. A plataforma de vidro suspensa sobre o oceano, a quase 600 metros de altura, é uma experiência por si só, e a entrada é gratuita.

A poncha certa no sítio certo

A poncha é a bebida da Madeira. Aguardente de cana, mel de abelha e sumo de limão, misturados com um pau próprio chamado caralhinho (sim, o nome é esse, não inventei). É mais forte do que parece e é fácil perder a noção depois da segunda.

Há bares de poncha por toda a Madeira, mas Câmara de Lobos tem um dos melhores. O Bar Number Two, É Prá Poncha, é o tipo de sítio onde se vai pela bebida e se fica pela conversa. Peça a poncha regional, que leva maracujá além do limão. Se preferir algo menos alcoólico, a nikita, uma mistura de cerveja com gelado de ananás, é uma invenção madeirense que parece ridícula mas funciona surpreendentemente bem em dias quentes.

Uma poncha custa entre 2,50€ e 4€, dependendo do sítio. Não pague mais do que isso.

As levadas: o outro lado de Câmara de Lobos

A maioria dos visitantes não associa Câmara de Lobos a caminhadas, mas deviam. As levadas, os canais de irrigação que cortam toda a ilha da Madeira, passam por aqui e oferecem percursos acessíveis com vistas extraordinárias sobre a costa sul.

A Levada do Norte, que passa pelo Estreito de Câmara de Lobos, é uma caminhada tranquila por entre vinhas em socalcos e floresta de louro. Não é das levadas mais famosas, o que é uma vantagem. Se quer explorar os trilhos mais conhecidos da região, o nosso guia sobre as levadas essenciais do Funchal é um bom ponto de partida, especialmente se visitar na Primavera.

Para quem gosta de caminhar a sério e está disposto a explorar outras zonas de Portugal, a Rota Vicentina no Alentejo é outra experiência que vale cada quilómetro, embora num registo completamente diferente.

O vinho que ninguém menciona

A Madeira é famosa pelo seu vinho fortificado, mas poucos turistas sabem que a zona de Estreito de Câmara de Lobos é uma das principais áreas de produção. As vinhas em socalcos, chamadas poios, trepam pelas encostas e produzem algumas das castas mais importantes: Tinta Negra, principalmente, mas também Verdelho.

Em Setembro, a Festa da Vindima do Estreito transforma a freguesia num festival de pisar uva e comer espetada. Se calhar nessa altura, é uma das festas mais genuínas da ilha, sem grandes encenações para turistas. Confirme localmente as datas exactas, que variam de ano para ano.

Fora da época das vindimas, pode visitar adegas na zona, mas a oferta de enoturismo organizado ainda é limitada comparada com o Funchal. A melhor estratégia é perguntar nos restaurantes locais se conhecem alguém que faça visitas.

Cabo Girão e os socalcos suspensos

O Cabo Girão fica tecnicamente na freguesia de Câmara de Lobos e é uma daquelas paragens obrigatórias que realmente justificam a fama. A falésia tem cerca de 580 metros de altura e o skywalk de vidro no topo dá a sensação de estar suspenso sobre o Atlântico. É gratuito e abre todos os dias.

O que é menos conhecido: lá em baixo, na base da falésia, há terrenos agrícolas, os fajãs, acessíveis apenas por teleférico. Os agricultores ainda cultivam banana e vinha nestes socalcos junto ao mar. É possível descer de teleférico (confirme localmente os horários e preços, que mudam com a estação), e vale a pena pela perspectiva inversa: olhar para cima desde a base da falésia maior do que olhar para baixo desde o topo.

Como chegar e como organizar o dia

Câmara de Lobos fica a cerca de 10 minutos de carro do Funchal, ou 20 a 30 minutos de autocarro (linhas da Horários do Funchal, com partida da Praça da Autonomia). O autocarro é perfeitamente funcional e custa pouco mais de 2€.

O meu conselho: chegue de manhã, passeie pelo porto e pelas ruas da parte alta, almoce numa tasca, vá ao Cabo Girão à tarde, e volte à vila ao fim do dia para uma poncha. Se tiver tempo e gostar de caminhadas, adicione uma levada de manhã cedo.

Se estiver a explorar a Madeira de forma mais alargada, combine Câmara de Lobos com um dia em Santana, do outro lado da ilha. O nosso roteiro para 24 horas em Santana ajuda a planear isso, e se gostar de artesanato local, o guia sobre artesanato de Santana tem boas sugestões do que trazer para casa.

Uma vila que funciona sem turistas

O que mais gosto em Câmara de Lobos é que funciona perfeitamente sem nós. Os pescadores saem ao mar porque é o que fazem, não porque há alguém a filmar. Os velhos jogam cartas no café junto à igreja porque sempre jogaram. A poncha serve-se forte porque é assim que se bebe, não porque fica bem no Instagram.

É uma vila de trabalho que, por acaso, também é bonita. E essa combinação, cada vez mais rara, é o que a torna especial. A fotografia do porto, essa que toda a gente tem, não conta nem metade da história.

Madeira Câmara de Lobos Cabo Girão poncha levadas espada preta gastronomia madeirense