24 Horas em Câmara de Lobos: Poncha, Peixe e Porto
Um dia inteiro em Câmara de Lobos, do porto ao pôr-do-sol. Espetada num pau de louro, poncha de maracujá ao fim da tarde, e o peixe-espada preto mais fresco da Madeira. Sem pressa, sem autocarros de excursão.
Câmara de Lobos não precisa de um fim de semana. Precisa de um dia inteiro, sem pressa, com o estômago vazio e a disposição certa para beber poncha às quatro da tarde sem culpa nenhuma. É uma vila que funciona num ritmo próprio: os pescadores saem antes do sol, os bares enchem ao meio-dia, e ao final da tarde o porto inteiro parece uma pintura que alguém se esqueceu de emoldurar. Winston Churchill não se esqueceu. Veio cá em 1950 e pintou exactamente isso.
Este roteiro começa de manhã cedo e termina com o copo na mão. Não é exaustivo, é honesto. Estas são as paragens que valem o seu tempo.
8h00: O Porto Antes dos Turistas
Se está hospedado no Funchal, apanhe o autocarro da Rodoeste (linhas 1, 2, 4 ou 6 fazem o trajecto em cerca de 20 minutos) ou venha de carro. Há estacionamento junto ao porto, mas de manhã cedo nem precisa de se preocupar. O segredo é chegar antes das dez, quando os autocarros de excursão ainda não apareceram.
Desça até ao porto e fique ali uns minutos. As xavelhas, os barcos de pesca tradicionais pintados em azul, vermelho e amarelo, balançam na água parada. Se tiver sorte, ainda vê pescadores a descarregar peixe-espada preto, o peixe mais feio e mais delicioso da Madeira. Não é cenário montado para turistas. É o ganha-pão de dezenas de famílias que ainda vivem da pesca aqui.
Suba ao Miradouro de Churchill, o ponto exacto onde o ex-primeiro-ministro britânico montou o cavalete. A vista sobre a baía é absurdamente boa, especialmente com a luz da manhã. Tire a fotografia, mas não passe ali mais de quinze minutos. Há mais para ver.
9h00: Café e Bolo do Caco
Procure um dos cafés junto ao largo principal. Não vou recomendar um nome específico porque os melhores bolos do caco em Câmara de Lobos estão nos sítios mais improváveis: uma padaria sem nome, uma tasca com três mesas. O que interessa é pedir bolo do caco com manteiga de alho, quentinho, acabado de sair da pedra. Se encontrar um com manteiga de alho feita na hora (reconhece-se pelo cheiro), sente-se e peça dois. Custa pouco mais de um euro, e é o melhor pequeno-almoço que vai comer na Madeira.
Acompanhe com uma bica forte. Os madeirenses bebem café como respiram: muitas vezes e sem pensar muito nisso.
10h30: O Passeio Costeiro até ao Funchal (ou o Contrário)
Há um percurso pedestre costeiro entre Câmara de Lobos e a zona oeste do Funchal, com cerca de três quilómetros. É um passadiço elevado ao longo das falésias, sem grande dificuldade, com vistas sobre o Atlântico que justificam cada passo. Se veio de autocarro, pode fazer o caminho de regresso a pé e apanhar transporte no outro sentido.
Se prefere algo mais ambicioso, considere explorar as levadas nos arredores do Funchal. Mas hoje é dia de vila, não de montanha. Guarde as levadas para amanhã.
Para quem gosta de trilhos com personalidade, a Rota Vicentina no continente é outro mundo, mas a costa madeirense tem um drama vertical que o Alentejo não consegue replicar.
12h30: Almoço com Espetada e Vista
Agora sim, a parte séria. Em Câmara de Lobos come-se bem e come-se barato, se souber onde ir. Evite os restaurantes com menus em seis línguas na porta. Procure os que têm toalhas de papel e televisão ligada no futebol.
O que pedir: espetada madeirense. Cubos de carne de vaca espetados num pau de louro, grelhados sobre brasas. A carne vem pendurada num suporte de ferro, a pingar sumo sobre o bolo do caco em baixo. É rústico, é exagerado, e é absolutamente delicioso. Acompanhe com milho frito (cubos de polenta frita com couve) e uma salada simples.
Se preferir peixe, peça espada com banana. Parece estranho, é extraordinário. O peixe-espada preto tem uma textura delicada, e a banana frita ao lado acrescenta uma doçura que funciona melhor do que tem direito. É o prato mais madeirense que existe.
Uma refeição completa com bebida fica entre 12 e 18 euros na maioria dos restaurantes locais. Confirme preços localmente, mas a diferença para o Funchal é notória.
15h00: Cabo Girão, Se Não Tem Vertigens
A dez minutos de carro (ou de autocarro) de Câmara de Lobos está o Cabo Girão, uma das falésias mais altas da Europa com 580 metros sobre o mar. Há um miradouro com chão de vidro que o obriga a olhar para baixo. Se tem vertigens, vai odiar. Se não tem, vai adorar.
Lá em baixo, na base da falésia, há vinhas plantadas em terraços inacessíveis por terra: os agricultores descem de teleférico para tratar das uvas. É uma das imagens mais surreais da Madeira.
A visita é rápida, meia hora é suficiente. O estacionamento é gratuito e o acesso ao miradouro também. Chegue antes das quatro para evitar multidões.
17h00: A Hora da Poncha
Volte ao porto. Este é o momento certo. O sol começa a baixar, a luz fica dourada, e os bares à volta da baía enchem-se de gente. É aqui que Câmara de Lobos brilha: não é monumento, não é museu, é vida de fim de tarde numa vila piscatória.
O Bar Number Two, É Prá Poncha é o sítio certo para começar. A poncha aqui é feita como deve ser: aguardente de cana, mel e limão, misturada com um caralhinho (sim, é o nome do utensílio). Peça a de maracujá se quiser algo mais suave. Acompanhe com tremoços e amendoins, que aparecem sem pedir.
Uma poncha custa à volta de 2 a 3 euros. Duas é o ideal. Três e vai querer ficar para sempre. A vista sobre o porto com um copo na mão é o tipo de momento que faz uma viagem.
19h30: Jantar ao Porto
Para jantar, fique na zona do porto. Não precisa de ir longe. Há restaurantes com esplanadas viradas para os barcos que servem peixe fresco do dia. Peça o que houver, literalmente: diga ao empregado "o que há hoje?" e siga a sugestão. Os madeirenses não complicam a comida. Peixe grelhado, batata cozida, salada. O ingrediente é a estrela, o resto é moldura.
Se ainda tiver espaço, peça um bolo de mel para sobremesa. É denso, escuro, feito com mel de cana, e dura semanas (compre um para levar). Com um copo de Madeira doce ao lado, é a melhor forma de acabar o dia.
O Que Não Fazer
Não venha num navio de cruzeiro. Sério. Câmara de Lobos recebe hordas de passageiros entre as dez e as duas, e a vila perde toda a graça. Venha de manhã cedo ou ao fim da tarde. E não jante no Funchal: os restaurantes turísticos de lá cobram o dobro por metade da qualidade.
Não perca tempo com lojas de souvenirs. Se quer artesanato madeirense a sério, a oferta é melhor noutros pontos da ilha. Vale a pena ler sobre o artesanato de Santana, onde a tradição ainda não virou produto de aeroporto.
Para Quem Quer Mais
Se tem mais dias na Madeira, combine Câmara de Lobos com uma visita a Santana, no norte da ilha. Escrevemos um roteiro de 24 horas em Santana no mesmo espírito deste: devagar, com estômago vazio e olhos abertos.
Câmara de Lobos não tenta impressionar. Não tem museus de destaque, não tem monumentos grandiosos. Tem um porto com barcos de pesca, bares com poncha barata, e restaurantes onde o peixe chegou de manhã. Às vezes, é exactamente isso que faz um dia perfeito.