Arrábida Sem Armadilhas: Um Fim de Semana a Sério
A Arrábida não se faz num dia de praia apressado. Com dois dias, a estratégia certa e disposição para acordar cedo, conseguem ter serra, praias sem multidões e o melhor choco frito de Setúbal sem filas.
Vou ser directo: a Arrábida é provavelmente o segredo pior guardado da região de Lisboa. Todos os lisboetas sabem que existe, todos vão lá no verão, e quase todos fazem exactamente o mesmo programa. Descem a serra, estacionam onde não deviam, espremem-se numa toalha na areia, comem num restaurante turístico em Setúbal e voltam queimados para casa. Isto não é um fim de semana na Arrábida. Isto é um dia de praia com trânsito.
O que vos proponho é diferente. Dois dias, ritmo lento, sem filas, sem stress de estacionamento, e com a sensação real de estar num dos últimos trechos de costa mediterrânica selvagem em Portugal.
Sexta à noite: chegar antes de toda a gente
O truque número um para aproveitar a Arrábida é simples: chegar na sexta-feira. Enquanto Lisboa ainda está a debater onde jantar, vocês já estão instalados. Azeitão é a base ideal. Fica a quinze minutos da serra, tem onde dormir sem pagar fortunas, e tem a vantagem de estar rodeado de quintas que produzem o melhor queijo de ovelha da região e moscatel que envergonha muita sobremesa.
Para jantar, não compliquem. A vila tem tascas honestas onde se come bem sem reserva. Procurem leitão, borrego ou peixe grelhado. Se vos disserem que o restaurante é "o melhor da zona" e tiver menu traduzido em quatro línguas, sigam em frente. Confiem antes no sítio com toalhas de papel e televisão ligada no canto.
Passem pela Pastelaria Regional de Azeitão para as tortas de Azeitão. Não são segredo nenhum, toda a gente as conhece, mas são boas a sério. A massa folhada é fina, o recheio de ovos não é enjoativo, e custam pouco mais de um euro. Levem duas ou três para o pequeno-almoço de sábado.
Sábado de manhã: a serra antes do calor
Acordem cedo. Não por virtude, mas por estratégia. Às oito da manhã, a estrada que desce para o litoral da Arrábida está vazia. Às onze, é outra conversa.
Se querem perceber o que torna esta serra especial, façam a caminhada ao Convento da Arrábida. O convento franciscano, fundado no século XVI, está encravado na encosta com vista para o mar. Os frades escolheram este sítio pelo isolamento, e quando lá chegam de manhã cedo, percebem porquê. O silêncio é real, o ar cheira a alecrim e esteva, e a vista sobre o oceano é das mais bonitas que vão encontrar perto de Lisboa. A caminhada não é longa, mas tem troços íngremes. Levem água e calçado decente.
Depois da descida, têm uma decisão a tomar: qual praia?
As praias: o que ninguém vos diz
A Arrábida tem três praias principais que vale a pena conhecer, e cada uma serve um propósito diferente.
A Praia do Portinho da Arrábida é a mais fotogénica. Água transparente, areia clara, serra verde a cair para o mar. É também a mais concorrida. Se forem em Julho ou Agosto ao fim de semana, esqueçam. Mas numa manhã de Junho ou Setembro? É outra praia. Cheguem antes das dez, tragam o vosso lanche, e aproveitem a água que, sim, é mesmo daquela cor absurda que parece Photoshop mas não é.
A Praia do Creiro fica ao lado e é a alternativa inteligente. Menos bonita no Instagram, mais confortável na vida real. Tem mais espaço, um parque de estacionamento organizado, e um restaurante mesmo ali. Para quem vai com crianças ou simplesmente não quer competir por um metro quadrado de areia, é a escolha certa.
A Praia da Figueirinha é a mais acessível. Fica mais perto de Setúbal, tem estacionamento maior, e a água é igualmente boa. É a praia para quem não quer aventura, quer praia. E não há nada de errado nisso.
O meu conselho: numa manhã de sábado, Portinho. Se estiver cheia, desçam para o Creiro sem drama. Guardem a Figueirinha para domingo à tarde, quando já não têm energia para subir e descer a serra.
Uma nota sobre o acesso
Entre Junho e Setembro, o acesso de carro à zona do Portinho é restrito. O Parque Natural controla a entrada e o número de veículos é limitado. Há um sistema de reserva online. Não apareçam sem verificar as regras actuais no site do ICNF. A alternativa é deixar o carro no topo e descer a pé, o que leva uns vinte minutos e é um bom aquecimento para o mergulho.
Sábado à tarde: Setúbal merece mais do que uma paragem
A maioria das pessoas trata Setúbal como uma paragem técnica para comer choco frito. É um erro. A cidade tem um centro histórico compacto e genuíno, com o Mercado do Livramento como ponto alto. Este mercado é frequentemente citado como um dos melhores de Portugal, e com razão. O peixe é fresco do dia, os preços são honestos, e a azulejaria interior vale a visita por si só.
O choco frito, sim, comam-no. É o prato da cidade. Tiras de choco panadas e fritas, servidas com arroz de tomate ou batata frita. Simples e bom. Procurem uma casa de petiscos no centro, evitem os restaurantes à beira-rio com ementas plastificadas e fotografias da comida.
Se ainda tiverem pernas, subam ao Forte de São Filipe. A vista sobre o estuário do Sado e a Península de Tróia é excelente, especialmente ao fim da tarde. O forte em si tem interesse histórico, mas é a panorâmica que justifica a subida.
Domingo: ritmo lento e queijo
O domingo é para descomprimir. Nada de programas ambiciosos. Voltem a Azeitão e percam-se nas quintas da zona. A Quinta da Bacalhôa tem jardins visitáveis e uma colecção de azulejos notável. A José Maria da Fonseca, mesmo no centro de Vila Nogueira de Azeitão, faz visitas com prova de moscatel. Reservem com antecedência.
Para almoço, procurem borrego assado ou ensopado de borrego. É a especialidade da zona e quando é bem feito, com batatas a absorver o molho, é dos grandes almoços de domingo em Portugal.
Se o fim de semana vos deixou com vontade de explorar mais a região, a zona de Lisboa e Vale do Tejo tem muito para descobrir. Para quem gosta de mergulhar na vida de bairro, o nosso guia sobre a cultura local de Lisboa é um bom ponto de partida. E se Sintra estiver nos planos, temos um roteiro pelos bairros de Sintra que vai além dos palácios. Para quem visita em época de Páscoa, vale a pena desviar até Mafra e seguir o nosso roteiro dos doces de Páscoa em Mafra.
Dicas práticas sem floreados
- De carro desde Lisboa, são 40 a 50 minutos até Azeitão pela A2. Sem carro, há autocarros da TST desde o Sete Rios e Praça de Espanha até Setúbal, mas para explorar a serra com liberdade, o carro faz falta.
- Gasóleo e portagens: contem com 10 a 15 euros de portagem ida e volta.
- Alojamento em Azeitão ou Setúbal: há opções desde os 50 euros por noite em alojamento local até quintas com mais charme acima dos 100. Reservem com antecedência no verão.
- Levem sempre água, protector solar e calçado que aguente trilhos de terra. A serra não é o Gerês, mas também não é um passeio de centro comercial.
- Fora de época (Outubro a Maio), a Arrábida é outra experiência. Menos gente, mais silêncio, e a serra fica verde e cheia de flores na Primavera.
O ponto final
A Arrábida não precisa de ser consumida num dia de praia stressante. Com dois dias, um mínimo de planeamento e a disposição para acordar cedo, conseguem ter praia, serra, boa comida e aquela sensação rara de estar num sítio bonito sem se sentirem sardinha em lata. É simples assim.