Arrábida à Mesa: Choco Frito, Azeitão e Moscatel
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Arrábida à Mesa: Choco Frito, Azeitão e Moscatel

· · Arrábida

Na Arrábida, o choco frito é religião, o Queijo de Azeitão come-se à colher e o Moscatel de Setúbal merece muito mais do que um copinho ao domingo. Um roteiro pelos pratos que definem a região, de Setúbal a Sesimbra.

Há quem venha à Arrábida pelas praias. E faz bem. Mas se passar um dia inteiro entre a Praia do Portinho da Arrábida e a Praia do Creiro sem comer choco frito, perdeu metade da viagem. A serra e o mar criaram aqui uma cozinha que não precisa de truques. Precisa de produto, de tradição e de alguém que saiba o que está a fazer.

Choco Frito: o Prato que Define Setúbal

Vamos ao que interessa. O choco frito é o prato mais identitário desta região. Não é calamares, não é lula. É choco, cortado em tiras grossas, passado por farinha e frito em azeite até ficar estaladiço por fora e macio por dentro. Parece simples. E é. Mas a diferença entre um choco frito decente e um memorável está na frescura do bicho e na temperatura do óleo.

Em Setúbal, praticamente todos os restaurantes junto ao porto o servem. O bairro de pescadores junto à Doca dos Pescadores é o sítio óbvio. Não espere decoração sofisticada. Espere mesas de toalha de papel, jarros de vinho da casa e doses que alimentam duas pessoas. O choco frito vem normalmente acompanhado de arroz de tomate ou batata frita, e o preço ronda os 12 a 16 euros por dose, dependendo do restaurante.

Um conselho: peça sempre o choco frito como prato principal, não como petisco. As doses de petisco costumam ser mais pequenas e, proporcionalmente, mais caras. E se vir "choco grelhado" no menu, experimente também. Menos popular que o frito, mas quando bem feito, com um fio de azeite e limão, é outra revelação.

Queijo de Azeitão: o Rei dos Queijos da Região

A poucos quilómetros da serra, a vila de Azeitão produz um dos melhores queijos de Portugal. O Queijo de Azeitão é um queijo de ovelha amanteigado, com denominação de origem protegida, que se corta no topo e se come à colher. Quando está no ponto certo, o interior é quase líquido, com um sabor intenso e ligeiramente picante.

Há várias queijarias em Azeitão onde pode comprar directamente ao produtor. Uma roda pequena custa entre 5 e 8 euros, dependendo do tamanho e da marca. As mais conhecidas são a Queijaria da Simões e a produção artesanal que encontra no mercado local. Compre, leve pão alentejano, e faça um piquenique na serra. Ou, melhor ainda, compre o queijo e guarde-o para abrir com um copo de Moscatel ao fim da tarde.

Se a gastronomia regional lhe interessa, vale a pena explorar também as tradições doces de Mafra, outra região com forte identidade à mesa.

Moscatel de Setúbal: o Vinho que Merece Mais Respeito

O Moscatel de Setúbal é frequentemente tratado como um vinho de avós. Um digestivo que se serve em copos pequenos depois do almoço de domingo. Isso é redutor. Os melhores Moscatéis desta região, especialmente os mais velhos, com 20 ou 30 anos de envelhecimento, são vinhos de uma complexidade extraordinária, com notas de laranja amarga, mel, caramelo e especiarias.

A José Maria da Fonseca, em Azeitão, é a produtora mais histórica e oferece visitas guiadas com prova incluída. Vale muito a pena. Não só pelo Moscatel, mas por toda a gama de vinhos da Península de Setúbal. A Bacalhôa, outra grande produtora da zona, também tem programa de enoturismo com visita às caves e ao museu de arte.

Se preferir simplesmente beber, qualquer restaurante da zona terá Moscatel na carta. Peça um copo com as Tortas de Azeitão, o doce típico local, e tem a combinação perfeita.

Tortas de Azeitão: o Doce que Não se Consegue Replicar

As Tortas de Azeitão são rolos finos de massa folhada cobertos com creme de ovos e canela. São simples, delicadas, e quando frescas, de uma textura que derrete na boca. A massa é finíssima, quase transparente, e o creme tem aquele equilíbrio entre doce e ovo que a pastelaria conventual portuguesa domina como ninguém.

Compram-se nas pastelarias de Azeitão, e o melhor conselho que posso dar é este: coma-as no dia. Não são um doce que melhore com o tempo. Frescas, são excepcionais. No dia seguinte, são apenas boas. Uma torta individual custa cerca de 2 euros.

Caldeirada e Peixe Grelhado: a Costa à Mesa

A Arrábida tem uma costa que fornece peixe e marisco de qualidade excepcional. A caldeirada de peixe, feita com várias espécies do dia, é um prato que encontra nos restaurantes mais tradicionais, especialmente em Sesimbra e Setúbal. É um ensopado lento, com batata, cebola, tomate e pimento, onde o peixe cozinha no próprio caldo. Cada restaurante tem a sua versão, e as opiniões sobre qual é a melhor são tão apaixonadas como as discussões sobre futebol.

O peixe grelhado é outra aposta segura. Robalo, dourada e linguado são as escolhas mais comuns. Em Sesimbra, a tradição do peixe-espada preto grelhado mantém-se viva. Não é o mais fotogénico dos peixes, mas o sabor é intenso e a carne firme.

Depois de um almoço destes, a digestão pede uma caminhada. A caminhada ao Convento da Arrábida é a desculpa perfeita para queimar calorias enquanto descobre a história franciscana da serra.

Onde Comer: Praticidades

A região divide-se em três zonas gastronómicas distintas. Setúbal é a capital do choco frito e dos restaurantes de peixe junto ao porto. Azeitão é o território do queijo, das tortas e do Moscatel. E Sesimbra é a vila piscatória onde o peixe grelhado e a caldeirada reinam.

Para chegar, o caminho mais prático desde Lisboa é pela A2 em direcção a Setúbal, com desvio pela N379 para Azeitão ou pela N10 para Sesimbra. Conte com 40 a 50 minutos sem trânsito. Ao fim-de-semana, especialmente no Verão, a estrada para as praias engarrafa. Saia cedo.

Uma sugestão de roteiro gastronómico: comece em Azeitão de manhã, com uma visita à José Maria da Fonseca e uma torta na pastelaria. Siga para Setúbal ao almoço para o choco frito. À tarde, desça até à Praia da Figueirinha para digerir com vista para o mar. Ao fim do dia, abra o queijo de Azeitão que comprou de manhã com um copo de Moscatel.

Se tiver mais dias na região de Lisboa, a cultura dos bairros lisboetas e os recantos de Sintra complementam bem uma viagem que mistura natureza, história e mesa.

O Que Realmente Importa

A cozinha da Arrábida não tenta impressionar com técnica ou apresentação. Tenta alimentar bem, com ingredientes que vêm do mar que se vê da janela ou dos campos que rodeiam a serra. O choco frito não precisa de redução de balsâmico. O Queijo de Azeitão não precisa de geleia artesanal. O Moscatel não precisa de um sommelier para ser apreciado.

O que precisa é de tempo. Tempo para sentar, para comer devagar, para repetir o pão no molho da caldeirada, para pedir mais um copo. Nesta região, a refeição não é uma paragem entre actividades. É a actividade. E quando perceber isso, vai perceber a Arrábida.

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