Arrábida: O Que Comprar (e Evitar) nos Mercados da Região
Entre o choco fresco do Mercado do Livramento e o Queijo de Azeitão que escorre na feira mensal, a região da Arrábida oferece um dos melhores dias gastronómicos perto de Lisboa. Um roteiro com opinião sobre o que vale a pena comprar, provar e deixar na banca.
Há quem venha à região da Arrábida só pelas praias. Compreendo. Mas se a sua ideia de um bom dia passa por enfiar as mãos num queijo que escorre como manteiga ao sol, provar um moscatel que tem mais história que a maioria dos museus, e sair de um mercado com sacos que pesam o triplo do que planeava, então este roteiro é para si.
A zona entre Setúbal e Azeitão concentra dois dos melhores mercados da região de Lisboa, e cada um tem a sua personalidade. O Mercado do Livramento, em Setúbal, é o espectáculo do peixe fresco. A Feira de Azeitão, no primeiro domingo de cada mês, é o festival dos queijos, dos doces e das coisas que só se encontram quando alguém decide vender o que faz na garagem há trinta anos. Juntos, fazem um dos melhores dias gastronómicos que pode ter sem reservar um único restaurante.
Primeira paragem: Mercado do Livramento, Setúbal
Chegar ao Livramento depois das 10h da manhã é como chegar a uma festa às 3h: tecnicamente ainda está aberta, mas já perdeu o melhor. Vá cedo. O mercado abre por volta das 7h, e é entre as 8h e as 10h que as bancas de peixe estão no seu esplendor. A USA Today considerou-o um dos melhores mercados de peixe do mundo, e por uma vez, a hipérbole americana estava certa.
As bancas de peixe ocupam o centro do mercado e são geridas por mulheres que sabem mais sobre o mar do que qualquer chef com estrela. Peça conselhos. Pergunte o que está bom hoje. Se lhe disserem que o choco está gordo, acredite. Setúbal é a capital do choco frito em Portugal, e comprá-lo aqui, fresco, para preparar em casa, é uma experiência diferente de qualquer restaurante.
O que comprar
- Choco fresco: a especialidade absoluta da zona. Se só comprar uma coisa no Livramento, que seja esta.
- Percebes: quando há, há. Quando não há, não insista. O preço varia conforme o mar, mas espere pagar entre 30 e 60 euros o quilo.
- Sardinhas e carapaus: óbvio, mas é preciso dizê-lo. Aqui são do dia, não de câmara frigorífica.
- Queijos regionais: há algumas bancas com Queijo de Azeitão, mas guarde a compra séria para Azeitão propriamente dita.
O que provar no local
Dentro do mercado existe uma zona com petiscos e bifanas. Não espere alta cozinha, mas a qualidade do produto compensa. Uma bifana e um copo de vinho da região por poucos euros é um dos melhores pequenos-almoços que Setúbal oferece. Se preferir algo mais doce, há bancas com tortas de Azeitão, mas novamente, guarde o apetite.
O que evitar
As lembranças. Alguns stands vendem artesanato genérico que podia ser de qualquer mercado entre o Minho e o Algarve. Ímanes de frigorífico com sardinhas pintadas, aventais com piadas sobre bacalhau. Passe ao lado. Também não vale a pena comprar fruta importada aqui. O mercado tem fruta local excelente, mas está misturada com produto de supermercado. Pergunte sempre de onde vem.
Nota importante: não vá à segunda-feira. Os pescadores não saem ao domingo, portanto as bancas de peixe na segunda estão vazias ou com stock do dia anterior. De terça a sábado, sem falhar.
Segunda paragem: Feira de Azeitão
A cerca de vinte minutos de carro de Setúbal, Vila Nogueira de Azeitão faz a sua feira mensal no primeiro domingo de cada mês, das 9h às 17h. É um mercado diferente do Livramento: menos peixe, mais terra. Queijo, mel, compotas, plantas, vinho, doçaria conventual, e uma secção de velharias que oscila entre o tesouro e a tralha, sem aviso prévio.
O que comprar
- Queijo de Azeitão DOP: é a razão principal para estar aqui. Este queijo de ovelha, com crosta lavada e interior cremoso que escorre quando bem curado, é um dos grandes queijos portugueses. Compre directamente aos produtores que vendem na feira. Um queijo inteiro custa geralmente entre 5 e 10 euros, dependendo do tamanho e da cura. Peça para provar antes de comprar, ninguém se ofende.
- Moscatel de Setúbal: o vinho doce fortificado da região, feito com uva Moscatel. Os produtores mais conhecidos são a José Maria da Fonseca e a Bacalhôa, mas na feira encontra por vezes pequenos produtores com garrafas que não chegam às lojas. Se gostar de doces tradicionais portugueses como os que se encontram no roteiro de doces em Mafra, o moscatel é o par perfeito.
- Mel da Arrábida: a serra tem flora rica e os apicultores locais vendem mel de rosmaninho e mel silvestre. Bom e honesto.
O que provar
As Tortas de Azeitão são incontornáveis. Uma camada fina de pão-de-ló enrolada com doce de ovos, polvilhada com canela. A receita original vem da Pastelaria Regional Cego, uma casa com mais de um século de história. Compre uma torta inteira para levar, mas peça também uma fatia para comer ali, de pé, com um café. Custa pouco e sabe a muito.
Além das tortas, há outra especialidade local menos conhecida: os Esses de Azeitão, biscoitos em forma de S, estaladiços e amanteigados. Menos fotogénicos que as tortas, mas igualmente viciantes.
O que evitar
Os vinhos de mesa sem rótulo. Há quem venda garrafões de vinho caseiro na feira, e a tentação do preço baixo é real. O problema é que a qualidade é imprevisível, e às vezes o que parece um achado é vinagre disfarçado. Se quer vinho da região, invista nos tintos de casta Castelão (localmente chamada Periquita) de produtores identificados. Não precisa gastar muito: entre 5 e 15 euros encontra garrafas excelentes.
Evite também os queijos que estejam ao sol há demasiado tempo. O Queijo de Azeitão é delicado e precisa de frio. Se a banca não tem refrigeração e o queijo já está a escorrer por todo o lado ao meio-dia, compre de manhã ou passe à frente.
Depois dos mercados: o que fazer com o dia
Tem os sacos cheios. Agora o dilema: praia ou serra?
Se o tempo estiver bom, a Praia da Figueirinha é a mais acessível das praias da Arrábida e tem estacionamento razoável fora de Agosto. Se preferir água mais calma e paisagem mais dramática, a Praia do Creiro fica logo ao lado, mais resguardada. E se quiser a postal completa, com a serra a cair sobre o mar e a água esmeralda que justifica todas as comparações com o Mediterrâneo, a Praia do Portinho da Arrábida é o destino. Mas atenção: no verão, o acesso é limitado e o estacionamento enche cedo. Vá de manhã ou ao fim da tarde.
Se preferir a serra ao sal, a caminhada ao Convento da Arrábida é uma das experiências mais bonitas da região. O convento franciscano, empoleirado na encosta com vista para o mar, tem uma serenidade que faz esquecer que Lisboa está a quarenta minutos.
Notas práticas
O roteiro ideal: saia cedo de Lisboa ou Setúbal, comece pelo Mercado do Livramento entre as 8h e as 10h, depois siga para Azeitão para a feira (se for primeiro domingo do mês) ou simplesmente para comprar queijo e tortas nas lojas locais em qualquer dia. Almoce na zona, passe a tarde na praia ou na serra.
De carro, Lisboa-Setúbal demora cerca de 45 minutos pela A2. De transportes públicos, a Fertagus leva-o até ao Barreiro ou Setúbal, mas para explorar a região com liberdade, o carro ajuda muito. Se está a fazer base em Lisboa, este roteiro combina bem com uma exploração da cultura dos bairros lisboetas no dia seguinte.
Orçamento para o dia: conte com 30 a 50 euros para compras de mercado generosas (queijo, vinho, peixe, doces). As praias são gratuitas, embora no verão o estacionamento no Portinho possa ter taxa. Um almoço informal em Setúbal ou Azeitão fica entre 10 e 20 euros por pessoa.
Este não é um roteiro de restaurantes com lista de espera ou experiências com reserva online. É um dia de cheiros, sabores e decisões impulsivas junto a bancas de mercado. O tipo de dia em que se sai de casa com uma lista e se volta com o dobro. Na Arrábida, os mercados não são uma atracção turística. São a vida local, com ou sem visitantes. E é exactamente por isso que valem a pena.