Arrábida ao Entardecer: Vinhos e Petiscos para Gourmets
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Arrábida ao Entardecer: Vinhos e Petiscos para Gourmets

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Queijo de Azeitão que escorre para o prato, Moscatel com 20 anos nas caves da José Maria da Fonseca, e choco frito estaladiço numa tasca de Setúbal. Um roteiro ao entardecer para quem leva a comida a sério.

Há um momento específico em Azeitão, quando o sol começa a descer atrás da Serra da Arrábida e o cheiro de pão quente se mistura com o aroma das vinhas, em que tudo faz sentido. É ali, naquele ponto onde a estrada entre quintas desacelera, que começa o melhor roteiro gastronómico a sul do Tejo. Não é preciso reservar mesa num restaurante com estrela. Basta saber onde parar, o que pedir e, sobretudo, o que beber.

Primeiro, o contexto: porquê Arrábida?

A Península de Setúbal produz vinho desde antes de Portugal existir como país. Mas durante décadas, a região viveu à sombra do Douro e do Alentejo. Isso está a mudar. O Moscatel de Setúbal, esse vinho doce e denso que a sua avó provavelmente tinha numa garrafa empoeirada na cristaleira, está a ser redescoberto. E ao lado do Moscatel, há tintos e brancos de mesa que rivalizam com qualquer coisa que saia do Dão.

A grande vantagem? Está a 40 minutos de Lisboa. Se passou o dia a explorar as praias da região, como a Praia do Portinho da Arrábida ou a Praia do Creiro, a transição para um serão de vinhos e petiscos é natural. Sal na pele, fome no estômago, sede de algo bom.

Paragem 1: Azeitão e o queijo que escorre

Comece em Vila Nogueira de Azeitão. É aqui que se produz o Queijo de Azeitão DOP, um queijo de ovelha de pasta mole que, quando está no ponto, escorre para o prato como se fosse lava. Come-se com uma colher, com pão torrado e um copo de tinto da região. Se nunca provou, prepare-se: é intenso, ligeiramente ácido, com um final que fica na memória.

Procure-o nos produtores locais ou nas mercearias de Azeitão. Um queijo inteiro custa normalmente entre 5 e 8 euros, dependendo do tamanho. O meu conselho: compre dois. Um para comer ali, outro para levar. Vai arrepender-se se levar só um.

Enquanto estiver em Azeitão, passe pela Pastelaria Cego, que está aberta desde 1901, ali junto à Igreja da Misericórdia. As Tortas de Azeitão daqui são o original: uma camada fina de massa enrolada com recheio de ovos, canela e limão. Não é propriamente um petisco de acompanhamento para vinho, mas é obrigatório. Cada torta custa pouco mais de um euro. Leve meia dúzia para o caminho.

Paragem 2: As caves que contam

A Rota de Vinhos da Península de Setúbal passa por dezenas de produtores, mas para um serão bem aproveitado, concentre-se nos dois grandes nomes de Azeitão.

José Maria da Fonseca

Em actividade desde 1834, esta é a casa-mãe do Moscatel de Setúbal e do Periquita, provavelmente o tinto português mais vendido de sempre. A visita à adega inclui as caves históricas onde envelhecem Moscatéis com décadas. É uma experiência que vale pelo contraste: o frescor das caves de pedra contra o calor lá fora, e o aroma doce e complexo dos vinhos velhos que impregna o ar. Confirme horários e preços no site oficial antes de ir, pois variam conforme a época do ano.

O que provar: peça o Moscatel de Setúbal com 20 anos. É outra liga. Mel, laranja cristalizada, especiarias. E depois experimente o Hexagon ou o Domini, tintos encorpados que mostram que a região faz muito mais do que doces.

Bacalhôa Vinhos de Portugal

Se a José Maria da Fonseca é tradição, a Bacalhôa é o lado mais contemporâneo. A propriedade na Quinta da Bassaqueira combina vinhas com uma colecção de arte impressionante: azulejos dos séculos XV a XIX, arte africana e um jardim japonês entre oliveiras centenárias. É quase surreal. Aqui, para além do Moscatel, vale a pena provar os vinhos de mesa, especialmente os brancos da casta Fernão Pires.

Paragem 3: Petiscos a sério em Setúbal

Com dois ou três copos no corpo e o pôr-do-sol já passado, desça até Setúbal. A cidade tem uma relação honesta com a comida: não há truques, não há espuma de nada. Há peixe fresco, marisco, e o rei absoluto da gastronomia local: o choco frito.

O choco frito de Setúbal é um ícone. Tiras de choco panadas e fritas até ficarem estaladiças por fora e tenras por dentro, servidas com limão. Parece simples. É simples. Mas quando o choco é fresco e a fritura está no ponto, não há entrada em restaurante de luxo que se compare. Encontra-o em praticamente qualquer cervejaria ou tasca da cidade. Acompanhe com um branco fresco da região.

Não se fique pelo choco. Peça também amêijoas à Bulhão Pato, se estiverem disponíveis. E se vir caldeirada de peixe no menu, é quase sempre uma boa aposta em Setúbal.

O Mercado do Livramento

Se conseguir organizar-se para passar pelo Mercado do Livramento durante o dia, antes do serão gastronómico, faça-o. É considerado um dos melhores mercados municipais de Portugal, e com razão. As bancas de peixe são espectaculares: linguados, robalos, sargos, tudo apanhado naquele dia. Há também queijos de Azeitão, enchidos e fruta da região. O mercado funciona de manhã, portanto não encaixa no itinerário nocturno, mas dá contexto. Percebe-se de onde vem a qualidade que depois aparece nos pratos.

O roteiro completo: como montar o serão

Aqui fica a sugestão prática, assumindo que começa ao final da tarde:

  • 17h00: Chegada a Azeitão. Queijo de Azeitão e tortas na Pastelaria Cego. Passeio pelo centro da vila.
  • 18h00: Visita e prova de vinhos numa das caves (José Maria da Fonseca ou Bacalhôa, conforme disponibilidade). Reserve com antecedência, especialmente nos meses de Verão.
  • 19h30: Condução até Setúbal (15 minutos). Passeio pela zona ribeirinha ao pôr-do-sol.
  • 20h00: Jantar de petiscos numa cervejaria ou tasca. Choco frito, amêijoas, peixe grelhado, tudo acompanhado de vinho branco da Península de Setúbal.

Custo estimado por pessoa para a noite toda: entre 40 e 70 euros, incluindo provas de vinho, queijo, refeição e mais um copo ou dois. Obviamente depende do apetite e da sede, mas é extraordinariamente acessível para a qualidade.

Antes ou depois: o que fazer na região

Se tem mais tempo na zona, a Arrábida oferece muito para além do copo e do prato. De manhã, antes do roteiro gastronómico, a Praia da Figueirinha é das mais acessíveis da costa e perfeita para um mergulho matinal. Para quem procura algo mais contemplativo, a caminhada espiritual ao Convento Franciscano da Arrábida é uma experiência que contrasta bem com os prazeres mais terrenos do serão.

E se a região o conquistar ao ponto de querer explorar mais do que rodeia Lisboa, o nosso guia sobre a cultura local em Lisboa é um bom ponto de partida para continuar a viagem. Ou, se preferir doçaria com história, o roteiro de doces tradicionais em Mafra mostra outro lado da tradição doceira da região de Lisboa.

Notas práticas

Carro é essencial. O transporte público entre Azeitão, a serra e Setúbal existe, mas é limitado e pouco compatível com um itinerário ao entardecer. Se vem de Lisboa, atravesse a Ponte 25 de Abril e siga pela A2 em direcção a Setúbal. Se está hospedado em Setúbal ou Sesimbra, tudo fica a menos de 20 minutos.

Uma nota importante: se vai provar vinhos e conduzir, designe um condutor ou limite-se a provar e cuspir nas caves. Os vinhos são bons demais para desperdiçar, mas a estrada da serra não perdoa.

Confirme sempre os horários das caves antes de ir. José Maria da Fonseca e Bacalhôa têm visitas organizadas, mas os horários variam e a reserva antecipada é recomendada, especialmente entre Junho e Setembro.

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