Night Club Bagdad
Olhão
A maioria faz Olhão em noventa minutos: mercado, marisco, ferry. Mas a cidade interessante começa quando se vira as costas à água e se sobe à torre da igreja, aos terraços brancos da Barreta e ao miradouro que nenhum turista de fim de semana encontra.
Esqueça as discotecas com lasers: a noite de Olhão acontece nas esplanadas da frente ribeirinha e nas ruelas do bairro cubista, com música que aparece quando menos se espera. Um guia honesto sobre quando ir, o que comer antes e como não pagar a cerveja a peso de ouro.
A estação de comboios fica a cinco minutos do mercado e os ferries para as ilhas partem do cais ao lado. Olhão é a melhor base do sotavento algarvio: aqui ficam as escapadas que valem a pena, de Faro às ilhas da Ria Formosa, com horários, preços e opiniões sem rodeios.
Em Olhão, a sardinha não é poesia, é matemática: cinco a oito euros o quilo no mercado, três minutos de cada lado no carvão, e nada de grelhador a gás. Um guia sem romantismo para comer a melhor sardinha do Algarve, longe das marinas e dos menus em seis línguas.
Olhão não tenta ser bonita da maneira convencional. Não há calçada portuguesa impecável nem fachadas de azulejo a competir por fotografias. O que há é uma cidade de pescadores que cresceu em cubos brancos empilhados, com açoteias planas viradas para a Ria Formosa, uma arquitectura que deve mais ao Norte de África do que ao resto do Algarve. É exactamente isso que a torna diferente de tudo o que vai encontrar na costa.
Qualquer visita a Olhão começa nos dois mercados municipais junto à marginal. O mercado do peixe, num edifício de tijolo vermelho à beira-rio, é onde a cidade ainda funciona como sempre funcionou: bancadas de conquilhas, amêijoas e polvo fresco, com vendedoras que fazem contas de cabeça mais depressa do que qualquer máquina. Ao lado, o mercado de frutas e legumes completa o circuito. Sábado de manhã é o melhor momento, há produtores locais e o café ao lado enche-se cedo.
Suba pelas ruas atrás da Igreja Matriz e perca-se no bairro da Barreta. As casas são baixas, caiadas, com escadas exteriores e terraços onde ainda se seca peixe ao sol. Não é cenário montado para turistas, é simplesmente como Olhão foi construída. A influência mourisca e as ligações históricas ao comércio com o Magrebe explicam este perfil urbano que não se repete em mais nenhuma cidade portuguesa.
Do cais de Olhão partem barcos para as ilhas da Armona, Culatra e Farol, praias de areia comprida com água transparente e sem construção à vista. No verão, os barcos são frequentes e a travessia demora entre 15 e 30 minutos. Fora de época, a Ria Formosa continua a valer a viagem: é um dos sistemas lagunares mais importantes da Europa, com flamingos no inverno e uma luz que muda de hora a hora.
Olhão é território de marisco e cataplanas, mas o prato que vale a deslocação é o arroz de lingueirão. Nos restaurantes junto ao mercado encontra peixe grelhado a preços que Lagos ou Albufeira já esqueceram. O Cantaloupe Cafe, que já temos no boa.pt, representa a nova geração de espaços que convive com as tascas de sempre.
Dois a três dias chegam para conhecer a cidade e saltar às ilhas. Maio, Junho e Setembro são os meses ideais, calor suficiente para praia, sem a lotação de Agosto. Em Agosto, o Festival do Marisco toma conta da marginal e transforma Olhão num dos maiores eventos gastronómicos do Algarve.