O Outro Olhão: Para Lá dos Mercados e da Ria
A maioria faz Olhão em noventa minutos: mercado, marisco, ferry. Mas a cidade interessante começa quando se vira as costas à água e se sobe à torre da igreja, aos terraços brancos da Barreta e ao miradouro que nenhum turista de fim de semana encontra.
A maioria dos visitantes faz Olhão em noventa minutos. Chegam de Faro, fotografam os dois mercados de tijolo vermelho na marginal, comem umas amêijoas, apanham o ferry para a ilha da Armona e nunca mais olham para trás. E percebo porquê: os mercados são genuinamente bonitos, o marisco é dos melhores do Algarve e as ilhas-barreira da Ria Formosa são daquelas paisagens que fazem o resto do país parecer apressado. Mas reduzir Olhão à sua frente ribeirinha é como julgar uma casa pela varanda. A cidade interessante começa quando se vira as costas à água e se mete pelas ruas estreitas.
Olhão não é Tavira nem Lagos. Não foi feita para ser fotogénica. Foi feita por pescadores que voltavam das pescas em Marrocos e nas costas africanas e que, ao construir as suas casas, copiaram o que tinham visto do outro lado do mar: telhados planos em vez de inclinados, terraços brancos chamados açoteias, volumes cúbicos encaixados uns nos outros. O resultado é uma vila que se parece mais com Tânger do que com qualquer outra coisa em Portugal. E quase ninguém sobe a estas casas.
O bairro que os turistas atravessam sem reparar
O coração antigo de Olhão são os bairros da Barreta e do Levante, a malha de ruas a leste e a sul da igreja. Aqui as ruas têm a largura de um carro mal estacionado, as casas são caiadas de branco e quase todas têm uma escada exterior a subir para o terraço. Era nestes terraços que as mulheres dos pescadores acendiam fogueiras para sinalizar os barcos que regressavam e onde, em tempo de tempestade, se vigiava o horizonte.
Não há nada de "reconstruído para turista" aqui. Há roupa estendida, há gatos, há vizinhos que conversam de janela para janela. Perca-se de propósito. As ruas Doutor Paulo Nogueira e da Cidadela dão um bom ponto de partida. Às sete da manhã, antes do calor, ouve-se pouco mais do que uma vassoura na pedra e um rádio ligado algures. É o melhor momento para andar, com luz rasante e sombra fresca, antes de os autocarros chegarem ao mercado.
Se quiser perceber como se lê um bairro algarvio, vale a pena comparar com o que escrevemos no nosso guia de bairros de Lagos: Lagos cresceu para o turismo, Olhão cresceu para o mar. São duas lógicas urbanas completamente diferentes e percebe-se logo nas plantas das ruas.
Suba a torre. Vale os poucos euros.
O ponto alto, literalmente, do centro histórico é a Torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário. A igreja foi erguida no século XVII e XVIII com dinheiro dos próprios pescadores, e a torre sineira está aberta a quem queira subir os degraus apertados. Lá de cima vê-se aquilo que da rua é impossível: o tabuleiro de xadrez branco dos terraços, a Ria a abrir-se em canais e a linha das ilhas ao fundo. É a melhor forma de compreender a estranheza arquitetónica da cidade num só olhar.
Não saia sem dar a volta à parte de trás da igreja. Encostada à abside está a pequena capela de Nossa Senhora dos Aflitos, onde tradicionalmente as mulheres rezavam pelos maridos no mar durante as tempestades. É um daqueles cantos que conta mais sobre Olhão do que qualquer painel informativo: uma cidade que viveu sempre com um pé em terra e o coração no Atlântico.
Onde tomar o pequeno-almoço (e a quem fugir)
O erro clássico é tomar o pequeno-almoço num dos cafés da marginal, virado para o ferry, a pagar preço de paisagem por uma torrada média. Faça o contrário: meta-se pelo interior. O Cantaloupe Cafe é a minha recomendação para começar o dia, longe do barulho do cais, com um café decente e o tipo de ambiente onde se pode ficar uma hora sem ninguém apressar a conta. Faça aqui a primeira paragem, planeie a manhã, e só depois ataque o resto.
Quanto aos mercados, não os ignore, mas use-os como um local. O grande mercado de sábado, na zona da avenida 5 de Outubro, é quando os produtores de fora chegam com fruta, ervas, queijos e plantas. Os dois pavilhões de ferro de 1916, um para o peixe e outro para a fruta e legumes, abrem de manhã cedo durante a semana e fecham a meio do dia. Regra simples: compre peixe antes das dez, porque o melhor sai primeiro, e não tenha vergonha de perguntar de onde veio. Em Olhão, perguntar é sinal de respeito, não de desconfiança.
O doce que ninguém leva e devia
Toda a gente sai de Olhão com fotografias do mercado e ninguém sai a saber fazer folar. O folar algarvio não é o folar da Páscoa do norte: aqui é uma massa doce, enrolada, com canela, erva-doce e por vezes amêndoa, uma daquelas receitas que se transmitiam de avó para neta e que estão a desaparecer das cozinhas. Se tem mais do que um dia na cidade, o workshop de folar em Olhão é a forma mais honesta de levar algo real para casa: não uma recordação de loja, mas uma técnica e um sabor. Vai sujar as mãos de farinha e perceber porque é que esta doçaria sobreviveu séculos.
É também uma boa lição de contexto. A cozinha do Algarve interior e ribeirinho não é só sardinha e cataplana, e quem quiser aprofundar essa ideia faz bem em ler sobre a cultura local em Faro, a quinze minutos de comboio, onde se percebe melhor a teia de tradições, conventos e doçaria que liga estas cidades.
A Ria Formosa pela porta dos fundos
Quase todos os visitantes vêem a Ria Formosa do ferry, a caminho da praia. É um erro de perspetiva: a Ria não é o caminho para a praia, é o destino. Este sistema de lagunas, sapais e ilhas-barreira é um dos sítios mais importantes da Europa para aves, sobretudo na primavera e no outono, quando as migrações enchem o sapal de flamingos, garças, colhereiros e perna-longas.
Para ver isto a sério, esqueça o ferry cheio e considere a observação de aves em Olhão com um guia da Ria Formosa. A diferença entre ver "uns pássaros" e perceber o que se está a ver é um guia que sabe onde a maré expõe os bancos de lodo e a que horas. O melhor momento é cedo de manhã ou ao fim da tarde, com a maré a vazar, quando as aves se concentram a alimentar-se. Leve água, chapéu e binóculos se tiver. Não é uma atividade de adrenalina, é o oposto: é ficar quieto e deixar a Ria fazer o trabalho.
O miradouro que está fora do mapa turístico
Para fechar o dia com a melhor vista da região, saia da cidade e suba ao Miradouro do Cerro de São Miguel. É o ponto mais alto da serra do Caldeirão a sul, e num dia limpo vê-se a Ria inteira, as ilhas, Faro e, com sorte e horizonte aberto, a serra a perder-se para norte. Praticamente nenhum turista de fim de semana chega aqui, porque não está na rota óbvia entre o mercado e o ferry. Vá ao fim da tarde, leve qualquer coisa para beber e fique para o pôr do sol. É de graça e é, sem exagero, uma das melhores vistas do Algarve.
Como organizar o dia (e quando vir)
- Chegar: Olhão fica na linha de comboio do Algarve, a cerca de dez minutos de Faro. O comboio é barato e frequente e deixa-o a poucos minutos a pé do centro. De carro, há estacionamento à volta da marginal, mas enche cedo ao sábado.
- Manhã: pequeno-almoço no interior, mercados antes das dez, depois perca-se na Barreta e suba a torre da igreja.
- Meio do dia: almoço de peixe e marisco, que aqui é razão suficiente para a viagem.
- Tarde: Ria Formosa, ferry para Armona ou Culatra, ou a observação de aves se a maré ajudar.
- Fim de tarde: miradouro do Cerro de São Miguel para o pôr do sol.
Quando vir? Evite agosto se puder. Junho e setembro dão-lhe calor de praia sem as multidões, e a primavera e o outono são imbatíveis para a Ria e para as aves. O inverno é tranquilo, fresco e cheio de luz, com a cidade entregue a quem cá vive.
Vale a pena ficar mais do que um dia?
Honestamente: depende do tipo de viajante que é. Se procura praias de bandeira e bares, há sítios melhores no Algarve. Mas se gosta de cidades de trabalho a sério, de comer bem sem cerimónia e de paisagens que se ganham com calma, Olhão dá para dois ou três dias sem esforço, sobretudo se a usar como base para explorar o Algarve menos óbvio. É fácil combinar com um dia em Faro ou, para quem viaja em família e quer algo mais ativo, com uma escapadela a Silves, sobre a qual escrevemos um guia honesto para famílias que vale a pena ler antes de partir.
No fim, o que distingue Olhão é precisamente o que afasta os autocarros: não se vende. É uma cidade que continua a viver da Ria e do peixe, e que oferece o seu melhor a quem tem paciência para virar a esquina certa. Vire-a.