Miradouro do Cerro de São Miguel
Olhão
Por apenas um euro, a torre sineira da Igreja Matriz de Olhão coloca-o acima do labirinto de açoteias brancas do centro histórico, com a Ria Formosa e as ilhas-barreira como pano de fundo. É provavelmente o melhor negócio do Algarve.
Vamos ser directos: por um euro, a torre sineira da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário oferece a vista mais completa e honesta sobre Olhão. Não é uma opinião. É geometria. De cá de cima, a cidade revela o seu tabuleiro de açoteias brancas, os terraços planos que fazem desta vila piscatória uma anomalia arquitectónica no Algarve, e a Ria Formosa estende-se até ao horizonte como um mapa que finalmente faz sentido.
A igreja fica na Praça da Restauração, no centro histórico de Olhão, e é impossível de ignorar. A fachada barroca do século XVII impõe-se na praça com a autoridade tranquila de quem já ali estava antes de tudo o resto. Mas o verdadeiro motivo para entrar não é a nave, nem os altares. É a torre. E o bilhete de um euro que compra na entrada.
A escadaria é estreita e as paredes são grossas, como seria de esperar numa construção com mais de trezentos anos. Não espere um elevador panorâmico nem corrimões ergonómicos. Os degraus são de pedra, gastos pelo uso, e a subida é curta mas suficiente para acelerar o coração de quem passou o almoço a repetir cataplanas. Leve calçado fechado e, no Verão, um chapéu, porque o topo é completamente exposto ao sol.
Uma vez lá em cima, a recompensa é imediata. Olhão estende-se a 360 graus: o casario cúbico do bairro da Barreta, a silhueta dos mercados junto ao cais, os barcos de pesca na ria, e para sul as ilhas-barreira da Ria Formosa, com a Ilha da Armona e a Ilha da Culatra como linhas finas de areia entre o azul da laguna e o azul do Atlântico. Quem quiser aprofundar esta perspectiva sobre a arquitectura singular da cidade, o nosso guia sobre a arqueologia urbana de Olhão explica como estas açoteias contam a história das rotas comerciais com o Norte de África.
De manhã cedo. Não há discussão. A luz da manhã no Algarve transforma as açoteias num mar de branco e sombra, e a Ria Formosa fica com aquele tom de verde-esmeralda que desaparece com o sol a pino. Além disso, ao início do dia há menos gente, o que numa torre pequena faz toda a diferença. Ao final da tarde também funciona, especialmente para fotografias, mas confirme directamente o horário de acesso à torre antes de ir, porque nem sempre está aberta em horários fixos.
Para quem está a fazer uma rota de miradouros, esta torre é paragem obrigatória. Combinada com os outros pontos de vista que destacamos no guia dos melhores rooftops e miradouros de Olhão, consegue-se uma manhã inteira a mapear a cidade de cima.
Depois da visita, desça até à zona das ruas pedonais e faça uma paragem no Cantaloupe Cafe para um café de especialidade. Ou então, se a fome apertar, explore as sugestões do nosso guia de cafés e brunch em Olhão, porque esta cidade tem vindo a ganhar uma cena de pequeno-almoço que rivaliza com qualquer bairro de Lisboa.
A igreja em si merece cinco minutos antes de subir à torre. A nave é sóbria para os padrões barrocos portugueses, mas os azulejos e a talha dourada dos altares laterais são genuínos e bem conservados. Não é a Igreja de São Lourenço em Almancil, mas também não tenta ser. É uma igreja de pescadores, construída por uma comunidade que olhava para o mar, não para a corte. E isso nota-se na escala, na simplicidade, na maneira como a luz entra pelas janelas altas sem drama.
A Praça da Restauração, à porta, é uma boa praça de província portuguesa: um café com esplanada, uma ou duas árvores, gente sentada nos bancos. Nada de extraordinário, mas é exactamente por isso que funciona. É Olhão sem filtro.