Quinta da Saraiva
Câmara de Lobos
Um hotel boutique que não foge ao que Câmara de Lobos é: um porto de pesca a sério. Dorme-se entre as casas dos pescadores, na mesma vila que fascinou Churchill, e essa proximidade é todo o argumento.
Câmara de Lobos é, antes de tudo, um porto de pesca. As traineiras coloridas encostadas à baía, os homens a remendar redes ao fim da tarde, o cheiro a maresia e a poncha que se serve em cada esquina. É este o cenário que o Pestana Fisherman Village escolheu para se instalar, na Rua São João de Deus, nº 1-17, mesmo no centro histórico. Não está num promontório isolado nem numa quinta com vista panorâmica: está dentro da vila, entre as casas dos pescadores, e essa é precisamente a sua razão de ser.
O conceito é claro desde o nome. Trata-se de um hotel boutique que abraça o carácter tradicional da povoação piscatória em vez de o disfarçar. Faz sentido. Câmara de Lobos é o lugar onde Churchill montou o cavalete para pintar a baía, e há uma honestidade no sítio que seria estúpido contrariar com mármore e lustres. Aqui dorme-se no meio da ação, não acima dela.
Câmara de Lobos está a cerca de dez minutos de carro a oeste do Funchal, descendo pela costa. De táxi ou Uber a partir da capital é rápido e barato. De autocarro, as carreiras da Rodoeste fazem o percurso ao longo do dia. O aeroporto da Madeira fica a uns 25 a 30 minutos de carro, do outro lado do Funchal.
Um aviso prático: o centro histórico de Câmara de Lobos é feito de ruas estreitas, em declive e de sentido único, pensadas para carroças e não para SUVs. Estacionar mesmo à porta do hotel é uma missão. Confirme diretamente com a receção, pelo +351 291 146 446, como funciona o estacionamento antes de aparecer de mala na mão. Vale a pena resolver isto antes, não depois de já estar a dar voltas à mesma quadra.
O Pestana Fisherman Village é um hotel de gama €€€, o que em Câmara de Lobos o coloca no patamar confortável sem ser o mais exclusivo da zona. Para contexto, o seu irmão mais conhecido, o Pestana Churchill Bay, joga uma cartada mais virada para a vista de baía. Aqui a proposta é diferente: imersão na vila. Quem quer abrir a janela e estar literalmente em cima do casario e da vida quotidiana fica melhor servido neste.
Sendo um boutique no centro histórico, não conte com resort, piscina infinita ou spa de grande escala. Conte sim com proximidade: sai-se à rua e está-se imediatamente no meio dos cafés, das tasquinhas e do largo onde os pescadores se sentam. Para mim, é exatamente esse o argumento. Um hotel que precisasse de transfer para o levar à vida real estaria a falhar o ponto. Este não falha.
A vantagem de dormir aqui revela-se logo de manhã e ao fim do dia, quando os autocarros de excursão já partiram e a vila volta a pertencer a quem a habita. É a esta hora que vale a pena descer ao porto, ver as embarcações e perceber por que razão este sítio fascinou tanta gente. A poucos passos tem a poncha mais conhecida da vila, esse cocktail local de aguardente, mel e limão que se bebe de pé e em conversa. Beba uma. Depois beba água, porque ela engana.
Se quiser planear bem o tempo, o nosso roteiro de 24 horas pela vila ajuda a encaixar o porto, o almoço de peixe fresco e o pôr do sol sem correrias. E quem gosta de mar bravo deve dar uma olhada ao lado do surf e das ondas da zona.
Vale, se entender o que está a comprar. Não venha à procura de um resort de praia com tudo incluído, porque não é isso. Venha se quiser acordar dentro de uma vila piscatória verdadeira, sair à rua e tomar o café no mesmo largo onde os pescadores tratam das redes. Para esticar a estadia na zona, o campo em redor tem alternativas com vista, como a Quinta da Saraiva, e vale sempre a pena a descida quase secreta à Fajã dos Padres de teleférico. Mas para estar no centro da história, o Pestana Fisherman Village está exatamente onde devia estar.