Fajã dos Padres
A Fajã dos Padres fica no fundo de uma falésia de 300 metros em Câmara de Lobos e só se chega lá de teleférico ou de barco. Lá em baixo: 9 casas de pedra, uma praia privada, vinha de malvasia plantada pelos Jesuítas no século XV e um restaurante onde se come peixe acabado de pescar com o Atlântico aos pés.
Um sítio a que só se chega por teleférico, e ainda bem
A Fajã dos Padres não é um lugar onde se passa de carro a caminho de outro sítio. Não aparece por acaso. É preciso querê-la: conduzir até à freguesia de Quinta Grande, no concelho de Câmara de Lobos, estacionar no parque gratuito no topo da falésia e entrar num teleférico que desce 300 metros de rocha vertical, com o Atlântico a crescer no vidro, durante dois minutos e meio. Custa 10€ por pessoa (ida e volta), gratuito para menores de 11 anos. Quando a porta abre lá em baixo, o barulho da estrada, os autocarros turísticos, as filas do Cabo Girão ficam literalmente a 300 metros acima da sua cabeça.
O que é isto, afinal
Uma fajã, na Madeira, é uma plataforma de terra ao pé da falésia, formada por desabamentos antigos. Esta em particular foi cultivada desde o século XV, quando os Jesuítas se instalaram aqui e plantaram vinhas de malvasia. Durante mais de 150 anos, os padres (daí o nome) produziram vinho, frutas e vegetais nesta língua de terra protegida por uma parede de basalto. Chegou a ter 50 residentes. Hoje funciona como agroturismo: 9 casas de pedra reconvertidas com vista para o mar, um restaurante de cozinha madeirense, uma praia de calhau com espreguiçadeiras e um jardim agrícola biológico onde crescem bananeiras, mangueiras, abacateiros, maracujás, figos e araçás.
O endereço oficial é Rua Padres António Dinis Henriques nº 1, 9300-261 Quinta Grande, mas na prática ninguém chega aqui pela rua. Chega-se pelo ar ou, se preferir, de barco. Existe um serviço de embarcação (a "Malvasia", com 10 lugares) desde Funchal ou Câmara de Lobos.
A descida e o que se encontra em baixo
O teleférico é moderno e seguro, mas não é para quem tem vertigens sérias. Desce-se de frente para o oceano, com a falésia do Cabo Girão (a segunda mais alta da Europa) a passar rente. Lá em baixo não há estradas, apenas caminhos pedestres e pequenos carrinhos de golfe que transportam bagagem. O espaço é compacto: percorre-se tudo a pé em 20 minutos. Mas o ritmo aqui não é de quem quer ver tudo depressa.
A praia é de calhau escuro, com chuveiros e uma pontinha de betão de onde se pode mergulhar ou fazer snorkeling. A água é transparente e, graças ao microclima protegido pela falésia, a temperatura é quase sempre mais quente do que no resto da costa sul.
O restaurante
O restaurante fica junto à praia, com mesas ao ar livre viradas para o pier. A cozinha é madeirense a sério: peixe fresco, marisco, legumes da própria horta biológica. Se apanhar um dia de sol (e aqui quase sempre há sol), comer peixe grelhado com os pés quase na água é uma daquelas experiências que justificam ter apanhado o teleférico. Os preços são moderados para o que é (€€), o que surpreende dado o cenário e o isolamento. O serviço é descontraído. Não espere fine dining. Espere comida honesta num sítio absurdamente bonito.
Aviso justo: as opiniões dividem-se. Há quem diga que foi a melhor refeição da semana na Madeira, há quem ache que a cozinha podia ser mais consistente. O meu conselho: vá pelo peixe fresco do dia, que é difícil errar. O espaço funciona diariamente das 10h às 18h, por isso é um programa de almoço, não de jantar. Ligue antes para confirmar disponibilidade no restaurante (+351 291 944 538), especialmente em época alta.
Dormir na falésia
As 9 casas históricas foram reconvertidas em alojamentos com vista mar. São casas de pedra que pertenceram aos agricultores da fajã, agora com o conforto necessário mas sem perder o carácter. Dormir aqui significa acordar com o som do mar e sem vizinhos visíveis, apenas bananeiras e falésia. Reserve diretamente pelo site (fajadospadres.com) e com antecedência: são apenas 9 unidades e a procura é alta no verão.
Se procura alternativas de alojamento na zona de Câmara de Lobos, a Quinta da Saraiva é outra opção sólida, embora com um carácter completamente diferente.
Dicas práticas
- O estacionamento no topo da falésia é gratuito. Chegue de carro ou táxi até Quinta Grande e siga as indicações para o teleférico da Fajã dos Padres.
- Leve calçado confortável. Lá em baixo anda-se em caminhos de terra e calhau.
- O último teleférico sobe às 18h. Não perca o horário, a menos que esteja hospedado.
- Protector solar e fato de banho são essenciais. O microclima aqui é mais quente e solarengo do que o resto da ilha.
- Se o teleférico estiver parado por vento forte (acontece raramente), a alternativa é chegar de barco.
Como encaixar no roteiro
A Fajã dos Padres funciona bem como programa de meio dia. Desça de manhã, passe pela horta, almoce no restaurante, fique na praia até meio da tarde e suba. Se estiver a seguir o nosso guia de 24 horas em Câmara de Lobos, este é o complemento perfeito para um segundo dia. Depois de subir, pode sempre acabar a tarde no centro de Câmara de Lobos com uma poncha no Bar Number Two.
A Fajã dos Padres não tenta impressionar com luxo ou design. Impressiona porque é um pedaço de terra cultivada há 500 anos, preso entre uma falésia e o Atlântico, onde ainda se faz vinho de malvasia e se come peixe acabado de pescar. E a única forma de lá chegar é por um teleférico ou por um barco com 10 lugares. Há sítios na Madeira com melhores restaurantes. Há sítios com melhores praias. Mas não há nenhum sítio que junte tudo isto num cenário assim.