Vila Nova de Milfontes Fora de Época: Outubro a Março
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Vila Nova de Milfontes Fora de Época: Outubro a Março

· · Vila Nova de Milfontes

Esqueça o caos de agosto: Vila Nova de Milfontes em baixa estação é onde a vila volta a ser ela própria, com quartos a um terço do preço, restaurantes vazios e o estuário do Mira em modo lento. Guia opinionado para quem viaja entre outubro e março.

Em agosto, Vila Nova de Milfontes é um campo de batalha. Fila de carros na ponte sobre o Mira, toalhas sobrepostas na Praia do Farol, esperas de quarenta minutos para uma mesa qualquer com vista para o estuário. As pessoas pagam 180 euros por noite num quarto duplo e chamam-lhe férias. Eu chamo-lhe um erro de calendário.

Venha em novembro. Ou em fevereiro. Venha quando o vento do Atlântico ainda corta a cara mas o sol das duas da tarde ainda aquece os bancos de pedra junto ao forte. É aí que esta vila se descobre, não em retórica, em pormenores: o pescador a remendar redes na doca, a senhora que vende laranjas da quinta dela na esquina da Rua Sarmento Beires, o cheiro a lume de lenha que sai das chaminés ao fim do dia. Tudo o que o verão esconde debaixo de tráfego e turistas alemães em fato de banho.

Porque é que a baixa estação é a estação certa

Primeiro, os números. Um quarto duplo que em agosto custa 150 a 200 euros baixa para 55 a 80 euros entre novembro e março. Restaurantes que em verão exigem reserva com três dias de antecedência têm mesa para si à hora que quiser. A praia do Malhão, que no pico tem 400 pessoas espalhadas por três quilómetros, em janeiro tem 12, e metade são surfistas locais.

Segundo, o clima. Sim, chove. Mas não como em Lisboa. O Alentejo litoral tem uma média de 230 dias de sol por ano, e mesmo em janeiro há semanas inteiras de céu limpo e temperaturas de 16 a 18 graus durante o dia. A água do mar nunca está propriamente convidativa, mas isso é um detalhe técnico: ninguém vem a Milfontes em fevereiro para tomar banho. Vem-se para caminhar, comer, beber vinhos do Alentejo a metade do preço de Lisboa e dormir com o som do vento na janela.

Terceiro, e isto é o que ninguém lhe diz: a vila volta a ser ela própria. Em agosto, Milfontes é uma versão inflada e cosmética de si mesma, montada para o consumo de quinze dias. Em fevereiro, é uma terra de 5.000 habitantes onde toda a gente se conhece, onde o café da praça serve bicas a 0,80 euros e onde o dono do restaurante senta-se à sua mesa para lhe explicar de onde veio o peixe. Isso não tem preço, e curiosamente, é onde se gasta menos.

Onde dormir sem se arrepender

Esqueça os apartamentos turísticos. Em baixa estação, faz mais sentido procurar uma das pequenas guesthouses da vila ou uma casa de campo nas redondezas. A diferença de preço é absurda. Em agosto, um apartamento de dois quartos pode custar 200 euros a noite. Em janeiro, encontra casas de turismo rural com lareira, jardim e galinhas no quintal por 70 euros, café da manhã incluído.

O que eu recomendo: fique numa casa fora do centro, a três ou quatro quilómetros da vila. Tem espaço, sossego, e a curta viagem até ao café da manhã é parte do encanto. As estradas estão vazias, o nevoeiro sobe do Mira ao amanhecer, e quando chega ao centro às dez da manhã, a vila começa devagar, sem pressa, como se estivesse a acordar consigo.

O ritual do pequeno-almoço

Há uma coisa que muda completamente fora de época: o tempo. O pequeno-almoço, que no verão é uma tarefa logística entre o trânsito e a procura de estacionamento, em janeiro torna-se um acto cívico. Vá a uma das pastelarias do centro, peça um galão e uma torrada com manteiga, e leve uma hora a comer. Veja a vila acordar. Veja o carteiro a fazer o seu giro. Veja três pescadores discutirem se vai ou não dar para sair à barra.

Depois, suba até ao Forte de São Clemente. É um pequeno bastião do século XVII, construído para proteger a foz do Mira dos piratas berberescos, e fora de época é praticamente só seu. As pedras estão húmidas do orvalho, o vento bate na bandeira, e do alto vê-se o estuário inteiro, a foz, a Praia das Furnas do outro lado. No verão, há fila para tirar fotografias. Em fevereiro, pode lá ficar uma hora sem ver mais do que um pescador a passar com a sua cana.

Comer fora de época

Aqui é onde Milfontes brilha. No verão, os restaurantes turísticos enchem-se e a qualidade cai. Em baixa estação, os bons restaurantes ficam abertos para os locais, e o nível sobe. O peixe é mais fresco porque há menos rotação, os cozinheiros têm tempo, e os menus de inverno incluem pratos que no verão não fazem sentido: caldeirada de peixe, ensopado de borrego, migas com carne de porco, sopa de cação.

Faça-me um favor: vá ao Mabi. Não é o restaurante mais caro da vila nem o que tem mais estrelas no Tripadvisor, mas é um daqueles sítios onde se come o que se devia comer naquele dia, sem floreados. Peça o peixe do dia grelhado e uma garrafa de vinho alentejano da casa. Não tente ser sofisticado. Em Milfontes, a sofisticação é o oposto da boa comida.

Pratos a procurar entre outubro e março

  • Caldeirada de tamboril ou de cherne: o prato do inverno por excelência, lento, profundo, feito para dias de vento.
  • Sopa de cação: tipicamente alentejana, com coentros e pão. Não confundir com sopa de peixe genérica.
  • Ensopado de borrego: nem sempre fácil de encontrar, mas se vir no menu, peça.
  • Percebes: a temporada vai de outubro a maio. Caros, mas reais. Sobre isto escrevi mais em como os percebes em Odemira são apanhados, e percebem porquê o preço.
  • Bola de Berlim da padaria local: sim, são melhores em fevereiro. Menos turistas, mais frescas, sem aquele creme de pasteleiro adocicado dos lugares de verão.

O que fazer entre as chuvadas

O grande mito da baixa estação é que não há nada para fazer. É falso. Há mais para fazer, só que tem de aceitar que o ritmo é outro. Caminhe-se mais. Conversa-se mais. Anda-se sem destino.

O estuário do Mira em modo lento

Em verão, o kayak no Mira é uma manobra entre barcos a motor e jet skis. Em outubro ou março, é uma das melhores experiências do Alentejo litoral. A água está calma, o vento normalmente vem de sudoeste e empurra-o estuário acima, e os juncais estão cheios de aves migratórias. Há operadores locais que continuam a fazer saídas guiadas mesmo em baixa estação, mas com mais flexibilidade de horário. O passeio de kayak ao pôr do sol pelo estuário do Mira em novembro tem uma luz que em agosto é simplesmente impossível: oblíqua, dourada, com aquele tom de quem está prestes a apagar-se.

Para os que olham para o céu

Esta é a estação das aves. Entre outubro e março, o estuário do Mira e as salinas mais a sul transformam-se num dos pontos mais ricos de Portugal para birdwatching. Flamingos, colhereiros, garças, alfaiates, maçaricos. Para quem nunca olhou para um par de binóculos, é o momento certo para começar. Para quem já olha, há a opção de fazer um dia inteiro nas salinas de Castro Marim, que é a outra grande zona húmida do sul. A observação de aves em Castro Marim a partir de Milfontes faz-se em pequenos grupos, com guias que conhecem os bichos pelo nome.

Caminhar a Rota Vicentina

A grande rota pedestre da costa sudoeste passa aqui. Entre outubro e março, é quando faz sentido fazê-la. Em verão, com 35 graus e sem sombra, a Rota Vicentina é uma forma de morrer lentamente. Em fevereiro, com 17 graus, brisa atlântica e flores silvestres a começarem a aparecer, é uma das caminhadas mais bonitas da Europa. A etapa entre Vila Nova de Milfontes e Almograve, oito quilómetros pelos arribas, faz-se em três horas de paragens incluídas, e pode-se almoçar em Almograve antes de apanhar o autocarro de volta.

Excursões a partir de Milfontes

Use Milfontes como base. Em meia hora de carro chega-se a Porto Covo, que em baixa estação é outra terra completamente. A maior parte das esplanadas estão fechadas, mas os melhores restaurantes de peixe continuam abertos para os locais. Escrevi sobre isto com algum detalhe em Porto Covo e o peixe que ainda sabe a mar. Vá num dia de semana ao almoço, peça um robalo grelhado, e perceba porquê as comparações com a Côte d'Azur são sempre desfavoráveis para a Côte d'Azur.

Para os obstinados, há ainda as piscinas naturais perto de Porto Covo. Em baixa estação ninguém lá vai, e a água está obviamente fria, mas o cenário ganha outra escala sem gente. Leve botas de borracha, vá com maré baixa, e desça pelos trilhos com cuidado. As marés de outono e inverno são as mais vivas do ano.

O lado norte: Sines, Santiago do Cacém

Sines tem uma má reputação por causa do porto industrial, mas o centro histórico é surpreendente, e em baixa estação consegue-se estacionar onde se quer. Vá a Santiago do Cacém ver o castelo e o claustro do Convento de São Francisco. Comerá melhor lá do que em muitos sítios da Algarve.

O lado sul: Zambujeira, Odeceixe, Aljezur

A meia hora para sul abre-se a Costa Vicentina propriamente dita. Zambujeira do Mar em fevereiro tem cinco pessoas na praia, o que é o número certo. Odeceixe tem aquela praia em concha com o rio a desembocar, e em baixa estação consegue-se almoçar no único restaurante que importa sem reservar. Aljezur, mais para o interior, tem o castelo mouro, o melhor pão da costa, e a famosa batata-doce de Aljezur (com IGP) está em época entre outubro e dezembro.

Logística: chegar, mover-se, sobreviver

De Lisboa, conduza. São duas horas e meia se não houver trânsito (e em baixa estação nunca há). A alternativa é a Rede Expressos, que tem ligações diárias para Milfontes em duas horas e quarenta minutos. O autocarro custa cerca de 17 euros à ida.

Em Milfontes propriamente dita, anda-se a pé. Tudo o que importa está a menos de dez minutos. Para as praias mais afastadas, como o Malhão ou as Furnas, precisa de carro ou de uma boa caminhada de uma hora e meia. Há um táxi local, mas convém ligar com antecedência.

O que levar: roupa quente em camadas, capa de chuva, botas que aguentem lama, e um caderno se for desses. As noites são frias, especialmente perto da água. O dia, quase sempre, está melhor do que se espera.

O que não fazer

Não venha esperando o glamour de Cascais ou a animação de Lagos. Milfontes em baixa estação é uma terra calma, quase sonolenta, onde as coisas fecham cedo e onde o entretenimento principal é o céu. Se isso lhe soa a aborrecido, fique em Lisboa. Se lhe soa a tudo o que o resto do ano lhe nega, marque para março.

Não tente fazer tudo. Esta não é uma vila para listicles. Escolha duas ou três coisas por dia, faça-as devagar, e deixe o tempo encher o resto. É essa a graça: aprender a desperdiçar tempo sem culpa, num sítio onde isso ainda é possível.

E não se esqueça do guarda-chuva. Mas se chover, melhor. Uma tarde de chuva em Milfontes, com um café num bar com vista para o estuário e um livro que se vinha a adiar há meses, é uma das melhores razões para vir.

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