Piscinas Naturais Perto de Porto Covo: Refresco em Junho
Em junho, o Atlântico ainda está a 17 graus, mas as piscinas naturais entre Porto Covo e a Ilha do Pessegueiro chegam aos 23. Um guia honesto sobre onde nadar, quando ir, e porque é que as poças dos Buizinhos batem qualquer hotel de cinco estrelas.
Junho é o mês traiçoeiro do Alentejo litoral. O sol já queima como em agosto, mas o Atlântico continua a rondar os 17 graus, com correntes de nortada que fazem doer os tornozelos antes de chegarem aos joelhos. Em Porto Covo, vê-se sempre o mesmo espectáculo às duas da tarde: famílias que vieram de Lisboa convencidas de que iam mergulhar na praia da Vasco da Gama, encolhidas em toalhas, a olhar para o mar como quem olha para um inimigo educado.
A solução não está na praia grande. Está nas piscinas naturais, escavadas pelas marés ao longo da costa rochosa entre a vila e a Ilha do Pessegueiro, e em algumas pozas mais escondidas que só se descobrem com maré vazia e disposição para descer trilhos íngremes. Em junho, antes da invasão de julho, são quase só nossas. A água fica presa nas rochas durante horas, aquece ao sol até temperaturas decentes (22, 23 graus em dias bons), e o vento norte que tortura os surfistas mal lá chega.
Este guia é para quem quer fugir da multidão da Praia Grande de Porto Covo sem ir parar a Odeceixe. É também, assumidamente, uma desculpa para passar três dias na costa vicentina antes que comece a confusão.
Onde estão as piscinas (e quais valem mesmo a pena)
Há uma confusão recorrente entre piscinas naturais e poças de maré. Aqui falo das duas, mas separadas. As verdadeiras piscinas naturais, com profundidade suficiente para nadar, ficam concentradas em três zonas a sul da vila, todas acessíveis a pé ou com uma curta caminhada pelo Trilho dos Pescadores, que é a forma mais bonita (e mais honesta) de chegar lá.
Praia do Burrinho e as poças do norte
Saindo da vila para norte, a Praia do Burrinho é a primeira surpresa. É pequena, encaixada entre falésias baixas de xisto, e à direita (olhando para o mar) há um conjunto de poças que enchem com cada maré viva. A maior tem cerca de 15 metros de comprimento e em junho, ao final da manhã, fica a temperatura de uma piscina decente. Não é fundo, dá-se pé em quase toda a parte, o que a torna ideal para crianças que ainda não confiam no Atlântico aberto.
O acesso é simples: estacionamento gratuito junto à estrada que sai de Porto Covo para o Cercal, depois 10 minutos a pé por um trilho de areia. Levem chinelos de borracha, as rochas estão cobertas de cracas afiadas e em junho ainda há ouriços-do-mar nas zonas mais sombrias.
Praia dos Buizinhos e a piscina das mães
É a minha preferida e é a que recomendo a quem chega pela primeira vez. Fica a sul da Praia Grande, descendo umas escadas de madeira que a câmara reconstruiu em 2023. À direita há uma piscina natural retangular, quase desenhada, com cerca de 20 por 8 metros, fundo de areia, profundidade até 1,80m no centro. Os locais chamam-lhe a piscina das mães porque é onde se vê sempre o mesmo cenário: três ou quatro avós a fazer crochet à sombra de chapéus enquanto os netos chapinham em segurança.
Cheguem cedo. A partir das 11h em junho já está a lotar, e o estacionamento da Praia Grande enche-se rapidamente. Eu costumo aparecer às 8h30 com café e pão de Vila Nova de Milfontes (o do Cabeço da Cruz, dois quilómetros antes da entrada de Porto Covo, vale o desvio), nado meia hora, leio o jornal, e às 11h estou a sair quando os outros chegam.
As piscinas da Ilha do Pessegueiro
Aqui é que a coisa fica séria. A Ilha do Pessegueiro tem, na face virada para o continente, três ou quatro piscinas naturais espetaculares, com mais de dois metros de fundo, perfeitas para mergulho de máscara. O problema: tem de se atravessar a nado ou ir num caiaque. A travessia tem cerca de 250 metros e em junho a água ainda está fria, então só recomendo a nadadores confiantes ou a quem alugar um caiaque na Praia da Ilha do Pessegueiro (cerca de 15 euros por hora, dependendo do operador, confirme localmente).
Vale o esforço. Há um trecho específico, do lado norte da ilha, onde uma fenda na rocha forma uma piscina alongada com água esmeralda quase tropical. Levem máscara e tubo, vai-se ver polvos pequenos, salemas, e às vezes uma raia que dorme na areia do fundo. Não é o sítio para crianças nem para quem leva mau jeito ao mar.
Quando ir, e porque junho é o mês perfeito
Junho funciona pelas razões erradas. Tecnicamente, a água está mais quente em agosto e setembro. Mas em junho:
- A multidão de Lisboa ainda não chegou em força (espera o fim de semana de Santos Populares para isso)
- O nortada matinal acalma frequentemente até ao meio-dia, deixando o mar liso entre as 12h e as 16h
- As esplanadas têm mesa sem reserva
- Os percebeiros ainda andam ativos antes do defeso de agosto, e os percebes da costa de Odemira aparecem nas marisqueiras a preços ainda razoáveis
O melhor dia da semana é terça ou quarta. Sextas e domingos são massacrantes, com tráfego na A2 que pode triplicar o tempo de viagem desde Lisboa.
Marés: a única coisa que precisam de saber
As piscinas só funcionam a sério com maré vazia. Com maré cheia, muitas ficam submersas pelo Atlântico aberto, perdendo o efeito de refúgio quente. Verifiquem a tabela das marés (a aplicação do Instituto Hidrográfico é gratuita e fiável) e planeiem a manhã de praia para começar uma hora antes da preia-mar a cair. Têm assim cerca de cinco horas úteis até a maré encher novamente.
O que comer entre mergulhos
A Praia Grande de Porto Covo tem um problema clássico do litoral português: muitos restaurantes vivem da passagem turística e não se esforçam. Há excepções, e estão todas mapeadas no nosso guia de peixe fresco em Porto Covo, mas para um almoço rápido entre piscinas a regra é simples: peixe grelhado do dia, salada, batata cozida, e ponto final.
Evitem os pratos com molhos elaborados ao almoço de praia. Não é por desdém, é porque o peixe que se está a comer foi pescado nessa madrugada e qualquer molho é um desperdício. Sardinha, carapau, sargo se houver, robalo de linha se a sorte ajudar. Ao jantar, sim, vale a pena puxar pela carteira para uma cataplana ou um arroz de marisco bem feito, mas ao almoço a brasa basta.
Para mariscar a sério, façam um sábado de mercado em Zambujeira do Mar, a 30 minutos de carro. É outro mundo: peixeiras que chegam às 7h, percebes vivos, ouriços-do-mar abertos na hora. Compram, voltam para a casa alugada em Porto Covo, almoçam à sombra. Custa metade do que pagariam num restaurante e é o dobro do prazer.
Onde dormir, e porquê é importante escolher bem
Dormir em Porto Covo em junho não é caro como em agosto, mas requer alguma estratégia. As distâncias dentro da vila são curtas, mas a localização determina se acordam com vista de mar ou para o parque de estacionamento.
O Porto Covo Praia Hotel & SPA é a opção convencional: piscina exterior, spa para dias de vento, pequeno-almoço decente, e a curta caminhada de cinco minutos até à Praia Grande. Em junho, antes da época alta oficial, encontram-se quartos a preços bem mais simpáticos do que em julho. Não é charmoso, é confortável, que é uma virtude subestimada quando se tem crianças.
Para quem quer algo mais discreto, o Hotel Apartamento Porto Covo oferece apartamentos com kitchenette, ideal para quem volta do mercado da Zambujeira com uma caixa de sapateira. Cozinhar em casa numa viagem destas não é poupança, é luxo: jantar a comer marisco fresco com vista para o pôr-do-sol vale mais do que qualquer cataplana de restaurante.
Mas a minha escolha pessoal, se a viagem for de casal e o objectivo for descomprimir, é o Monte da Bemposta, a uns minutos de carro fora da vila, no campo. É a ideia certa de turismo rural alentejano: casa baixa, paredes caiadas, sombras de figueiras, silêncio. Acorda-se com galos a cantar, vai-se à praia, volta-se para um banho no fim do dia, e o vento que se ouve à noite é o nordeste a passar nos eucaliptos, não conversas de vizinhos.
O dia perfeito de junho em Porto Covo
Para quem nunca foi e quer um plano que funcione, este é o que recomendo. Provei-o várias vezes e não falha:
- 7h30: Café e pastel no Cabeço da Cruz, a caminho da entrada de Porto Covo
- 8h30: Estacionar perto da Praia Grande, descer aos Buizinhos pela escada de madeira
- 9h00 às 11h00: Piscina das mães. Mergulhos, ler, café no termos
- 11h30: Voltar à vila, almoço cedo numa marisqueira do largo (peixe grelhado, salada, meio jarro de vinho branco)
- 13h00 às 15h00: Sesta. Sim, sesta. Junho permite, agosto exige
- 15h30: Caminhada de uma hora pelo Trilho dos Pescadores até à Praia do Pessegueiro
- 16h30: Travessia a nado ou de caiaque até às piscinas da ilha
- 18h30: Regresso, duche, esplanada com vista para o pôr-do-sol
- 20h30: Jantar tardio, à hora alentejana, com cataplana ou arroz de marisco
Repetir três dias. Sair do quarto dia já com saudades. É como funciona Porto Covo em junho.
O que levar (e o que esquecer em casa)
Levem chinelos de borracha resistentes, máscara e tubo, protetor solar mineral (a costa vicentina é zona de proteção especial e os sintéticos prejudicam as poças), uma camisola fina para as noites (junho ainda refresca a 18 graus), e dinheiro em notas pequenas. Muitas marisqueiras pequenas e tasquinhas continuam a preferir dinheiro vivo, mesmo aceitando cartão.
Esqueçam toalhas grandes (uma microfibra é mais prática), gelo (compram nas bombas de gasolina à entrada da vila), e a ideia de que junho é frio. Não é. Junho é o segredo bem guardado da costa vicentina, antes de deixar de ser segredo, em julho, quando a A2 se transforma num pequeno inferno e Porto Covo deixa de ser nossa.