Percebes em Odemira: O Marisco Que Se Arrisca a Vida Para Apanhar
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Percebes em Odemira: O Marisco Que Se Arrisca a Vida Para Apanhar

· · Odemira

Na costa de Odemira, há apenas 80 percebeiros licenciados para apanhar o crustáceo mais caro de Portugal. Cozidos em água com sal e louro, os percebes da Costa Vicentina sabem a Atlântico puro, e há três restaurantes onde vale a pena pagar por eles.

Há um crustáceo que divide Portugal entre quem paga sem pestanejar e quem olha para o prato e pensa: "Estou a comer o quê, exactamente?" Os percebes não fazem sentido à primeira vista, parecem algo que se rasparia da quilha de um barco, não algo que se encomenda com uma garrafa de vinho branco. Mas na costa de Odemira, onde as rochas do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina levam com o Atlântico em cheio, os percebes são uma espécie de moeda corrente. São a razão pela qual um prato pode custar mais do que o resto do jantar junto. E são, se me perguntarem, a coisa mais honesta que se pode comer em Portugal, porque o sabor é a própria costa, concentrada num pedúnculo de cinco centímetros.

O Que São e Porque Custam o Que Custam

Vamos ao básico, porque se nunca comeu percebes, o ritual pode ser confuso. O percebe (Pollicipes pollicipes, para quem goste de nomes sérios) é um crustáceo que se fixa nas rochas batidas pelas ondas, em cachos cerrados a que os percebeiros chamam "pinhas". A parte que se come é o pedúnculo, a "perna" carnuda coberta por uma pele fina, quase como uma meia de couro. No topo, uma unha calcária que se descarta. A técnica é simples: torce-se, puxa-se a pele para baixo, e come-se. O sabor é uma explosão de mar, algures entre lagosta e amêijoa, mas com uma salinidade e uma textura que não se comparam a nada.

O preço? Conte com 40€ a 100€ por quilo, dependendo da época e da dificuldade da apanha. É caro, sim. Mas quando perceber porque, vai entender.

Os Percebeiros: 80 Licenças Para Uma Costa Inteira

Na costa entre Sines e Vila do Bispo, existem apenas 80 licenças profissionais de apanha de percebes, para toda a extensão do Parque Natural. Estes homens (e são quase todos homens) vestem fatos de mergulho, atam-se com cordas às rochas e descem até à zona intertidal armados com uma "arrelhada", uma ferramenta que originalmente servia para limpar currais de animais e que alguém, um dia, decidiu que também servia para arrancar crustáceos de rochas escorregadias.

A apanha faz-se na maré baixa, mas mesmo assim as ondas continuam a cobrir as rochas. O limite legal é de quatro quilos por dia por percebeiro, e o tamanho mínimo é de 25 milímetros de pedúnculo, percebes mais pequenos devem ficar na rocha para crescer. Esta regulamentação existe porque nos anos 70, a sobre-exploração quase dizimou a espécie. Hoje, a Associação de Mariscadores da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano, com sede em Aljezur, representa estes profissionais e zela pela sustentabilidade do recurso.

Quando comer percebes em Odemira, lembre-se: cada quilo que chega à mesa representou um homem pendurado numa rocha com o Atlântico a tentar deitá-lo abaixo. O preço faz mais sentido assim.

Onde Comer: Os Sítios Que Interessam

Marisqueira Costa Alentejana, Zambujeira do Mar

No Largo do Mira Mar, em plena Zambujeira, a Costa Alentejana é o sítio onde se vai quando se quer marisco a sério. São conhecidos pelos "barcos", travessas enormes que chegam à mesa carregadas de marisco cozido, e os percebes são presença obrigatória. O sistema é simples: escolhe-se a combinação de mariscos ou pede-se à dose. Os percebes vêm cozidos em água salgada com louro, como deve ser, sem floreados, sem molhos, sem nada que mascare o sabor do mar. Confirme preços localmente, porque variam com a apanha do dia, mas os percebes rondam os 15€ a dose como entrada.

Estrela do Mar, Zambujeira do Mar

Na Avenida do Mar, 82, a Estrela do Mar é outra marisqueira de referência na Zambujeira. O menu inclui percebes, salada de polvo, feijoada de búzios e o peixe que os barcos trouxerem nesse dia, robalo, sargo, congro. É o tipo de restaurante onde o empregado diz "hoje temos..." e a lista muda com a maré. Os percebes, quando há, são para pedir sem hesitação. A carne de porco à alentejana também é boa, para quem queira misturar mar e terra no mesmo jantar. Reservar é boa ideia em Julho e Agosto.

O Josué, Longueira-Almograve

Na Rua José António Gonçalves, 87, em Longueira (a aldeia que fica colada ao Almograve), O Josué serve percebes da Costa Vicentina e lagosta dos seus próprios aquários. É mais discreto do que os restaurantes da Zambujeira, o que geralmente significa menos espera e a mesma qualidade de produto. A zona de Almograve, aliás, merece a deslocação, as falésias são brutais e o peixe fresco da costa entre Porto Covo e Almograve tem uma frescura que não se encontra noutros sítios.

A Melhor Época e Como Comer

A temporada forte dos percebes vai de Março a Setembro, com o pico entre Maio e Julho. No Inverno, o mar está demasiado bravo para a apanha ser regular, e a oferta nos restaurantes diminui ou desaparece. Se for em Maio ou Junho, antes da invasão de Agosto, terá o melhor de dois mundos: percebes abundantes e restaurantes sem fila na porta.

Quanto à técnica de comer, não complique. Agarre o percebe pela unha (a parte dura, no topo), torça ligeiramente o pedúnculo para soltar a pele, puxe-a para baixo e coma. Vai sujar as mãos. Vai pingar. Faz parte. Se lhe derem um guardanapo de pano, desconfie, num sítio a sério, o guardanapo é de papel e há um rolo na mesa.

Um aviso: não coma percebes com molho de manteiga, limão ou o que quer que seja. A preparação tradicional é cozedura em água com sal grosso e uma folha de louro, ponto final. Qualquer restaurante que sirva percebes "gratinados" ou "com molho de ervas" não sabe o que está a fazer.

Para Lá dos Percebes: O Que Fazer na Costa de Odemira

Se veio até Odemira para comer percebes, está numa das zonas mais bonitas do país, e seria crime não aproveitar. O concelho é imenso, o maior de Portugal, aliás, e a costa é uma sucessão de falésias, praias selvagens e aldeias que ainda vivem do mar.

De manhã, antes do almoço de percebes, vale a pena navegar o estuário do Rio Mira, uma experiência que mostra o outro lado de Odemira, não a costa batida, mas o rio calmo que serpenteia entre margens verdes antes de desaguar em Vila Nova de Milfontes. É outra escala de tempo, outro tipo de silêncio.

Para os fotógrafos, a hora azul no estuário do Mira é um daqueles momentos em que a luz faz coisas que nenhum filtro de Instagram consegue replicar. O final da tarde, com a maré a encher e o céu a mudar de cor, é particularmente bom.

E se estiver com disposição para observação de natureza num registo diferente, a observação de aves na Ria de Alvor a partir de Odemira é uma surpresa, a diversidade de espécies nesta costa é notável, e as zonas húmidas atraem aves que não se vêem facilmente noutros sítios.

À tarde, se o percebe lhe abriu o apetite pela vida costeira, desça até Porto Covo e explore o bairro dos pescadores, um sítio onde ainda se vê rede estendida ao sol e onde a conversa à porta de casa é em voz alta e sem pressa.

Informação Prática

Odemira não tem transportes públicos dignos do nome. Precisa de carro. A partir de Lisboa, são cerca de duas horas e meia pela A2 até à saída para Odemira, e depois estrada nacional até à costa. A Zambujeira do Mar fica a uns 20 minutos de Odemira vila, e Almograve a cerca de 15.

Nos restaurantes, os percebes vendem-se geralmente à dose (cerca de 200-250g) ou ao quilo. Como entrada para duas pessoas, uma dose é suficiente. Se for a atracção principal, peça meio quilo e acrescente um peixe grelhado para completar. Acompanhe com vinho branco alentejano, um Esporão Reserva Branco ou um Herdade do Rocim, servidos bem frescos, são escolhas seguras.

Última nota: se alguém lhe oferecer percebes "do Marrocos" a preço de saldo, passe à frente. Os percebes da Costa Vicentina são mais curtos e gordos do que os marroquinos, e o sabor não se compara. Pergunte sempre a origem. Num restaurante sério em Odemira, a resposta será um nome de praia ou de rocha, não um encolher de ombros.

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