Mabi
Vila Nova de Milfontes
Concluído em 1602 e classificado desde 1978, o Forte de São Clemente vigia a foz do Mira a partir do promontório mais alto de Milfontes. Não se visita por dentro, mas a vista sobre o estuário ao fim da tarde paga a subida.
O Forte de São Clemente não tem bilheteira, não tem audioguia e não tem horário fixo. Está ali, no ponto mais alto da margem norte da foz do Mira, e a maior parte das pessoas passa por baixo dele a caminho da praia sem perceber que está a olhar para uma fortaleza abaluartada concluída em 1602 para travar piratas mouros e ingleses. É essa a primeira coisa a saber: chega-se de graça, vê-se de fora, e o que sobra é o sítio.
Vamos ao essencial: o Forte de São Clemente é uma fortaleza costeira do tipo abaluartada, erguida num promontório rochoso à entrada do rio Mira, em Vila Nova de Milfontes. Foi concluída em 1602, e está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1978. Os planos com baluartes em diamante apontam para os quatro pontos cardeais, e a função era prosaica: proteger a vila contra os ataques de piratas que subiam a costa alentejana à procura de saque e de gente para vender. Funcionou, mais ou menos, durante séculos.
Hoje, o forte é propriedade privada e está adaptado a alojamento, o que significa que não se visita o interior. Convém saber isto antes de subir, porque é a frustração número um de quem aparece à espera de um museu. Não há museu. Há as muralhas, o portão, a vista, e o lugar.
A morada oficial é Rua Pedro Álvares Cabral 3, 7645-234 Vila Nova de Milfontes, mas ninguém precisa do número de porta para o encontrar: assim que se entra na vila pela estrada principal, a silhueta do forte aparece à direita, sobre o estuário. A pé, a partir do centro histórico, são cinco a sete minutos pela Rua dos Aviadores em direção à Praia do Farol. De carro, há estacionamento livre na zona alta do miradouro, mas no verão (julho e agosto) é guerra: vá antes das 10h ou depois das 19h, ou esqueça.
Quem chega de fora apanha a A26 desde Sines até Cercal, ou o IC1 / N120 desde Lisboa, e os últimos quilómetros são pela N393 a entrar em Milfontes. Comboio direto não há. O autocarro Rede Expressos faz Lisboa, Sete Rios até Milfontes em cerca de três horas e meia, e o terminal fica a dez minutos a pé do forte.
A vista é o motivo real para subir. Voltado a poente, o forte abre-se sobre a foz do Mira, com a Praia das Furnas do outro lado do rio e o Atlântico a abrir do lado direito. Em dias claros, vê-se o cabo Sardão a sul. Ao fim da tarde, com a maré a entrar, o estuário enche-se de barcos pequenos e a luz cai exatamente sobre as muralhas do baluarte sudoeste. É um dos melhores miradouros da Costa Vicentina e, ao contrário de muitos outros, não cobra nada nem pede reserva.
Para fotógrafos, ou para quem queira só perceber melhor o que está a olhar, vale a pena ler antes a nossa explicação sobre as marés e a luz no estuário: a hora azul aqui tem uma janela curta, entre 25 e 40 minutos consoante a estação, e a posição do forte significa que o sol se põe atrás dele a partir de finais de outubro, o que muda tudo no enquadramento.
O forte resolve-se em 30 a 45 minutos, contando com a caminhada à volta das muralhas e algumas fotos. Não chega para encher a tarde, e ainda bem. Descer para o centro a pé pela Rua do Farol e procurar uma mesa: a nossa preferência local é o Mabi, ali no coração da vila, para um almoço sem cerimónias com peixe do dia e couvert decente. Reserva é boa ideia entre junho e setembro.
Se for fim de semana de primavera, vale verificar o calendário: o Trail Guerreiros do Mira passa precisamente pelo promontório onde se ergue o forte, e o ambiente na vila muda completamente nesses dias. No outono, o Festival das Florestas Marinhas traz palestras, cinema e workshops sobre o ecossistema do estuário, que é a parte da história que o forte, por si, não conta.
O Forte de São Clemente é, no fundo, uma estrutura militar de fim de Renascimento posta num dos sítios mais bonitos da costa portuguesa. Não foi pensado para turistas nem para fotografias: foi pensado para apontar peças de artilharia ao mar. Saber isso muda a forma como se olha para os ângulos dos baluartes, para a espessura das muralhas, para a posição em relação à barra do rio. Vá com tempo, vá sem expectativas de visita guiada, e fique até a luz mudar pelo menos uma vez. É isso que o sítio dá.