Forte de São Clemente
Vila Nova de Milfontes
Esqueça a dieta e a etiqueta francesa. O croissant da Mabi é uma instituição de Vila Nova de Milfontes que exige dedos pegajosos e uma caminhada até ao rio.
Há rituais em Vila Nova de Milfontes que são mais fiáveis que as marés do Rio Mira. Um deles é a fila à porta da Mabi. Se passar pelo Largo de Santa Maria, mesmo ao lado do imponente Forte de São Clemente, e não vir gente à espera, é provável que seja inverno ou que a loja esteja fechada. No verão, a peregrinação é constante, barulhenta e, para os iniciados, absolutamente necessária.
A Mabi não é apenas uma pastelaria; é uma instituição que definiu, para gerações de veraneantes e locais, o que significa um lanche nesta costa. O protagonista aqui é o croissant. Mas esqueça as comparações com a pastelaria francesa. O croissant da Mabi é uma besta diferente. Não procura aquela leveza folhada que se desfaz em mil migalhas ao primeiro toque. Este é o croissant de estilo português elevado à sua potência máxima: uma massa briochada, amarela (carregada de ovos), densa mas fofa, com uma cobertura doce que brilha à luz do sol alentejano.
Entrar na Mabi requer alguma assertividade. O espaço é compacto e a procura é elevada. O cheiro a manteiga e açúcar caramelizado atinge-nos assim que passamos a porta. O balcão é um desfile de tentações, mas a maioria vem com um pedido fixo na cabeça: simples, com chocolate ou com doce de ovos. O de chocolate é particularmente perigoso, com um recheio generoso que inevitavelmente acaba nos dedos.
Mas limitar a Mabi aos croissants seria um erro de principiante. A secção de gelados artesanais merece igual respeito. As vitrinas coloridas oferecem sabores que variam com a estação e a inspiração, mas a fruta local é sempre uma aposta segura. Num dia de calor abrasador, quando o vento do Atlântico decide dar tréguas, um gelado da Mabi é a única climatização necessária.
O erro mais comum dos turistas é tentar comer ali mesmo, no meio da confusão. Não o faça. A Mabi fornece o combustível, mas o cenário está lá fora. Pegue no seu saco de papel branco, que rapidamente ficará translúcido com a manteiga, e caminhe uns metros em direção ao rio. A zona ribeirinha de Milfontes oferece bancos e muretes com vista para o estuário, onde o Mira se encontra com o mar.
É aqui, sentado a ver os barcos de pesca e o movimento das águas, que o croissant sabe melhor. A luz do final da tarde nesta zona é lendária. Se tiver interesse em captar estes momentos com algo mais do que a câmara do telemóvel, vale a pena espreitar o nosso A Hora Azul: Guia Fotográfico do Estuário do Mira, onde detalhamos exatamente porque é que esta luz é tão especial para fotógrafos.
A Mabi está localizada no Largo de Santa Maria 25A. Se estiver alojado no centro da vila, vá a pé. O estacionamento nesta zona histórica, especialmente perto do castelo, é um pesadelo nos meses de verão. As ruas são estreitas e de sentido único, desenhadas para carroças e não para SUVs modernos.
Quanto a pagamentos, prepare-se para tudo, mas o dinheiro vivo é sempre mais rápido em situações de grande afluência. O preço é moderado (€€), justo para a qualidade e fama do produto, embora tenha subido ligeiramente ao longo dos anos, acompanhando a popularidade da vila.
Se quiser evitar as multidões, evite as horas de ponta do lanche (entre as 16h00 e as 18h00). Tente ir logo de manhã cedo para apanhar a primeira fornada, ou à hora de almoço quando a maioria das pessoas está nos restaurantes ou na praia. E se ligar para o +351 283 998 677, talvez consiga saber se os seus favoritos ainda estão disponíveis, embora a melhor política seja sempre aparecer e ver o que o forno acabou de entregar.
Para mais detalhes, pode consultar o site oficial em www.mabi.pt, mas não espere que a experiência digital substitua o aroma que se sente na rua.
A Mabi não precisa de publicidade; a fila à porta fá-lo por ela. É um daqueles sítios que podia ter baixado a qualidade e continuaria cheio, mas mantém a consistência. O croissant da Mabi é uma memória gustativa que quem passa por Milfontes leva para casa e que, invariavelmente, obriga ao regresso. Não é alta gastronomia, é conforto em forma de massa.