Porto Covo: Praias Fluviais para Fugir ao Vento Norte
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Porto Covo: Praias Fluviais para Fugir ao Vento Norte

· · Porto Covo

A nortada levanta à uma da tarde e a água do mar não passa dos dezoito graus. A resposta não é aguentar: é meter-se no carro e ir para dentro. Do Pego das Pias à Barragem de Santa Clara, o guia das praias fluviais a partir de Porto Covo.

Chega sempre no mesmo dia. É a terceira tarde de férias, a nortada levantou por volta da uma, a areia da Praia Grande anda a voar na horizontal e a água, que nesta costa raramente passa dos dezoito graus, já lhe tirou a vontade de entrar depois do primeiro mergulho. Está deitado atrás de um paredão de esteiras, com areia nos dentes, a fingir que isto é descanso.

Não é. E a solução não é aguentar mais duas horas por teimosia. A solução é meter-se no carro e ir para dentro, à procura de água doce.

Porto Covo é uma vila de Atlântico bruto: falésia, ondulação, vento previsível e água que sobe do fundo fria por causa do afloramento costeiro. É espectacular e é cansativo. As praias fluviais existem exactamente para os dias em que o mar deixa de ser uma boa ideia: água parada, sem sal, sem correntes de rebentação, geralmente com sombra a sério e quase sempre com metade das pessoas.

O que é, afinal, uma praia fluvial

É um troço de rio, ribeira ou albufeira preparado (às vezes muito pouco preparado) para banhos. Algumas têm bandeira azul, bar, nadador-salvador e relvado. Outras são um poço de água escura entre rochas onde se chega por caminho de terra batida e onde não há nada, absolutamente nada, além do que levar consigo. As duas categorias merecem visita, mas exigem posturas diferentes: a primeira é um programa de família, a segunda é uma expedição de meia manhã.

A partir de Porto Covo, o mapa organiza-se em três anéis: o que se faz antes do almoço, o que dá um dia inteiro, e o que só se justifica se estiver a fazer estrada para norte ou para leste. Vamos por essa ordem.

O anel de 45 minutos: Pego das Pias

Se só tiver paciência para uma praia fluvial nestas férias, faça esta. O Pego das Pias fica na zona de São Domingos, concelho de Santiago do Cacém, e chega-se lá pela estrada de Cercal do Alentejo, em qualquer coisa como quarenta e cinco minutos de condução tranquila. A ribeira corre encaixada entre rocha, formando poços fundos e escuros que ficam à sombra durante grande parte do dia. Não é uma praia no sentido convencional: é um desfiladeiro pequeno com pedra polida, água transparente e um eco esquisito que faz com que qualquer conversa a dez metros pareça estar a acontecer ao seu lado.

Regras da casa, e são a sério: não há nadador-salvador, não há bar, não há casa de banho e o estacionamento resume-se ao espaço que houver junto ao caminho. Chegue antes das dez da manhã em agosto ou vai passar vinte minutos a manobrar. Leve água, leve fruta, leve um saco para o lixo e traga-o de volta. Nunca, em circunstância alguma, mergulhe de cabeça: os poços têm profundidades irregulares e rochas submersas que mudam de posição consoante o inverno que passou.

O truque local é combinar a manhã no Pego das Pias com almoço tardio numa tasca de aldeia a caminho, do género que serve carne de porco e sopa sem menu escrito. Leve dinheiro vivo. Metade destes sítios continua a olhar para o terminal de multibanco como uma sugestão.

Um dia inteiro: a Barragem de Santa Clara

A Barragem de Santa Clara, em Santa Clara-a-Velha, é o extremo oposto do Pego das Pias. É enorme, é aberta, é azul de postal, e a paisagem à volta é de eucaliptal e montado, com aquela luz dura do interior alentejano que não perdoa quem se esqueceu do chapéu. Fica no concelho de Odemira, a mais de uma hora de Porto Covo, e por isso é programa de dia inteiro e não de tarde apressada.

A albufeira alimenta o rio Mira, o mesmo Mira que desagua em Vila Nova de Milfontes, o que faz desta viagem um exercício simpático de geografia: sobe-se ao princípio do rio de manhã e pode-se acabar o dia na foz. A zona de banhos tem apoio no verão e há actividade náutica na albufeira, mas os horários e as concessões mudam de ano para ano, por isso confirme localmente antes de contar com bar aberto ou com aluguer de caiaques.

Aviso importante e pouco romântico: numa albufeira, a água à superfície engana. Meio metro abaixo está bastante mais fria e o corpo percebe isso ao terceiro braço de crawl. Entre devagar, não se afaste da zona sinalizada e respeite qualquer indicação junto às estruturas da barragem, onde as correntes de descarga não se vêem da superfície.

Meio rio, meio mar: Milfontes e Odeceixe

Há uma categoria intermédia que os alentejanos dominam há gerações: a praia de estuário. Tecnicamente não é fluvial, na prática resolve o mesmo problema.

A Franquia, Vila Nova de Milfontes

A vinte e tal minutos de Porto Covo, a Praia da Franquia é o rio Mira antes de se render ao Atlântico. Água calma, sem rebentação, temperatura muito mais civilizada que a do mar aberto e uma vista para a margem sul que é das melhores do concelho ao fim da tarde. É a praia onde as famílias de Milfontes largam as crianças e onde se aprende a andar de paddle sem humilhação pública.

A ressalva é a óbvia: em agosto, aquilo enche de forma quase cómica. Se for nessa altura, vá cedo, ou atravesse para a margem oposta, onde a Praia das Furnas oferece mais espaço e menos toalhas. No verão costuma haver travessia de barco entre as duas margens, mas confirme localmente porque depende do operador e da maré. Se está a planear a semana grande do mês, leia primeiro o nosso guia para escapar às multidões de Milfontes em agosto: as horas certas fazem toda a diferença.

Odeceixe, onde a ribeira ganha ao mar

Descendo a costa, a Praia de Odeceixe é a demonstração perfeita de por que razão vale a pena conhecer a maré. A ribeira de Seixe desce encaixada no vale, encontra o Atlântico numa curva de areia e, na maré vazia, forma do lado do rio uma lagoa quente, rasa e completamente sem ondas. Do lado esquerdo, mar bravo com surfistas; do lado direito, crianças a chapinhar em água morna. A mesma praia, dois climas.

De Porto Covo é cerca de uma hora de carro, atravessando Odemira. Faça o dia com calma: praia de manhã, almoço na vila de Odeceixe, que fica a alguns quilómetros do areal, e regresso ao fim da tarde. Se decidir dormir por ali e continuar para sul, o nosso retrato da Zambujeira do Mar fora de época explica bem o que a costa se torna quando o mês de agosto acaba.

Se estiver a fazer estrada: três que valem mesmo o desvio

Ninguém conduz três horas de Porto Covo só para tomar banho num rio. Mas se estiver a caminho de norte ou de leste, estas três estão entre as melhores praias fluviais do país e justificam o desvio.

  • Fragas de São Simão, Figueiró dos Vinhos. Água da ribeira de Alge encaixada num anfiteatro de xisto, com a aldeia de Casal de São Simão logo acima e trilhos pedestres a partir do parque de estacionamento. Das praias fluviais mais fotogénicas de Portugal, e das mais frias.
  • Praia Fluvial do Alamal, Gavião. O Tejo em modo lago, com relvado, sombra e apoio de praia. Programa de família sem stress, muito bem organizado, ideal para quem viaja com miúdos pequenos e não quer pedras nos pés.
  • Praia Fluvial de Monsaraz, Alqueva. A grande albufeira artificial da Europa com a vila muralhada em cima da colina como cenário. Água quente ao fim do verão e um dos melhores céus nocturnos do país, já que toda esta zona é reserva de céu escuro certificada.

As regras que ninguém escreve nas placas

  • Nunca mergulhe de cabeça. É a causa número um de acidentes graves em água doce. O fundo muda todos os invernos.
  • Assuma que não há nadador-salvador. Nas praias fluviais menores, não há mesmo. Não deixe crianças sozinhas, nem por dois minutos.
  • Calçado de água. Rocha com limo é escorregadia de uma forma que parece cómica até deixar de ser.
  • Dinheiro vivo. Aldeias pequenas, bares sazonais, rede de dados irregular.
  • Mosquitos ao fim da tarde. Junto a água parada, a partir das sete, é guerra. Leve repelente.
  • Leve o lixo de volta. Nenhum destes sítios tem recolha decente em agosto.
  • Combustível. No interior alentejano, as bombas são poucas e fecham cedo. Encha o depósito antes de sair da costa.

A base: dormir em Porto Covo e voltar salgado

O argumento a favor de Porto Covo como quartel-general é simples: em quarenta minutos de carro tem ribeira, em vinte tem estuário, e em quinze passos tem falésia. Poucos sítios em Portugal oferecem esse leque.

Para quem quer piscina e serviço no regresso da estrada, o Porto Covo Praia Hotel & SPA é a escolha directa. Para famílias que precisam de cozinha, frigorífico e espaço para pendurar fatos de banho molhados sem drama, o Hotel Apartamento Porto Covo faz melhor o trabalho. E se a ideia é acordar longe do trânsito de verão, o Monte da Bemposta devolve-lhe o campo alentejano ao pequeno-almoço, o que combina bem com dias de água doce.

Reserve pelo menos uma manhã para o mar, apesar de tudo. O Trilho dos Pescadores a partir de Porto Covo é a melhor caminhada costeira do país e faz-se cedo, antes do calor. E se o mar estiver calmo, a travessia de barco até à Ilha do Pessegueiro resolve uma manhã inteira com forte de século XVI incluído.

Ao jantar, volte ao sal. A costa de Odemira faz percebes e ostras com uma seriedade que envergonha metade do Algarve, e o nosso guia do marisco em Odemira diz-lhe o que pedir e em que altura do ano. É a conclusão lógica do dia: manhã de água doce, tarde de sesta, noite de marisco e vinho branco fresco na esplanada, com o vento norte finalmente a acalmar por volta das nove.

O Atlântico daqui é para admirar. Os rios é que são para nadar. Perceber essa diferença é, provavelmente, a coisa mais útil que este guia lhe pode dar.

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