Barco para a Ilha do Pessegueiro em Porto Covo: Guia
Mestre Joaquim Matias, 77 anos, é a única pessoa autorizada a levar visitantes à Ilha do Pessegueiro. Há 27 anos que faz a travessia desde o porto de pesca de Porto Covo, e cobra 15€ por uma viagem que dura duas horas e atravessa dois mil anos de história.
O barco sai do porto de pesca, demora dez minutos a chegar à ilha, e na cabine vai um senhor de 77 anos que conhece cada pedra do forte do Pessegueiro melhor do que conhece a sua própria casa. Chama-se Joaquim Matias, mas em Porto Covo toda a gente lhe chama Mestre Matias. É a única pessoa autorizada a levar visitantes à ilha. Há 27 anos que faz a mesma travessia, já transportou mais de 40 mil pessoas, e continua a contar a história da ilha como se fosse a primeira vez.
Não é um passeio de catamarã com música ambiente e máquina de gelados. É uma travessia curta, num barco de pesca pintado de cores fortes, com um homem que sabe tudo o que há para saber sobre aquele pedaço de terra a 250 metros da costa. E é por isso que vale a pena.
Quem está por trás do passeio
A empresa chama-se JMatias Unipessoal, Lda. e funciona em parceria com a Junta de Freguesia de Porto Covo, que centraliza as informações para o público. O Mestre Matias é o capitão, o guia e o historiador residente. Aos 77 anos continua a fazer três viagens por dia durante a época balnear, e quando o mar está bom faz mais. A reserva faz-se diretamente pelo telefone 965 535 683.
Como funciona
Os passeios saem do porto de pesca de Porto Covo (7520-437), três vezes por dia: 10h, 14h e 16h. Cada visita dura cerca de duas horas, das quais a travessia em si ocupa só vinte minutos no total (ida e volta). O resto do tempo é passado em terra, a percorrer a ilha. O preço é de 15€ por pessoa para a travessia simples ida e volta. Para grupos organizados de pesca, entre outubro e maio, o valor sobe para 30€ por pessoa em grupos de 6 a 8 participantes. Confirme sempre os horários e disponibilidade no próprio dia, porque o mar manda mais do que o calendário.
O que se vê quando se chega
A ilha é pequena: 340 metros de comprimento por 325 de largura no ponto mais largo. Mas tem mais história por metro quadrado do que qualquer outro sítio na costa alentejana.
O forte
No alto fica o Forte de Santo Alberto, mandado construir no século XVII por D. João IV para defender a costa dos piratas berberes que assaltavam as povoações. Está em ruínas, mas a estrutura ainda permite perceber o desenho: muralhas baixas, baterias viradas para a costa, uma capela ao centro. O Mestre Matias conta a parte da história que não está escrita nas placas. Quem morreu lá, quem fugiu, qual era a vida de um soldado preso num pedaço de rocha no Atlântico durante meses.
As ruínas romanas
Antes do forte, antes dos piratas, antes de tudo, esteve cá uma fábrica romana de salga de peixe. É daí que vem o nome da ilha: do latim piscatorius, lugar de pescadores. Os tanques de pedra ainda se veem, escavados na rocha, e foi assim que os romanos preparavam o garum, o molho de peixe fermentado que vendiam por todo o império. É uma sensação estranha pisar uma fábrica com dois mil anos.
O lado virado para fora
A maior parte das pessoas nem sabe que do outro lado da ilha existe uma pequena praia de calhau, virada para mar aberto. É o melhor sítio para ver as ondas a bater contra a rocha. Não se pode tomar banho ali (corrente forte, fundo perigoso), mas vale o curto desvio.
O melhor momento do passeio
É a chegada. O barco contorna a parte sul da ilha antes de atracar, e durante esses dois ou três minutos vê-se o forte de baixo para cima, com as muralhas a desenharem-se contra o céu. Se conseguir, faça o passeio das 10h. A luz é melhor, há menos gente e o mar costuma estar mais calmo do que à tarde, quando a nortada se levanta. O passeio das 16h tem a vantagem do ouro do fim de tarde a iluminar as paredes do forte, mas há mais gente e o mar tende a estar picado.
O que levar
- Sapatos com sola que agarre. A ilha é rocha solta, areia compacta e ruínas. Chinelos não servem.
- Chapéu e protetor solar. Não há sombra nenhuma na ilha, exceto dentro de pedaços do forte.
- Garrafa de água. Não há nada à venda lá.
- Casaco corta-vento, mesmo no verão. Em alto mar há sempre vento, e a travessia molha quem vai à proa.
- Máquina fotográfica ou telemóvel com bateria. Vai querer fotos.
Como chegar a Porto Covo
O porto de pesca fica na parte norte da vila, a uns dez minutos a pé do largo Marquês de Pombal. Se vier de carro, há estacionamento gratuito junto ao porto, mas em agosto enche depressa. Vir de manhã cedo resolve esse problema. A vila tem boas opções para passar a noite: o Porto Covo Praia Hotel & SPA para quem quer conforto, o Hotel Apartamento Porto Covo para famílias com cozinha própria, ou o Monte da Bemposta se preferir ficar no campo.
O que fazer depois
Saia do barco, tome um café no porto e estique a tarde por Porto Covo. Há almoço de peixe fresco no bairro dos pescadores, como contamos em este guia sobre os melhores sítios para comer peixe na vila, e há piscinas naturais a poucos minutos de carro se ainda lhe sobrar paciência para o mar, tudo explicado neste roteiro. Para entender porque é que Porto Covo continua diferente das vilas mais a sul, vale a pena ler o guia geral da vila.
Vale mesmo a pena?
Vale, e por uma razão simples: é uma das poucas experiências turísticas em Portugal onde o guia é também o operador, o capitão e a pessoa que conhece a história em primeira mão. Não é um produto empacotado. É um senhor com um barco que decidiu, há quase três décadas, que ia mostrar a sua ilha às pessoas. Por 15€ leva-se de volta a travessia, uma visita ao forte, duas mil anos de história e a sensação de ter feito qualquer coisa que ainda não foi capturada por uma cadeia de agências online.