O Que Fazer com Crianças em Porto Covo: O Guia Honesto
Porto Covo não tem parques aquáticos nem animação organizada, e é exatamente por isso que funciona tão bem com crianças: uma praia larga e protegida, um trilho curto que os miúdos aguentam, e um barco até à Ilha do Pessegueiro que rouba o dia a qualquer outra atração.
Ninguém escolhe Porto Covo para as crianças. Escolhe-se pela falésia, pelo silêncio fora de época, pelo peixe grelhado sem pretensões. E depois, quando se chega com dois miúdos no banco de trás a perguntar "falta muito?", descobre-se que Porto Covo é, na verdade, um dos sítios mais fáceis da Costa Vicentina para viajar em família. Não porque tenha parques aquáticos ou animação organizada (não tem, e ainda bem), mas porque a geografia do lugar faz o trabalho todo por si: uma praia de areia larga, protegida, com águas mais calmas do que a maior parte da costa alentejana, a cinco minutos a pé de quase tudo.
A praia que resolve o problema antes de o ter
Comece pelo óbvio: a Praia Grande de Porto Covo. Chama-se "Grande" e é mesmo, o que significa que mesmo em agosto há espaço para armar uma tenda de sol sem ficar colado ao vizinho. A baía é resguardada por rochas de ambos os lados, o que corta o vento (importante, porque nesta costa o vento não é um pormenor, é um personagem) e mantém a ondulação mais controlada do que em praias abertas como as de Vila Nova de Milfontes ou Zambujeira. Isto não quer dizer que seja uma piscina: há correntes, há dias de mar bravo, e a bandeira vermelha existe por alguma razão. Mas para nadar com crianças pequenas, sem ter de fazer quilómetro e meio de caminhada por trilhos até uma enseada escondida, é a opção mais sensata da região.
Há apoio de praia, casas de banho, e nos meses de verão nadador-salvador. Chegue antes das 11h se quiser lugar perto da areia seca com sombra natural nas rochas; ao início da tarde o parque de estacionamento informal atrás da praia enche rápido.
O trilho que os miúdos aguentam (e o que não)
A Rota Vicentina é o motivo pelo qual meio Porto Covo existe no imaginário de quem caminha a sério, com mochila de 12 kg e planos de fazer os 26 quilómetros até Vila Nova de Milfontes num dia. Isso não é plano de família. Mas o troço урbano de o Trilho dos Pescadores em Porto Covo tem um segmento curto, junto à vila, plano, sobre a arriba, com vista para a Ilha do Pessegueiro, que crianças a partir dos 6 ou 7 anos fazem sem drama. Conte 40 minutos a passo lento, com paragens para atirar pedras ao mar e perguntar porque é que a água é tão azul. Leve chapéu e água: não há sombra nenhuma no trilho, e o sol da tarde na Costa Vicentina não perdoa peles do norte da Europa nem do norte de Portugal.
Não tente o troço completo até à Zambujeira com crianças pequenas. É lindo, mas é para adultos com botas e paciência.
A ilha que se vê mas não se pisa (às vezes)
A Ilha do Pessegueiro fica ali, mesmo em frente, e é tentador achar que é só nadar até lá. Não é. A corrente entre a praia e a ilha é traiçoeira, e a forma correta de a visitar é de barco. O passeio de barco até à Ilha do Pessegueiro parte do pequeno porto de pesca e é, sinceramente, o momento alto do dia para a maior parte das crianças: motor a acelerar, borrifos de água salgada, gaivotas a seguir o barco à espera de peixe. A travessia é curta, cerca de 10 a 15 minutos, e na ilha há as ruínas do forte de Nossa Senhora da Vida e um farol desativado que dá para explorar em 30 a 40 minutos sem pressa. Não há sombra nem casas de banho na ilha, portanto vá com protetor solar já posto e a garrafa de água cheia. Confirme localmente os horários de saída, que variam com a maré e a época do ano.
Onde dormir sem entrar em guerra às 21h
A escolha do alojamento em Porto Covo com crianças resume-se, na prática, a duas perguntas: quer piscina ou quer cozinha própria? Se a resposta é piscina e alguma estrutura de hotel (bar, receção, gente para resolver problemas), o Porto Covo Praia Hotel & SPA é a escolha óbvia: fica a distância curta a pé da praia principal e tem piscina exterior, o que em agosto, entre a manhã na praia e o jantar, compra pelo menos duas horas de paz aos pais.
Se prefere autonomia, cozinhar a massa às 19h30 sem drama de restaurante lotado e ter espaço para estender toalhas molhadas sem pânico, o Hotel Apartamento Porto Covo resolve isso com apartamentos equipados dentro da vila, a pé de tudo. É a opção que recomendo a famílias com bebés ou crianças com sono irregular: nada de esperar pelo prato principal às 21h com um bebé a chorar ao colo.
Para quem quer sair de vila e trocar o burburinho de agosto por sossego rural com espaço para os miúdos correrem, o Monte da Bemposta é a alternativa: propriedade rural nos arredores, mais tranquila, ideal para quem tem carro e não se importa de fazer os 5 a 10 minutos até à praia todos os dias. Não é para quem quer ir e vir a pé de chinelos.
A comer: o que pedir e o que evitar
Porto Covo não tem a variedade gastronómica de Vila Nova de Milfontes, e isso, para famílias, é uma vantagem: menos escolha, menos discussão. A vila vive de peixe e marisco simples, grelhado, sem truques. Se os miúdos comem peixe, peçam robalo ou dourada grelhados com batata cozida, sempre a aposta mais segura e a que raramente desagrada a paladares infantis. Se não comem peixe, praticamente todos os restaurantes da vila têm a opção clássica portuguesa de salvação: bife com batatas fritas ou frango grelhado.
Para os pais, a região inteira vive um momento de marisco de verão que vale a pena entender antes de sentar à mesa: percebes, ostras e as mesas atlânticas que definem esta faixa de costa estão bem explicadas no nosso guia sobre marisco em Odemira, que cobre preços e época própria, informação útil para não pagar caro por percebes fora de temporada.
Evite os restaurantes mesmo na linha da praia ao meio-dia em agosto: fila, preço inflacionado, serviço apressado. Suba uma ou duas ruas para dentro da vila e coma melhor, mais barato, com mais paciência do empregado para uma criança que derrama o sumo duas vezes.
Dias de vento (porque vai haver)
Há dias em Porto Covo em que o vento nortada não dá tréguas e a praia deixa de ser opção com crianças pequenas, sobretudo bebés. Nesses dias, a jogada certa é fugir para dentro: um passeio de carro até Vila Nova de Milfontes, maior, com mais escolha de cafés e lojas para matar uma tarde, e onde há mais oferta para dias assim, bem detalhada no guia sobre Vila Nova de Milfontes em agosto, com dicas de como fugir à multidão que se aplicam igualmente a famílias que só querem um café sem fila. A viagem é rápida, menos de 20 minutos de carro.
Outra opção, mais ambiciosa mas recompensadora, é rumar a sul até Zambujeira do Mar, cujas falésias e ritmo mais lento fora da época alta estão bem descritos no guia sobre Zambujeira do Mar. Não é sítio para bebés na praia (as arribas ali são mais altas, o acesso mais trabalhoso), mas para crianças mais crescidas que gostam de trilhos e vistas, vale o desvio.
O que não fazer
Não tente fazer Porto Covo em modo turístico intensivo: praia de manhã, ilha à tarde, jantar fora e ainda o pôr do sol na falésia. Escolha uma coisa grande por dia. As crianças aguentam praia e depois um gelado, ou trilho e depois barco, mas raramente aguentam os três sem uma birra a meio da tarde, normalmente por volta das 16h, hora em que o sol ainda pica e a paciência já não.
Não subestime o vento à noite. Mesmo em agosto, um jantar ao ar livre depois das 20h pode exigir uma camisola para os mais pequenos. Leve sempre uma no saco, mesmo que pareça excesso de zelo.
Logística prática
- Chegada: de carro pela A2 e depois IC1/N120, cerca de 2h15 desde Lisboa. Não há comboio direto; a opção mais prática é mesmo carro alugado.
- Estacionamento: gratuito mas informal em terra batida perto da praia; chega cedo em agosto.
- Farmácia e mercearia: existem na vila, suficientes para o essencial, mas não espere supermercado grande. Se precisar de fraldas ou leite específico em quantidade, compre antes de chegar, em Sines ou Vila Nova de Milfontes.
- Época baixa (maio, junho, setembro): a vila é outra, mais calma, mais barata, e a praia continua ótima. Se puder escolher, fuja de agosto.
Porto Covo com crianças não é sobre entretenimento organizado. É sobre uma praia que funciona, um barco que emociona, um trilho curto que se aguenta, e a certeza de que ninguém vai voltar do jantar arrependido por ter escolhido peixe grelhado em vez de um menu infantil qualquer. É honesto assim: simples, funcional, e por isso mesmo, bom.