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Porto Covo Não Tem Museus, e Não Faz Falta

· · Porto Covo

A resposta curta é que Porto Covo não tem museus. A resposta longa envolve tanques de salga romanos comidos pelo mar, um forte nunca terminado e a explicação de por que isso é melhor do que qualquer sala com ar condicionado.

Alguém escreveu-nos a perguntar quais são os melhores museus de Porto Covo. A resposta curta é nenhum. A resposta longa é esta: Porto Covo tem uma igreja do século XVIII, uma ilha cheia de ruínas romanas e ninguém achou necessário construir uma sala com ar condicionado e legendas bilingues para explicar nada disso. E, sinceramente, está tudo bem assim.

A pergunta errada

Porto Covo foi arrasada pelo terramoto de 1755, como quase toda a costa, e reconstruída por ordem do Marquês de Pombal segundo o mesmo traçado pombalino que se vê na Baixa de Lisboa, só que em miniatura e virado para o mar. O centro da vila é o Largo do Marquês de Pombal, uma praça quadrada e branca com a Igreja de Nossa Senhora da Soledade no meio, barroca, do século XVIII, ainda a funcionar como paróquia. Não há bilheteira, não há guia, não há loja de recordações. Está aberta para a missa e para quem quiser entrar em silêncio ver o retábulo. É a coisa mais parecida com um museu que a vila tem, e nem sequer se comporta como um.

Se veio de propósito à procura de um edifício com painéis explicativos sobre a história local, vai sair desiludido em quinze minutos. Se aceitar que a história aqui não está guardada em vitrines mas espalhada pela paisagem, o passeio muda de figura.

O museu que é uma ilha

A cerca de dez minutos de barco da vila fica a Ilha do Pessegueiro, e é ali que está o verdadeiro património de Porto Covo, só que ao ar livre. Os romanos usaram a ilha como centro de produção de garum, o molho de peixe fermentado que temperava meio império, e os tanques de salga onde o peixe era conservado ainda são visíveis na rocha, o vestígio mais antigo de uma ocupação que dura há milénios. No século XVI, no reinado de Filipe I, construiu-se ali o Forte de Santo Alberto para proteger o porto natural dos ataques de corsários berberes, e no continente ergueu-se o Forte de Nossa Senhora da Queimada, mandado erguer já no século XVII por Dom Pedro II. O terramoto de 1755 arruinou os dois. Ninguém os restaurou para turista ver, e por isso continuam ali, meio comidos pela salsugem, sem cordão de segurança nem placa a dizer para não tocar.

Para lá chegar sem improvisar, vale a pena seguir este guia do barco para a Ilha do Pessegueiro, que explica os horários e o que esperar da travessia. A dica é ir de manhã, antes do vento de tarde levantar ondulação e tornar o desembarque mais complicado. Leve água, não há nada à venda na ilha, e calçado que aguente pedra solta.

A costa a pé, que também conta uma história

Se preferir chegar pelas próprias pernas, o troço da Rota Vicentina que passa por aqui, conhecido como Trilho dos Pescadores, segue a linha da falésia até Vila Nova de Milfontes e é, para todos os efeitos, um museu ao ar livre de geologia e de vida marítima. Vale a pena consultar este roteiro do Trilho dos Pescadores em Porto Covo antes de sair, porque o percurso tem troços expostos ao vento e sem sombra nenhuma, e em agosto isso significa levar mais água do que parece necessário às nove da manhã.

No caminho, ou só para ficar por perto da vila, a Praia Grande de Porto Covo é o outro grande expositor da zona, uma enseada protegida por rochedos que a torna uma das praias mais seguras da Costa Vicentina para nadar, o que aqui não é pouco. Não há legendas nem curadoria, só água limpa e um areal que ainda não foi tomado pelos guarda-sóis alugados a peso de ouro que se veem mais a norte.

O único museu a sério fica em Sines

Se a palavra museu for mesmo indispensável nas suas férias, a resposta honesta é sair de Porto Covo. Sines, a curta distância de carro para norte, tem o Museu de Sines, também conhecido por Casa Vasco da Gama, instalado dentro do castelo da cidade, na torre de menagem. Vasco da Gama nasceu em Sines, e o museu presta-lhe tributo com uma instalação multimédia, mas o acervo vai muito mais longe, com peças que cobrem a história da região desde o Paleolítico até ao século XX. A entrada é gratuita, abre de terça a domingo das 10h às 13h e das 14h às 17h, com horário alargado até às 18h no verão. É um museu a sério, com curadoria a sério, e vale a manhã que lhe vai tirar. Só não o confunda com nada que exista em Porto Covo, porque não existe.

Onde ficar enquanto não visita museu nenhum

Para quem quer base em Porto Covo e prefere conforto de hotel, o Porto Covo Praia Hotel & SPA fica a curta distância a pé da praia e da vila, o que poupa deslocações de carro para quem quer só alternar entre praia, esplanada e sesta. Para estadias mais longas ou grupos, o Hotel Apartamento Porto Covo oferece cozinha própria, o que em agosto, com os preços dos restaurantes da vila a subir com a procura, compensa. Quem preferir dormir fora do centro, com mais silêncio e vista de campo em vez de vista de telhado, tem no Monte da Bemposta uma alternativa rural a alguns minutos de carro da vila.

E comer, já que os museus não alimentam ninguém

Porto Covo não tem estrelas Michelin nem precisa delas. O que tem é marisco fresco da lota local e restaurantes de vila que fazem uma coisa bem feita em vez de um menu extenso feito para agradar a todos. Para perceber o que pedir e onde a região se leva a sério com percebes e ostras, vale a pena ler este guia de marisco em Odemira, que cobre a área inteira, de Porto Covo a Vila Nova de Milfontes. A regra prática é simples: peça o peixe do dia grelhado, sem complicações, e deixe os pratos com molhos exóticos para outra viagem.

Se sobrar um dia

Quem ficar mais do que um fim de semana costuma alargar o raio de ação para sul. Vila Nova de Milfontes é a vizinha óbvia, e em agosto enche a sério, por isso vale a pena ler antes este guia sobre Vila Nova de Milfontes em agosto para saber onde escapar às multidões sem sair da zona. Mais ao sul ainda, Zambujeira do Mar tem falésias mais altas e um ritmo mais lento fora do pico da época alta, descrito neste guia para quem trabalha remoto, útil mesmo para quem só quer perceber quando a vila esvazia.

A vila é o museu

No fim, a piada é esta: quem vem a Porto Covo à procura de um museu já está a olhar para um, só que sem soube perceber. A praça pombalina reconstruída depois do terramoto, os tanques de salga romanos comidos pelo mar, os fortes que nunca chegaram a ser terminados, o cheiro a peixe grelhado que sai das cozinhas ao final da tarde: é tudo exposição permanente, sem vitrine, sem bilhete, sem hora de fecho. Se precisa mesmo de uma sala com ar condicionado e legendas, Sines fica ali ao lado. Mas se vier a Porto Covo à procura de algo para fotografar por dentro de um vidro, está a perder o que a vila tem para oferecer, que é justamente o contrário disso.

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