Porto Covo a Pé: As Ruas Brancas Entre o Cais e a Falésia
Porto Covo cabe inteira num dia de caminhada: do Largo Marquês de Pombal à Praia Grande, do cais de pescadores ao início do Trilho dos Pescadores com vista para a Ilha do Pessegueiro. Um roteiro a pé sem pressa, sem carro e sem GPS.
Porto Covo não tem semáforos. Não tem, para ser exato, quase nenhuma rua onde um carro se sinta bem-vindo depois das 9h de manhã em agosto. É uma vila pequena, construída em quarteirão apertado sobre uma falésia baixa, e a melhor forma de a perceber é deixar o carro parado e andar. Em vinte minutos a pé cobre-se o essencial. Em duas horas, com paragens, cobre-se a vila inteira duas vezes.
O centro: Largo Marquês de Pombal e a malha branca
Tudo começa no Largo Marquês de Pombal, o coração administrativo e social da vila, rodeado de casas caiadas de branco com beirais azuis, cor que se repete em Porto Covo com uma disciplina quase teimosa. Não é decoração para postal: é a mesma lógica das aldeias alentejanas mais a norte, adaptada aqui ao vento atlântico que bate direto do mar sem nada pelo meio a travá-lo. Às vezes, em janeiro, esse vento é o único som que se ouve no largo às sete da manhã, antes de a padaria abrir.
Das ruas que partem do largo, a Rua do Alentejo e a Rua de Lisboa são as mais interessantes para andar sem pressa: comércio pequeno, casas de férias com portas pintadas, e aqui e ali uma tasca que só abre ao almoço. Não há grande arquitetura para fotografar, e é precisamente por isso que a vila funciona: é feita para se viver, não para se admirar de fora.
Para dormir dentro da malha ou fora dela
A escolha de onde dormir em Porto Covo muda a experiência de andar a pé. Ficar no Hotel Apartamento Porto Covo, mesmo dentro da vila, significa acordar a cinco minutos de tudo: padaria, praia, cais. É a opção lógica para quem quer deixar o carro parado três ou quatro dias. Já o Porto Covo Praia Hotel & SPA junta a esta proximidade um spa e piscina, o que compensa nas tardes de vento forte em que caminhar deixa de ser confortável, coisa que acontece mais vezes do que os folhetos turísticos admitem. Para quem prefere alojamento rural fora do núcleo urbano, com mais silêncio e menos gente a passar à porta, o Monte da Bemposta fica a curta distância de carro, o que obriga a um pequeno ajuste: aí, o caminhar acontece na paisagem envolvente, não na vila propriamente dita.
Rumo ao mar: da vila até à Praia Grande
A caminhada mais óbvia, e a mais gratificante, é a que liga o centro à Praia Grande de Porto Covo. Dez minutos a pé desde o largo, por ruas em ligeira descida, e chega-se a uma baía protegida por rochas escuras que quebram a ondulação, o que torna esta praia mais segura para banhos do que a maioria da costa vicentina, sempre traiçoeira em zonas expostas. Em agosto enche, mas nunca ao ponto de Vila Nova de Milfontes nos dias de pico. Se o objetivo for mesmo fugir à multidão nesse mês, vale a pena olhar para o que se escreveu sobre Vila Nova de Milfontes em agosto, porque as lógicas de fuga são parecidas: cedo de manhã, ou ao fim da tarde, sempre.
Da Praia Grande, o passeio natural continua para norte, ao longo da falésia baixa, até ao pequeno cais de pescadores. É aqui que se percebe que Porto Covo ainda é, antes de ser destino turístico, uma vila de pesca. Os barcos coloridos amarrados, as redes secas ao sol, os homens mais velhos sentados nos bancos de pedra a olhar para o mar sem pressa nenhuma de ir a lado nenhum: nada disto é encenado para quem visita.
O Trilho dos Pescadores e a vista para a Ilha do Pessegueiro
Quem quiser esticar a caminhada para lá do centro tem, mesmo à porta de Porto Covo, o início de um dos troços mais bonitos da Rota Vicentina. O percurso conhecido como Trilho dos Pescadores segue rente à falésia, sem sombra, sem apoios, e por isso exige água, chapéu e respeito pelo vento, que aqui pode ser brutal mesmo em dias de sol. A recompensa é uma vista contínua sobre a Ilha do Pessegueiro, com as suas ruínas de forte, e sobre um litoral que alterna entre praias de areia e línguas de rocha escura mordidas pelo Atlântico.
Para quem quiser ir mais longe do que os pés permitem, existe a alternativa de mar: um pequeno barco que faz a travessia até à própria Ilha do Pessegueiro, com toda a logística e horários explicados neste guia sobre o barco para a Ilha do Pessegueiro. Vale a pena combinar as duas coisas num único dia: caminhar de manhã pela falésia, atravessar de barco à tarde quando a maré e o vento normalmente acalmam.
O que levar e quando ir
- Água em quantidade, mesmo para caminhadas curtas: não há fontes nem sombra na falésia.
- Corta-vento, mesmo em pleno verão. O vento de norte não avisa.
- Calçado fechado para o Trilho dos Pescadores, o piso é irregular em vários troços.
- Início da manhã ou fim de tarde para caminhar em julho e agosto, quando o sol do meio-dia na falésia é implacável.
Comer depois de andar
Depois de uma manhã a pé, Porto Covo não é o sítio para grandes ambições gastronómicas, e está tudo bem assim. As tascas junto ao largo servem peixe grelhado simples e bem feito, e vale sempre a pena perguntar o que chegou naquele dia em vez de escolher da ementa às cegas. Para quem quer mesmo entender a cultura do marisco desta zona da costa, dos percebes às ostras que hoje se cultivam no estuário do Mira, o panorama está bem explicado neste guia sobre marisco em Odemira, concelho a que Porto Covo pertence. Não é preciso sair da vila para comer bem, mas perceber o contexto ajuda a escolher melhor o que pedir.
Fora da época alta: outra vila
Quem visita Porto Covo só em agosto vê uma vila cheia, animada, um pouco turística de mais nas horas de praia. Quem a visita em maio, ou em outubro, encontra outra coisa: as ruas vazias às dez da manhã, o cais só com pescadores, o vento a assobiar entre as casas caiadas sem ninguém a fotografar. É nessa época baixa que caminhar em Porto Covo se torna mais recompensador, porque a vila deixa de competir por atenção e simplesmente existe. A lógica é a mesma que se aplica um pouco mais a sul, em torno da Zambujeira do Mar, onde a época baixa transforma completamente a experiência de quem procura falésias sem multidão, como se explica neste artigo sobre a Zambujeira do Mar fora de época.
Um roteiro a pé de meio dia
Para quem tem só uma manhã, este é um roteiro que funciona: começar no Largo Marquês de Pombal com um café, descer até à Praia Grande, seguir pela falésia até ao início do Trilho dos Pescadores, caminhar até onde o corpo aguentar em direção à Ilha do Pessegueiro e voltar pelo mesmo caminho, ou pelo cais de pescadores, que oferece uma perspetiva diferente da vila ao regressar. São, no total, entre cinco e oito quilómetros, dependendo de quão longe se vai no trilho, tudo sem carro, tudo em terreno que qualquer pessoa com sapatos decentes consegue fazer.
Porto Covo não impressiona por grandiosidade. Impressiona por ser exatamente do tamanho certo para se andar toda a pé, num dia, sem pressa e sem GPS, e por continuar a parecer, apesar de tudo, uma vila de pescadores que por acaso também recebe visitantes, e não o contrário.