Montalegre à Noite: A Sexta-Feira 13 das Bruxas
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Montalegre à Noite: A Sexta-Feira 13 das Bruxas

· · Montalegre

Uma vez por ano, quando o calendário deixa cair uma sexta no dia 13, Montalegre enche-se de capas pretas e aguardente a arder junto ao castelo. Eis como viver a Noite das Bruxas sem apanhar frio a mais nem ficar sem cama.

Há uma coisa que toda a gente esquece de dizer sobre Montalegre: nas noites normais, fecha cedo. Às dez da noite, num dia qualquer de fevereiro, a Rua Direita está vazia, o vento do planalto barrosão entra pela gola do casaco e os únicos sinais de vida são as janelas iluminadas de quem janta sopa de couve com feijão. É uma vila de 900 e tal metros de altitude que leva o frio a sério e não pede desculpa por isso.

E depois há aquela noite. Uma vez por ano, às vezes duas, quando o calendário deixa cair uma sexta-feira no dia 13, Montalegre transforma-se na capital portuguesa da bruxaria. Não é metáfora de folheto turístico. É gente a sério, de capa preta e chapéu de bico, milhares de pessoas a encher uma vila que nos outros 360 dias do ano caberia confortavelmente num largo. Se quer perceber o que torna o interior de Trás-os-Montes diferente de tudo o resto, é aqui que tem de estar.

Porque é que Montalegre faz isto

A tradição não é antiga no sentido medieval que se imagina. A Sexta-Feira 13 como evento organizado nasceu nos anos 90, e tem um responsável com nome e morada: o farmacêutico local que começou a vender ervas, mezinhas e licores de bruxa numa terra onde a medicina popular nunca foi propriamente uma curiosidade de museu, mas uma prática viva. O que era uma brincadeira de aldeia cresceu até virar o cartaz que enche os hotéis de Chaves e de Braga em noites em que, lá fora, faz cinco graus.

O que ajuda é que o cenário já estava montado pela natureza e pela história. Montalegre tem um castelo do século XIII no ponto mais alto da vila, com uma torre de menagem que se vê de quilómetros. À noite, iluminado, em cima do granito, com a serra do Larouco por trás e a neblina a subir do vale, não precisa de efeitos especiais. O Barroso é uma das regiões mais isoladas do país, reconhecida pela FAO como Património Agrícola Mundial, e tem essa qualidade de lugar onde as histórias de lobisomens e de mulheres que curavam com ervas nunca foram completamente piada. Aqui as bruxas têm endereço.

O que acontece na noite

A coisa não é uma feira de artesanato com bruxas de plástico. Há um programa, e vale a pena chegar a horas. O momento alto é a queima, ao ar livre, junto ao castelo, com a leitura do conjuro e a preparação da queimada: aguardente a arder em caldeirão, com casca de limão, açúcar e café, ao som de palavras que prometem afastar os maus espíritos. Distribui-se a quem está por perto, em copos pequenos, e bebe-se quente. É um ritual de origem galega que aqui pegou com força, e por uma boa razão: numa noite de inverno transmontano, aguardente a arder é a coisa mais sensata que alguém lhe vai oferecer.

Há cortejo, há fogo de artifício, há música, e há sobretudo gente a levar isto a sério, com fatos trabalhados, sem aquele ar de festa de Halloween importada. Para perceber a estrutura da noite, os horários e como funciona a parte ritual sem se sentir um turista perdido, vale a pena ler primeiro o guia da experiência da Noite das Bruxas no Barroso, que explica o que esperar de cada momento.

Quando ir, e o aviso importante

As datas dependem do calendário: só há Sexta-Feira 13 quando há Sexta-Feira 13, ou seja, uma a três vezes por ano, e a de inverno é a mais intensa. Confirme localmente a programação antes de marcar viagem, porque muda de ano para ano. O aviso prático é simples e teimo nele: a vila enche. Estacionar é uma guerra, as ruas fecham, e quem chega às nove da noite à procura de jantar vai jantar mal e tarde. Chegue de tarde, coma cedo, e prepare-se para frio a sério. Casaco, gorro, luvas. Isto não é uma sugestão estética.

Onde dormir, e porque não deve voltar a conduzir nessa noite

Aqui está a parte que separa quem planeia de quem improvisa. Depois da queimada, com as estradas do planalto a escurecer e a possibilidade real de nevoeiro ou gelo, não é noite para fazer uma hora de carro de volta. Fica na zona. As camas esgotam cedo nas Sextas-Feiras 13, por isso reserve com semanas de antecedência. Opções como o Hostel Retiro do Gerês servem bem quem quer base económica e perto, sobretudo se está a combinar Montalegre com a fronteira do Gerês. Se a primeira estiver cheia, vale tentar a segunda unidade do mesmo hostel, que costuma ter disponibilidade quando a outra fecha.

A vantagem de ficar é dupla: bebe a queimada como deve ser, sem motorista a olhar para o relógio, e acorda no planalto. E o planalto de manhã, com a geada a fumegar nos lameiros e o castelo recortado contra um céu lavado, é tão bom quanto a noite. Quem leva máquina fotográfica devia organizar a viagem à volta dessa luz: o itinerário fotográfico de inverno pelo planalto marca os sítios e as horas certas para apanhar a serra antes de o nevoeiro fechar.

O que comer (e o que não pode falhar)

Montalegre é, antes de bruxas, um dos melhores sítios de Portugal para comer carne. A carne barrosã, raça autóctone com Denominação de Origem Protegida, é das melhores do país, e uma posta grelhada bem feita, com sal grosso e pouco mais, é uma lição de que não é preciso complicar. Peça-a mal passada por dentro; quem a faz bem-passada não merece a confiança.

Depois há o fumeiro, que no Barroso é assunto sério ao ponto de ter feira própria no inverno. Alheiras, salpicões, chouriças, presunto: tudo fumado lentamente em fumeiros de aldeia, com madeira e tempo. Se está em Montalegre na época do frio, peça uma tábua de fumeiro para começar e divida-a, porque é generosa. Para acompanhar a carne, batata cozida, grelos, e um tinto da região, robusto, sem pretensões.

  • Para entrar: tábua de fumeiro do Barroso, alheira incluída.
  • Prato principal: posta de carne barrosã grelhada, no ponto.
  • No inverno: sopas de couve e feijão, cozido quando houver.
  • Para fechar a noite: a queimada, e um licor de ervas da casa.

Não vou inventar nomes de restaurantes nem horários que não posso confirmar. O que digo é: pergunte na rua, fuja do que parecer montado para autocarros, e confie nas casas cheias de gente da terra a falar alto. No interior, a sala cheia de locais é o melhor sistema de classificação que existe.

Como chegar

Montalegre não está no caminho de nada, e essa é metade da graça. De Braga ou do Porto, faz-se pela A7 e depois pelo interior, com a última parte da viagem a subir para o planalto. De Chaves fica perto, cerca de meia hora, e Chaves é uma boa base alternativa se Montalegre esgotar. No inverno, leve a sério as condições da estrada: gelo e nevoeiro são frequentes acima dos 800 metros, e a noite cai cedo. Pneus em condições, depósito cheio, e nada de pressas na descida.

De transportes públicos, é difícil. Há ligações de autocarro, mas pouco frequentes e nada compatíveis com a vida noturna de uma Sexta-Feira 13. Para esta viagem, carro é praticamente obrigatório, e mais uma razão para dormir na zona e não conduzir depois da queimada.

E se não calhar uma Sexta-Feira 13

Aqui está a boa notícia: Montalegre vale a viagem mesmo sem bruxas. O castelo está aberto, o Ecomuseu do Barroso conta a história desta paisagem agrícola única, e a vila tem aquele ritmo lento que se agradece depois da cidade. Quem quiser perceber a região para lá da festa devia ler o guia de Montalegre fora do Barroso, com o castelo, os castros e a cozinha de montanha, que junta o melhor da história e da mesa num só roteiro.

No verão, a paisagem muda completamente. As barragens do alto Rabagão transformam o planalto numa rede de espelhos de água entre o granito, e dá para passar a manhã num caiaque sem ver mais ninguém. O passeio de kayak no Alto Rabagão é a melhor maneira de ver o avesso desta serra, com a água parada e o silêncio só interrompido pela pá a entrar na água. E para quem está a montar um itinerário maior pelo planalto transmontano, com os miradouros do leste a entrar na conversa, o roteiro de Mogadouro ao pôr do sol mostra como a luz de junho funciona do outro lado da região.

O veredicto

A Sexta-Feira 13 de Montalegre podia ter sido uma armadilha para turistas, uma festa de plástico com bruxas de saldos. Não é. Funciona porque assenta numa terra que ainda acredita o suficiente nas suas próprias histórias para as contar de cara séria, e porque o cenário, o castelo, o frio, o granito, a aguardente a arder, faz o resto sem precisar de fingir. Vá com expectativas calibradas: vai estar muito frio, vai haver muita gente, e vai dormir numa cama reservada com antecedência. Faça isso bem, e leva para casa uma das noites mais estranhas e memoráveis que Portugal tem para dar.

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