Montalegre: Cabrito Assado e o Trilho da Carne no Barroso
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Montalegre: Cabrito Assado e o Trilho da Carne no Barroso

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Em Montalegre, o cabrito assado só aparece a sério ao fim de semana, e saber isso é meio caminho andado para comer bem. Do forno de lenha do Cafe Petiscos Rampa às aldeias comunitárias do Barroso, esta é a rota de carne que vale a pena planear com antecedência.

Há uma pergunta que se ouve às sextas-feiras ao fim da tarde nos cafés de Montalegre, entre quem chega da serra e quem vem só almoçar: "hoje há cabrito?" Não é retórica. Nesta parte de Trás-os-Montes, o cabrito assado no forno de lenha não é prato de menu todos os dias, é antes um acontecimento de fim de semana, e saber onde e quando aparece já é meio caminho andado para comer bem.

Montalegre fica no centro do planalto do Barroso, uma região de pastagens comunitárias, os chamados baldios, que a FAO reconheceu como Sistema Importante do Património Agrícola Mundial. É o mesmo sistema de baldios que sustenta a criação da vaca barrosã e, com ela, toda uma cultura de carne que se estende ao cabrito criado nos montes à volta da vila, hoje protegido pela denominação de origem Cabrito Transmontano. Não é um animal criado à pressa: nasce em Novembro ou Dezembro, mama leite da mãe durante meses, e é abatido ainda jovem, o que explica a carne macia que sai do forno. Não é fast food, é um calendário.

O ponto de partida: Cafe Petiscos Rampa

Se só tiver uma refeição em Montalegre, faça-a valer a pena no Cafe Petiscos Rampa. É o tipo de casa que não precisa de decoração a fingir tradição, porque a tradição está no prato: cabrito assado no forno, batata a murro, arroz de forno como acompanhamento, e uma pinga de vinho tinto ou verde da região que ninguém vai cobrar caro por servir. Não é alta cozinha e não finge ser. É comida feita por gente que aprendeu a assá-la com quem veio antes, e é exactamente por isso que funciona tão bem.

Peça o cabrito assado sem perguntar mais nada, é a razão de estar ali. Se calhar na época certa, aceite o acompanhamento de castanhas assadas ou grelos salteados, que no Outono e no Inverno aparecem nas mesas ao lado da carne quase por hábito. Uma refeição completa com vinho da casa costuma rondar os 12 a 15 euros por pessoa, o que, para quem chega de um restaurante em Lisboa ou no Porto, parece quase um erro de conta. Vá ao almoço de sábado ou domingo se conseguir: a casa enche com gente da terra, famílias inteiras à mesa, e isso, mais do que qualquer crítica gastronómica, é o melhor sinal de que a comida presta.

Uma nota prática que vale ouro: ligue antes, sobretudo em fim de semana de Inverno. Um forno de lenha não produz em série, e quando o cabrito do dia acaba, acaba mesmo. Chegar às três da tarde a torcer por sorte é o erro mais comum de quem vem de fora.

Fora da Rampa: o resto da rota de carne

Montalegre não vive só de um endereço. Pela vila e pelas aldeias em redor, os talhos vendem chouriça, alheira e presunto fumados em fumeiros de pedra que ainda funcionam como há um século, e nos meses de Inverno é normal encontrar famílias a abater e a fumar carne suficiente para o ano inteiro. Aldeias comunitárias como Pitões das Júnias, Tourém ou Meixide, todas no concelho de Montalegre, são onde essa lógica de baldio e fumeiro ainda segue as regras antigas, longe de qualquer coisa parecida com turismo gastronómico organizado. Não vai encontrar isto num menu com preços fixos, é economia de aldeia. Mas se perguntar num café ou numa mercearia local onde comprar fumeiro fresco, alguém vai apontar a casa certa, e é esse género de informação que não se pesquisa online, só se pergunta.

Trabalhar o apetite antes de comer

O cabrito assado sabe melhor a quem chegou cansado. A caminhada pelos trilhos do património agrícola do Barroso passa por lameiros, socalcos e aldeias de xisto e granito que explicam, sem precisar de placa informativa nenhuma, porque é que esta terra produz a carne que produz: são pastagens comunitárias geridas há séculos pela mesma lógica, gado a pastar em terreno partilhado, erva que cresce forte porque a água nunca falta nesta parte do planalto. Depois de três ou quatro horas a subir e a descer entre aldeias, chegar à Rampa com fome a sério muda completamente a experiência da refeição. O cabrito deixa de ser curiosidade regional e passa a ser, simplesmente, a coisa mais lógica do mundo para comer.

Se o dia render tempo, feche-o ao contrário do que começou. Depois do jantar, sem luz nenhuma nas aldeias à volta de Montalegre, o céu do planalto está entre os mais escuros de Portugal continental. A experiência de observação de estrelas nas noites de céu escuro do Barroso não tem nada a ver com comida, mas é o complemento óbvio a um dia gasto a caminhar e a comer bem: barriga cheia, sem pressa nenhuma, deitado numa cadeira a olhar para cima até esquecer que amanhã há que voltar à estrada.

Onde dormir depois do cabrito

Depois de um jantar destes, ninguém tem vontade de conduzir de volta para Braga ou para o Porto. O Hostel Retiro do Gerês resolve isso sem drama: é simples, fica perto do centro da vila, e serve perfeitamente de base para quem veio à procura de cabrito e ficou pela caminhada e pelas estrelas. Não é um hotel de charme com pretensões arquitectónicas, é uma cama confortável e um pequeno-almoço decente antes de voltar para a estrada, o que, depois de uma noite destas, é exactamente tudo o que se precisa.

Quando ir

O cabrito assado aparece durante o ano todo, mas ganha outro significado no Inverno, quando o planalto do Barroso amanhece com geada e a carne assada no forno de lenha deixa de ser boa ideia para passar a ser a única ideia que faz sentido depois de um dia de frio lá fora. Quem quiser combinar a rota da carne com a paisagem de Inverno mais dramática da região tem no itinerário fotográfico de Montalegre no Inverno um roteiro pronto a seguir, com os pontos onde o planalto mostra a cara mais dura e mais bonita ao mesmo tempo, e onde uma refeição quente a seguir a horas de frio ganha outro significado.

Para quem gosta de comparar culturas de fumeiro dentro de Trás-os-Montes, vale a pena ler também sobre o fumeiro e o silêncio de Vinhais, uma vila a uma boa distância de carro mas que partilha com Montalegre a mesma devoção à carne fumada e ao forno de lenha, ainda que com sotaque próprio e outra relação com a paisagem.

Além da carne

Seria injusto reduzir Montalegre a um prato, por melhor que seja. A vila tem castelo medieval, tem o planalto e tem uma cozinha de montanha que vai muito além do cabrito, do fumeiro à posta e às sopas de forno que aparecem nos dias mais frios. Quem quiser perceber a vila para lá da rota gastronómica encontra no guia Montalegre Fora do Barroso: Castelo, Castro e Cozinha de Montanha o resto da história, castro incluído.

Como chegar e organizar o dia

Montalegre fica a cerca de uma hora e meia de Braga e perto de duas horas do Porto, a maior parte da viagem em estrada nacional pelo interior de Trás-os-Montes, o que já é meio caminho andado para perceber a paisagem antes de chegar. Não há comboio, a viagem faz-se de carro ou de carreira, e vale a pena planear a chegada para o início da tarde de sexta ou para um sábado, que é quando a Rampa e as outras casas da vila costumam ter cabrito garantido. Quem vier de carro tem ainda a vantagem de poder esticar o dia até às aldeias comunitárias mais próximas antes de voltar para jantar.

  • Melhor altura: fins de semana, sobretudo de Outono a Inverno
  • O que pedir: cabrito assado no forno, com batata a murro
  • Custo aproximado: 12 a 15 euros por pessoa, com vinho da casa
  • Como chegar: carro próprio ou carreira, cerca de 1h30 desde Braga
  • Onde dormir: Hostel Retiro do Gerês, no centro da vila
  • Antes de ir: ligue com antecedência para garantir cabrito, sobretudo ao fim de semana

No fim, a rota da carne em Montalegre não é sobre encontrar o melhor cabrito de Portugal. É sobre perceber porque é que esta terra ainda cozinha assim, devagar, com lenha e paciência, num tempo em que quase mais ninguém tem os dois.

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