Sexta 13 em Montalegre: O Que é Real, O Que é Encenação
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Sexta 13 em Montalegre: O Que é Real, O Que é Encenação

· · Montalegre

Aos 1000 metros de altitude e com 30 mil pessoas no castelo, a Sexta-Feira 13 em Montalegre é metade folclore documentado, metade marketing territorial inventado em 2002. Eis como distinguir o original da cópia, e por que é que a edição de inverno vale infinitamente mais do que a de verão.

Há uma coisa que ninguém te diz sobre a Sexta-Feira 13 em Montalegre: a maior parte das pessoas que enche a praça do castelo nunca leu uma linha sobre as bruxas do Barroso antes de comprar a viagem. Vêm pelo espectáculo. Vão embora a discutir se aquilo era folclore reciclado para turismo ou se, lá no fundo, ainda há gente que acredita. A resposta honesta é: as duas coisas, ao mesmo tempo, e é precisamente isso que torna a noite interessante.

Eu já lá fui três vezes. A primeira por curiosidade jornalística, a segunda porque um amigo de Chaves insistiu, a terceira porque queria perceber o que mudava com a chuva. E mudou tudo. Quando o nevoeiro desce sobre o planalto às sete da tarde e a temperatura cai para os quatro graus, o castelo deixa de parecer cenário e começa a parecer aquilo que sempre foi: uma fortaleza medieval onde, durante séculos, se julgaram pessoas por feitiçaria a sério. Há atas de inquisição. Há nomes. Há mulheres que foram queimadas vivas. Isso não é encenação.

O contexto histórico que a Câmara não publicita

Montalegre tem 10 mil habitantes no concelho inteiro e fica a 1000 metros de altitude, encostada à fronteira espanhola, no extremo norte de Trás-os-Montes. É uma das zonas mais isoladas de Portugal continental. Até aos anos 80, muitas aldeias do Barroso não tinham estrada alcatroada. Esta combinação, isolamento, frio extremo, catolicismo rural intenso, criou um terreno fértil para crenças que noutros sítios já tinham desaparecido.

O que a Câmara vende como festival é, originalmente, uma reciclagem inteligente de tradições orais documentadas pelo etnógrafo Jorge Lameiras na década de 90. As lobisomens, as bruxas que entravam pela chaminé, os feitiços para curar gado: tudo isto era conversa de inverno em frente à lareira até há trinta anos. Há gravações áudio. Há livros. Não foi inventado para vender hotéis.

O que é encenação é o resto: o desfile, as fogueiras coreografadas, os atores com capuzes, a missa negra teatral no adro do castelo. Foi tudo construído a partir de 2002, quando o presidente da Câmara, Orlando Alves, percebeu que tinha uma marca em mãos. A primeira edição teve 500 pessoas. A última que assisti tinha cerca de 30 mil. É um dos casos de marketing territorial mais bem-sucedidos do interior português, e ninguém em Lisboa sabe.

Quando ir, e quando não ir

O festival acontece em todas as Sextas-Feiras 13 do calendário, o que significa que pode haver uma, duas ou três por ano. As datas variam: nalguns anos é em janeiro, noutros em junho, outubro ou novembro. A regra que aprendi à minha custa: as edições de inverno são infinitamente melhores. Em junho ou agosto, a praça enche-se de famílias com crianças, há barraquinhas de farturas, e o ambiente aproxima-se mais de uma feira de São João do que de uma noite de bruxas.

As edições de janeiro, fevereiro ou novembro têm outra coisa. Está frio a sério, chove obliquamente, o público é mais pequeno e mais comprometido. Vê-se gente do Porto e de Madrid, mas também muita gente da região, com botas enlameadas, que vem porque sim, porque é tradição. Se podes escolher, vai numa edição de inverno. Para perceber o que estás a ver, lê primeiro o nosso roteiro sobre a noite das bruxas no Barroso, que explica a sequência da programação e os pontos onde vale a pena estar a horas concretas.

O programa, descodificado

A programação oficial começa por volta das 18h00 com música ao vivo na praça do município. Ignora isso. Aparece por volta das 20h30, quando começa o desfile que sobe da Câmara até ao castelo. É o momento mais fotogénico, mas também o mais cheio. Se quiseres uma boa posição, sobe ao castelo às 19h30 e fica junto à muralha sul. Apanhas o desfile a chegar e tens vista para o vale do Cávado por trás.

A meia-noite é o momento da chamada queima da bruxa, que na prática é uma encenação curta com fogo controlado. Dura quinze minutos. Honestamente: vista uma vez, chega. Não vale a pena ficar até às duas da manhã com frio para ver o mesmo no ano seguinte.

Onde dormir, sem ilusões

Aqui está o problema prático que ninguém antecipa: Montalegre tem capacidade hoteleira para umas 200 pessoas. Nas noites de Sexta 13, ficam 30 mil. A matemática é cruel. Os dois ou três hotéis da vila esgotam com seis meses de antecedência, e os preços triplicam. Reservar uma semana antes é impossível.

A solução que recomendo é ficar em Gerês ou na fronteira do Parque Nacional, a cerca de 40 minutos de carro. O Hostel Retiro do Gerês é a opção que uso quando viajo sozinho ou com um amigo: cama em dormitório por preço civilizado, pequeno-almoço incluído, e a localização permite combinar a noite das bruxas com um dia de caminhada no Gerês na manhã seguinte. Os donos sabem da Sexta 13 e estão habituados a hóspedes que chegam às duas da manhã com cheiro a fumo nas roupas.

Se vais de carro, deixa-o no parque do Estádio Municipal e sobe a pé. Tentar estacionar perto do castelo numa noite de festival é perder uma hora.

O que comer (e o que evitar)

Aqui é onde tenho opiniões fortes. As barraquinhas da praça vendem cachorros e farturas. Ignora. Está-se em Trás-os-Montes, a região com a melhor carne de Portugal, e há restaurantes a 200 metros do castelo que servem coisas a sério.

O que tens mesmo de provar em Montalegre, festival ou não:

  • Carne barrosã DOP: a raça bovina autóctone da região, criada em regime extensivo. Pede-a grelhada, mal passada, com sal grosso. Não a peças bem passada, é um crime contra a vaca e contra ti próprio.
  • Cabrito assado no forno a lenha: prato de domingo da região. Em algumas casas ainda usam forno comunitário.
  • Presunto de Barroso DOP: produzido em altitude, cura lenta, sabor mais seco e menos gordo do que o alentejano. Como entrada, com pão de centeio.
  • Feijoca do Barroso: feijão branco grande, normalmente com chouriço e couve. Comida de inverno, ideal depois de uma noite no castelo.
  • Chouriça doce: parece estranho, sabe melhor do que parece. Mel, pão e chouriço cozido juntos.

O que evitar: qualquer coisa que diga "prato de bruxa" ou "jantar especial Sexta 13". É menu turístico inflacionado. Pede o que está na carta normal e paga metade.

Para além do festival: a Montalegre que fica depois

O erro de quem vem só pela noite das bruxas é ir embora no sábado de manhã. Montalegre vale uma estadia de dois ou três dias, e a maior parte do que tem de melhor não tem nada a ver com bruxaria.

O castelo medieval que serve de cenário ao festival está aberto durante o dia e tem uma das melhores vistas do norte de Portugal. Pago, mas barato, à volta de três euros. Sobe à torre de menagem antes das dez da manhã, antes dos autocarros chegarem. A leitura completa do que ver no concelho está no nosso guia para conhecer Montalegre para além da fronteira do Barroso, que mapeia os sítios pelos quais vale a pena conduzir uma hora extra.

Se a tua visita coincidir com tempo seco, há uma coisa que poucos sabem: a barragem do Alto Rabagão, a 15 minutos do centro, é uma das melhores massas de água navegáveis do norte. Andar de kayak no Alto Rabagão de manhã, com o nevoeiro ainda agarrado às margens, é uma experiência que justifica por si só a viagem. Há aluguer de equipamento na zona da barragem, e a água é fria mesmo em julho. Leva camisola.

Para quem gosta de fotografia, recomendo dedicar uma manhã às aldeias de Pitões das Júnias e Tourém, com os seus fornos comunitários e telhados de colmo. O nosso itinerário fotográfico no planalto tem as horas certas para a luz e os miradouros menos batidos.

Uma nota sobre o resto do planalto transmontano

Se vens de longe, faz sentido combinar Montalegre com outras paragens em Trás-os-Montes. Mogadouro, do outro lado do Tua, é uma das vilas mais subestimadas do interior, e o nosso roteiro sobre os miradouros de Mogadouro ao pôr do sol dá ideias para um segundo ou terceiro dia. A logística não é trivial, fica a duas horas e meia de carro de Montalegre, mas se já fizeste 400 quilómetros desde Lisboa, mais 200 não te assustam.

Então afinal: real ou encenado?

A pergunta com que abri este texto merece uma resposta honesta, agora que te dei o contexto.

O festival como espetáculo público é encenação, sim. Foi criado em 2002, é coreografado, tem patrocinadores, e os atores que vês com capuzes pretos são vizinhos que durante o dia trabalham na Câmara ou nos restaurantes. O fogo é controlado, a missa negra é teatro, e a maior parte da iconografia visual é uma colagem inteligente de elementos pagãos europeus genéricos.

Mas as histórias por trás são reais. As bruxas do Barroso existiram no imaginário popular durante séculos. Os processos da Inquisição contra mulheres acusadas de feitiçaria nesta região estão arquivados em Lisboa, podes consultá-los. As crenças em lobisomens, em mau-olhado, em mezinhas, eram correntes na geração dos meus avós, e ainda há quem acredite, embora cada vez menos e cada vez mais discretamente.

A melhor maneira de viver a Sexta 13 é, portanto, com esta dupla consciência: aceitar o espectáculo como espectáculo, e ao mesmo tempo perceber que estás numa terra onde estas histórias eram mortais. Quando subires ao castelo à meia-noite, olha por cima da muralha para o escuro do planalto. Ali, a 30 quilómetros, há aldeias onde as luzes se apagam às nove e meia da noite e onde, há cinquenta anos, ainda se contavam as histórias que a Câmara hoje vende em cartaz. É essa tensão, entre o original e a cópia, entre a crença e a representação, que faz com que valha a pena fazer a viagem. E sim, vale a pena.

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