Montalegre no Inverno: Itinerário Fotográfico no Planalto
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Montalegre no Inverno: Itinerário Fotográfico no Planalto

· · Montalegre

Há uma janela de 30 minutos em Montalegre, entre as 7h45 e as 8h15 de uma manhã de janeiro, em que o castelo do século XIII flutua sobre o nevoeiro do Cávado. Este é um itinerário fotográfico de três dias para fotógrafos teimosos, com horários reais, custos honestos e zero romantismo.

Há uma hora muito específica em Montalegre, entre as 7h45 e as 8h15 de uma manhã de janeiro, em que o nevoeiro que sobe do Cávado encontra a luz baixa e o castelo do século XIII flutua sobre o nada. Não é metáfora: é física. O ar a 1.000 metros, a humidade dos rios, a temperatura negativa. Se chegar 20 minutos depois, o sol queima a bruma e a fotografia desaparece. Por isso este artigo começa com um aviso prático: ponha o despertador às 6h30, vista duas camadas a mais do que pensa precisar, e leve uma máquina com bateria carregada, porque o frio do Barroso devora pilhas com a mesma eficiência com que devora turistas mal preparados.

Escrevo isto depois de quatro invernos a fotografar este planalto e a tomar más decisões em restaurantes, e digo-o sem rodeios: Montalegre no inverno não é para quem quer paisagens postal. É para quem quer luz dramática, neblinas que se movem, vacas barrosãs a respirar fumo, e janelas com cortinados de renda atrás dos quais alguém a aquecer caldo. Se isso lhe interessa, sente-se. Se quer praia, está enganado de país.

Onde dormir, e porquê isso importa para o fotógrafo

A primeira regra: durma perto do castelo. As melhores fotografias do amanhecer fazem-se a três minutos a pé do largo principal, e qualquer carro que tenha de descer da serra ao escuro custa-lhe a luz da hora azul. O Hostel Retiro do Gerês é, na minha opinião, a base mais sensata. É simples, limpo, com aquecimento que funciona (não subestime isto em janeiro), e tem o tipo de hospedeiros que abrem a porta às 6h da manhã sem reclamar. Para quem viaja com tripé e mochila pesada, o facto de poder voltar ao quarto a meio da manhã para descongelar dedos vale o preço.

Se quiser um luxo maior, há casas de turismo rural espalhadas pelas aldeias do Barroso, mas avise: muitas só têm aquecimento a lareira, e fotografar às 7h depois de uma noite mal dormida é uma experiência que não recomendo a ninguém.

Dia 1: Castelo, planalto e a primeira lição de luz

06h45, café no Café Avenida

Comece com um galão e um pastel de nata num dos cafés do centro. Não vou recomendar um específico, porque rodam donos e qualidade, mas qualquer um aberto a esta hora serve homens de fato de trabalho e tem máquina de café decente. Pague em dinheiro, deixe troco, e sente-se ao balcão para ouvir a primeira conversa do dia, que normalmente envolve gado, tempo, e algum primo emigrado em França.

07h30, castelo e miradouro

O castelo de Montalegre não abre tão cedo, mas você não quer entrar: quer rodeá-lo. O melhor ângulo é do lado norte, onde a torre de menagem se recorta contra o vale do Cávado e, com sorte, contra um mar de nevoeiro. Lente 35mm chega bem para a paisagem; se tiver uma 85mm, use-a para isolar a torre contra a bruma.

Pormenor que ninguém lhe diz: a fotografia clássica de Montalegre, com o castelo a flutuar, depende de uma inversão térmica que acontece talvez 12 a 15 dias por inverno. Não é todos os dias. Se acordar e o céu estiver limpo e o vale visível, mude o plano: vá para o planalto, porque a luz rasante sobre as pastagens geladas é igualmente dramática.

10h, planalto do Larouco e currais de pedra

Conduza para norte em direção a Pitões das Júnias e Tourém. A estrada sobe, o asfalto fica raro, e por toda a parte vê currais circulares de pedra seca, cortelhos onde se guardava o gado. Estacione, ande, fotografe. Em janeiro, com geada na erva, esses círculos de pedra parecem fortalezas em miniatura. Lente angular, 24mm ou menos, e ponha sempre algo no primeiro plano: uma pedra, uma poça gelada, uma marca de tractor.

Aviso prático: a estrada para Tourém pode ter neve. Pneus de inverno ou correntes não são obrigatórios, mas em janeiro e fevereiro convém perguntar na bomba de gasolina antes de subir. Não há reboque rápido aqui em cima.

13h, almoço em Pitões das Júnias

Pitões tem três ou quatro restaurantes. Procure aquele que tiver mais carrinhas de matrícula local à porta. Peça vitela barrosã, batata cozida, e um copo de tinto regional, e não peça nada mais. A sobremesa é desnecessária, o café é razoável. Espere gastar entre 18 e 25 euros por pessoa, sem milagres mas com fartura.

Se sobrar luz da tarde, faça o curto trilho até ao mosteiro de Pitões, em ruínas românicas escondidas num vale fundo. A descida é fácil, a subida de regresso fará as pernas reclamarem. Para o fotógrafo, o mosteiro funciona melhor com luz lateral, ou seja, fim da tarde no inverno.

Dia 2: O Barroso humano

Manhã: feiras, padarias, tabernas

O segundo dia é dedicado a fotografar pessoas, o que para mim é sempre a parte mais difícil e a mais interessante. Pergunte na pousada se há feira em alguma aldeia próxima nesse dia. As feiras de Boticas, Salto, ou Vilar de Perdizes acontecem em datas fixas mensais, e são teatros visuais que não se reproduzem em mais lado nenhum: castanhas, fumeiro, chinelos, cães de gado a dormir debaixo das mesas.

Regra de ouro para fotografar em feiras: compre alguma coisa primeiro. Um pão, um queijo, um par de meias. A partir do momento em que é cliente, a câmara é tolerada. Se aparecer com a Leica e o ar de turista artístico, vai levar com olhares e merece-os.

Se quiser aprofundar a leitura cultural deste território antes de viajar, leia o guia sobre o castelo, o castro e a cozinha de montanha que publicámos. Cobre os ângulos históricos que aqui não tenho espaço para desenvolver e poupa-lhe meio dia de pesquisa.

Tarde: Alto Rabagão

A barragem do Alto Rabagão é o cenário mais subestimado da região. Em dias de inverno, com o nível da água baixo, aparecem caminhos de pedra e até casas submersas, e a luz de fim de tarde sobre a água escura é cinematográfica. Conduza até à zona da Venda Nova e siga as indicações. Há vários miradouros não sinalizados; pare onde houver espaço seguro e explore a pé.

No verão, esta é uma zona de desportos aquáticos, e quem quiser experimentar a outra face do Rabagão pode reservar o passeio de kayak entre água e pedra, que recomendo entre maio e setembro. No inverno, a água está fria demais e o vento corta. Fotografe e siga.

Dia 3: Sexta-feira 13, ou a versão mais bizarra de Portugal

Se a sua viagem coincidir com uma sexta-feira 13, mude todos os planos. Montalegre tem uma das celebrações mais estranhas do calendário português: a noite das bruxas, com queimas, conjuros, sopa de bruxa servida na praça, e uma teatralidade que oscila entre o folclore sério e o turismo deliberado. É genuíno e é cenográfico ao mesmo tempo, o que é precisamente o que o torna fotograficamente interessante.

Para o fotógrafo: ISO alto, lentes rápidas (f/1.8 ou melhor), e abandonem o flash. A luz das fogueiras faz tudo. Para os curiosos, o nosso registo da Sexta 13 e da Noite das Bruxas no Barroso explica o programa, os horários e o que esperar de uma noite que mistura caldeirão e selfie.

Extensões: dois dias a mais, dois itinerários a sul

Se tiver mais tempo, e devia ter, considere dois desvios.

Bragança e Montesinho

A duas horas e meia para leste, o Parque Natural de Montesinho é o irmão mais selvagem do Barroso. Lobos, raposas, aldeias quase desabitadas. Para fotógrafos de inverno, é território de paciência e silêncio, exatamente o oposto do espetáculo de Montalegre. O guia sobre Montesinho como refúgio de inverno tem sugestões de aldeias específicas e é um bom complemento a esta viagem.

Chaves e as termas

A uma hora a leste, Chaves oferece o oposto: civilização romana, ponte sobre o Tâmega, e termas que funcionam há dois mil anos. Depois de três dias a fotografar com geada nas mãos, mergulhar em água quente é menos um luxo e mais uma necessidade médica. Reserve um banho e leia o nosso artigo sobre as termas de Chaves e o legado das legiões, que poupa o tempo de adivinhar qual dos balneários vale a pena.

Equipamento e logística, sem romantismo

  • Duas baterias por câmara, mantidas no bolso interior junto ao corpo. O frio mata-as em 40 minutos.
  • Tripé com pés de borracha. Os de metal congelam às mãos.
  • Luvas com pontas removíveis, ou luvas de fotógrafo. Não tente operar uma máquina com luvas de esqui, vai falhar.
  • Lente angular (16-35mm) e teleobjetiva (70-200mm) cobrem 90% do que vai querer. Esqueça macros.
  • Filtro polarizador para o céu de inverno. Filtro ND não é necessário, a luz é fraca.
  • Carro com pneus em condições. Janeiro a março, peça correntes na rent-a-car.
  • Telemóvel não tem rede em metade do planalto. Descarregue mapas offline.

Como chegar e quanto custa

De Lisboa, são cerca de 5 horas de carro pela A1 e A24, com paragem em Vila Real para almoço. Do Porto, 2h30 a 3h pela A4. Não há transporte público útil que sirva o Barroso, esqueça. Aluguer de carro a partir de 30 euros/dia em janeiro, gasolina a contar com 80 a 100 euros para os três dias.

Dormida no Hostel Retiro do Gerês, refeições simples em tasca, café e pequenas extras: um itinerário de três dias custa-lhe entre 250 e 350 euros por pessoa, voos não incluídos. Se quiser duplicar o orçamento em alojamento mais sofisticado, pode, mas não vai fotografar melhor por isso.

O que levar para casa

Não fumeiro caseiro de origem duvidosa, que pode ser confiscado em alguns aeroportos. Compre na loja do produtor com fatura. Queijo de Cabreiro, mel da serra, e uma garrafa de aguardente bagaceira, se gosta. Mais importante: leve duas ou três fotografias de que se orgulhe, não duzentas para o disco rígido morrer em silêncio.

Montalegre no inverno é um exercício de teimosia. Acordar cedo, congelar, esperar pela luz, e às vezes voltar com nada. Mas quando o nevoeiro abre, e o castelo aparece a flutuar, e uma vacca barrosã passa entre você e o sol baixo, percebe porque é que isto compensa. Não é um destino fácil. É um destino honesto.

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