Hostel Retiro do Gerês
Montalegre
Em Fafião, aldeia de cem habitantes a 40 minutos de Montalegre, este hostel familiar oferece quartos com vista de serra, cozinha partilhada e piscina sazonal a preços que envergonham o Gerês do lado de Braga. Base honesta para quem vem ao trilho do fojo do lobo e às poças do Cabril.
Fafião não é Gerês. É um detalhe importante para perceber onde se está a meter ao reservar o Hostel Retiro do Gerês. A aldeia pertence à freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, lado trasmontano do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Quem vem de Braga à espera da vila turística de Caldas do Gerês vai dar uma volta longa de carro, subir a Serra do Gerês ou contornar pela A24 até Montalegre, e descer depois por estradas estreitas até esta aldeia de granito com cerca de cem habitantes. É exatamente esse desvio que torna o sítio interessante.
A morada oficial, Largo da Sobreira do Chão nº1, 5470-017 Montalegre, esconde a realidade prática: o hostel está em Fafião, na Cabril profunda, a uns bons 40 minutos de carro da sede do concelho. Aqui não há multidões de excursões nem o trânsito de São João do Campo. Há vacas barrosãs a passar na estrada, o vedor da aldeia (sistema comunitário de pastoreio que continua vivo) e o famoso fojo do lobo, a armadilha de pedra construída no século XVIII para apanhar lobos ibéricos, hoje a cinco minutos a pé pelo carreiro sinalizado.
Para quem chega sem carro, a coisa complica. Não há transporte público útil até Fafião. A opção realista é apanhar um autocarro Rede Expressos até Montalegre e combinar transfer com o hostel, ou alugar carro no Porto. Confirme diretamente pelo +351 966 406 084, porque a logística destas aldeias muda consoante a época.
O Retiro do Gerês é, na prática, uma casa de aldeia reconvertida em alojamento partilhado. A descrição oficial diz hostel, mas a categoria engana: há quartos privados com vista para a serra, sala comum, cozinha de uso livre e piscina exterior que abre nos meses quentes. O sinal de euro único na nossa categoria de preço não é cosmética. Para quem vem habituado às tarifas do Gerês do lado de Braga, isto custa uma fração.
A cozinha partilhada é um detalhe que faz diferença. Em Fafião não há restaurante a cada esquina. Há um café-tasca ou outro, alguma coisa abre ao almoço se houver gente, e em Cabril (15 minutos de carro) encontra-se mais opção. Quem fizer compras antes de subir, num supermercado em Montalegre ou Braga, agradece. Pão fresco às vezes aparece de manhã na aldeia, mas não conte com isso como plano A.
Encaixa quem vem fazer trilhos, banhos de rio nas poças do Cabril, observação de aves, fotografia, ou simplesmente desligar. Encaixa quem aceita que o sinal de telemóvel oscila e o wi-fi pode ser irregular. Não encaixa quem espera serviço de hotel, pequeno-almoço incluído sem combinar, ou ambiente de festa, isto é uma aldeia de montanha, não um hostel de Lisboa.
Primeiro dia: o trilho do fojo do lobo, curto, sinalizado, parte praticamente da porta do hostel. Tarde no rio Cabril, nas poças naturais a jusante. Em pleno verão a água está fria mas suportável, fora de época é só para corajosos.
Segundo dia: descida a Cabril, atravessar a ponte sobre a albufeira, e seguir até Pitões das Júnias para ver o mosteiro beneditino do século XII e a famosa cascada (caminhada de 30 minutos por trilho fácil). Se calhar coincidir com a Festa de São João em Pitões das Júnias, em finais de Junho, a aldeia transforma-se e vale a pena ficar até à fogueira.
Terceiro dia: subir a Montalegre vila. O castelo, o ecomuseu do Barroso, almoço de cabrito ou posta barrosã num dos restaurantes do centro. Para um itinerário mais completo de descoberta da região, há o nosso guia Montalegre Fora do Barroso: Castelo, Castro e Cozinha de Montanha. Quem vier no inverno, com geada e silêncio, leia antes Montalegre no Inverno: Itinerário Fotográfico no Planalto para perceber a luz e os horários que funcionam.
Há datas em que Fafião e Montalegre ganham outra vida. A noite das bruxas, conhecida como Sexta 13 em Montalegre, sempre que o calendário oferece uma sexta-feira 13, enche a vila de gente, mercados, encenações e fogueiras. Para perceber o que é tradição genuína e o que é produção turística, vale ler Sexta 13 em Montalegre: O Que é Real, O Que é Encenação antes de reservar. Nessas datas o hostel esgota com semanas de antecedência.
Se procura conforto de hotel boutique, vá ao lado de Braga e pague três vezes mais. Se procura uma base barata, honesta, em aldeia real, com piscina no verão e cozinha onde pode improvisar um jantar com o que comprou no mercado de Montalegre, o Retiro do Gerês cumpre. É o tipo de sítio onde se fica três noites em vez de uma e se acaba a falar com o dono sobre lobos, vedores e a estrada que ainda não é asfaltada até ao Tourém. Para muita gente, é exatamente isso que vale o desvio.