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Mogadouro: Onde Comem os Locais, Não os Turistas

Pedro Sousa · · Mogadouro

Em Mogadouro não há menus degustação nem chefs com estrela, há um bar que serve de sala de estar comunitária e um café que não muda a decoração desde os anos oitenta. A verdadeira recomendação nunca está no Google, está na conversa ao balcão do Bacus Bar.

Mogadouro: Onde Comem os Locais, Não os Turistas

Mogadouro não finge ser outra coisa. Não há esplanadas com menus em quatro línguas viradas para nenhum monumento, porque o monumento aqui é a planície: quilómetros de terra plana até à raia espanhola, o vento que nunca para e um planalto que produz mais azeite e amêndoa do que fotografias no Instagram. Quem vem à procura de "comida típica transmontana" empacotada para turista vai ficar desiludido. Quem vem com fome a sério e disposto a perguntar a um local onde é que ele comeu ontem, esse sai satisfeito.

O bar que faz as vezes de tudo

Comece pelo Bacus Bar, que em Mogadouro funciona como ponto de encontro antes de ser propriamente um restaurante. É ali que se resolve o dia: um café rápido às oito da manhã, uma imperial ao fim da tarde, uma refeição informal quando não apetece cozinhar. Não é o sítio para uma posta mirandesa cerimoniosa com toalha branca, é o sítio onde se come bem sem cerimónia nenhuma, e é exatamente isso que torna o Bacus Bar um bom termómetro do que os locais realmente comem no dia a dia: petiscos simples, produto da região, sem storytelling a mais no prato.

Se o objetivo é uma refeição mais estruturada, pergunte ao pessoal do Bacus onde é que a família deles vai num domingo. Em terras pequenas como Mogadouro, a melhor recomendação nunca está no Google, está na conversa ao balcão.

Café Montanha e Via Dupla: os dois polos da noite

À noite, ou ao fim da tarde, Mogadouro divide-se entre dois ambientes distintos. O Café Montanha é o clássico café de província: mesa de fórmica, jornal do dia pendurado, reformados a jogar às cartas, e uma clientela que já ali está há trinta anos e não vê razão para mudar. É o sítio certo para um galão e uma fatia de bolo caseiro a meio da tarde, sem pressa nenhuma, a ver a vida passar na rua principal.

Já o Via Dupla Bar puxa para um público mais jovem, mais barulho, mais cerveja artesanal ou cocktail simples ao fim de semana. Não é raro cruzarem-se ali gerações diferentes da mesma família em noites de sexta-feira, o que diz mais sobre o tamanho de Mogadouro do que qualquer guia turístico: aqui não há assim tantos sítios para escolher, por isso todos acabam por se cruzar nos mesmos dois ou três bares.

O que pedir, na prática

  • Um café curto e uma fatia de bolo caseiro no Café Montanha, a meio da tarde, quando a casa está mais cheia de conversa do que de gente de fora.
  • Uma imperial e petiscos no Bacus Bar antes do jantar, para ver quem entra e quem sai, que costuma ser meio Mogadouro.
  • Uma cerveja ao fim de semana no Via Dupla, se procurar ambiente mais animado sem sair da vila.

Comer é só metade da equação

Em Mogadouro, a comida não se separa da paisagem que a produz. Os enchidos e as carnes que aparecem nos petiscos locais vêm de um território de pastorícia extensiva, o mesmo que sustenta os burros de Miranda que se pode visitar na AEPGA em Atenor, a menos de meia hora de carro da vila. É um programa de manhã que faz sentido antes de um almoço tardio: ver os burros, perceber porque é que esta raça quase desapareceu e o que está a ser feito para a recuperar, e só depois voltar a Mogadouro com fome a sério.

Para quem prefere gastar a energia de outra maneira, o kayak nos Lagos do Sabor é a razão mais óbvia para muita gente vir a Mogadouro pela primeira vez. As albufeiras do Sabor criaram uma paisagem quase mediterrânica em pleno planalto transmontano, e depois de remar durante duas ou três horas, qualquer petisco no Bacus Bar sabe a mais.

Onde dormir depois de comer bem

Mogadouro não é ponto de passagem rápida, é sítio para ficar pelo menos uma noite, e há duas opções que resolvem bem isso sem se parecerem nada uma com a outra. A Casa do Gi tem aquele ar de casa de família recuperada com cuidado, boa para quem viaja em grupo ou quer cozinha própria à disposição depois de um dia de kayak. Já a Casa das Águas Férreas aposta mais no isolamento e na paisagem, ideal para quem veio mesmo para desligar e não quer ouvir mais nada além do vento no planalto.

Nenhuma das duas fica a mais de dez minutos do centro, o que em Mogadouro quer dizer dez minutos do Bacus Bar, do Café Montanha e do Via Dupla. A vila é pequena o suficiente para se andar tudo a pé depois do jantar.

Quando vir e o que levar na bagagem

O planalto mirandês tem invernos secos e duros, e verões de calor seco que só quem já lá esteve consegue explicar bem. Se o plano é apanhar o pôr do sol nos miradouros da região, junho costuma ser a altura certa, como se explica em detalhe no guia Mogadouro ao Pôr do Sol: Miradouros para Junho no Planalto. As noites ainda estão frescas, os dias já estão longos, e a luz rasante sobre a planície transforma qualquer refeição ao fim do dia numa espécie de recompensa depois de horas ao ar livre.

Para quem quiser esticar a viagem até outras zonas de Trás-os-Montes, vale a pena olhar também para Montalegre, mais a norte: o guia Montalegre Fora do Barroso fala de cozinha de montanha que tem mais em comum com Mogadouro do que a distância no mapa sugere, e o itinerário de Montalegre no Inverno serve de referência para quem prefere planear a viagem nos meses frios, quando o planalto transmontano tem uma luz completamente diferente.

O essencial, sem inventar nada

Não há aqui menu degustação nem chef com estrela. Há um bar que serve de sala de estar comunitária, um café que não mudou a decoração desde os anos oitenta e um bar mais jovem que dá para a rua principal. Há duas casas para dormir que não têm nada em comum a não ser a boa vontade de quem as gere. E há, à volta de tudo isto, burros de Miranda, lagos artificiais bons para remar e um planalto que em junho fica dourado ao fim da tarde.

Confirme sempre horários e disponibilidade localmente antes de viajar, sobretudo fora da época alta, quando muitos estabelecimentos pequenos ajustam o horário à procura real em vez de manterem um horário fixo o ano inteiro. Mas se há uma regra que funciona sempre em Mogadouro: pergunte ao dono do café onde é que ele almoça, e vá atrás dessa resposta antes de qualquer recomendação de guia, incluindo este.

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