Via Dupla Bar
Mogadouro
No Largo Duarte Pacheco, o Café Montanha abre às nove da manhã e fecha às duas da madrugada, de terça a domingo. É o café de praça que aguenta dezassete horas por dia, e em Mogadouro isso é precisamente o que se procura.
O Largo Duarte Pacheco é o coração administrativo de Mogadouro: a Câmara fica ali ao lado, a igreja matriz a uns passos, e quem vem de Bragança ou de Miranda do Douro acaba sempre por atravessar este largo antes de saber para onde vai. O Café Montanha está exactamente onde tem de estar, na esquina certa para apanhar o sol da manhã e a sombra da tarde. Não é por acaso que os reformados ocupam as mesas da esplanada às dez e meia e os miúdos do liceu chegam à uma. É o ritmo da praça, e o Montanha limita-se a acompanhá-lo.
O Montanha abre às nove da manhã e fecha às duas da madrugada, de terça a domingo. Segunda é dia de descanso, e convém saber isso antes de chegar a Mogadouro a contar com um galão. Esta amplitude horária explica a personalidade do sítio: de manhã é café de bairro, com torradas, pastéis e o jornal partilhado entre quem está nas mesas; à tarde funciona como ponto de encontro; à noite transforma-se em bar, com cerveja, gin e, em algumas noites, música ao vivo na esplanada. Não é uma casa de espectáculos, é um café que de vez em quando recebe um músico, e essa diferença é importante.
O preço é o que se espera de um café de interior transmontano: simbólico. Um café fica abaixo do euro, uma imperial à volta dos dois, e mesmo as ginjas e os licores caseiros não chegam ao valor de uma cerveja em Lisboa. Levem dinheiro vivo. Muitos cafés deste tipo aceitam multibanco, mas em Mogadouro não vale a pena confiar: confirme directamente quando pedir a conta.
Mogadouro é o concelho mais a norte do Planalto Mirandês, a meio caminho entre Bragança e Miranda do Douro. De carro, vem-se pela A4 até Macedo de Cavaleiros e depois pela N216, ou por dentro do Douro Internacional se a viagem for de Miranda. O Largo Duarte Pacheco é o ponto zero do centro histórico, com estacionamento gratuito à volta. A pé, do quartel de bombeiros à porta do Montanha são cinco minutos. Quem vier de transportes públicos chega pela Rede Expressos a Bragança e depois apanha o autocarro regional, mas o ideal mesmo é vir de carro: é assim que se percebe o planalto.
Sendo um café-bar e não uma cozinha, o cardápio é o clássico: torradas mistas, tostas, croissants, bifanas. Peça uma bifana ao final da tarde, com mostarda e pão fresco, e estará bem servido por menos do que custa um sumo num aeroporto. O café é decente, sem ser excepcional: a região não tem grandes torrefactores próprios, e o que se bebe é o de qualquer cadeia portuguesa. Para experiências gastronómicas a sério em Mogadouro, o Montanha não é o sítio: vá ao Montanha para beber, conversar e observar o largo. Para comer bem, procure os restaurantes especializados em posta mirandesa nas ruas vizinhas.
Aos fins-de-semana, sobretudo no Verão, a esplanada enche depois das onze da noite. Se quiser conversa, vá mais cedo. Se quiser ambiente, fique para a hora a que a banda começa, normalmente por volta das vinte e duas. Reservas não são necessárias, e não há código de vestuário: ninguém repara se chegar de bermudas vindo da albufeira.
O Montanha funciona melhor como base de operações do que como destino isolado. Comece o dia aqui com um galão, depois suba a um dos miradouros que recomendamos no guia dos miradouros para Junho no Planalto. À tarde, calce botas e faça o trilho dos lagares rupestres, um circuito que mostra como os romanos pisavam uvas em pedra escavada. Volte ao Montanha ao fim do dia, para a primeira imperial.
Para dormir, o concelho tem opções honestas a preços que envergonham qualquer cidade. A Casa do Gi é central e familiar; a Casa das Águas Férreas é uma opção mais rural para quem queira silêncio absoluto.
Se o programa for nocturno, depois do Montanha fechar a esplanada da rua, o Via Dupla Bar é a continuação lógica. E se calhar coincidir com a Festa da Terra e dos Gaiteiros em Urrós, mude o plano todo: é uma das festas mais autênticas do nordeste transmontano. Para perceber porque vale a pena vir até cá em Maio, leia o nosso ensaio Mogadouro em Maio: O Interior Que Ninguém Pôs no Mapa.
O Montanha não é um destino gastronómico nem um bar de design. É um café de praça que aguenta dezassete horas de trabalho por dia, sete dias de cada oito, e que faz isso com a competência discreta de quem está habituado. Em Mogadouro, isso é exactamente o que se procura.