Mogadouro a Pé: Trilho dos Lagares Rupestres
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Mogadouro a Pé: Trilho dos Lagares Rupestres

· · Mogadouro

Doze quilómetros pelo Planalto Mirandês, sete lagares escavados na rocha há dois mil anos, e quase ninguém pelo caminho. Um guia honesto para caminhar Mogadouro com botas decentes, mapa em papel e uma reserva n'A Casa do Gi.

Há uma coisa que ninguém te diz antes de vires aos lagares rupestres do Planalto Mirandês: não estão sinalizados como deviam estar. Não há painel luminoso, não há bilheteira, não há audioguia em quatro línguas. Estão lá, escavados na rocha há dois mil anos, à espera que te lembres que existem e te dês ao trabalho de os procurar com um mapa em papel e botas decentes.

Isso é metade do encanto. A outra metade é o silêncio. Em pleno mês de Maio, às nove da manhã, podes caminhar três horas pelo planalto sem cruzar uma única pessoa. Só ouves o vento a passar pelos carvalhos negrais, o tilintar de um chocalho ao longe e, ocasionalmente, um abutre-do-Egipto a planar baixo, porque sim, esta é a zona certa para os ver.

Porquê este trilho, e porquê agora

Os lagares rupestres são tanques de pisa escavados directamente em afloramentos de granito, usados desde a época romana até pelo menos ao século XVIII para esmagar uvas e fazer vinho. O Planalto Mirandês tem uma das maiores concentrações da Península Ibérica. Há mais de cem identificados na região alargada entre Mogadouro, Miranda do Douro e Vimioso. Alguns são simples: uma pia rectangular com um canal de escoamento. Outros têm duas pias, escadas talhadas e marcas profundas de viga prensa. Tudo na rocha viva, sem cimento, sem argamassa, sem restauro recente.

O que torna isto fascinante não é a beleza, porque francamente não há beleza óbvia. É a escala humana. Alguém, há vinte séculos, escolheu aquela pedra concreta, num planalto exposto ao vento, e decidiu que ali se faria vinho. E fez-se. Geração atrás de geração. Até que um dia deixou de se fazer, e a pedra ficou.

A melhor altura para andar é de meados de Abril a meados de Junho, ou então de finais de Setembro a Novembro. No Verão, o planalto cozinha a 38 graus e não há sombra a cinco quilómetros. No Inverno, é gélido e cinzento, embora tenha outro tipo de poesia se gostares de paisagens vazias (a propósito, quem quiser perceber o que falo, vá ler o itinerário fotográfico de Montalegre no Inverno, é um planalto diferente, mas a lógica é a mesma).

O percurso, sem floreados

O trilho mais acessível parte de Bemposta (a aldeia de Bemposta, não confundir com a barragem) e faz um circuito de cerca de doze quilómetros que passa por sete lagares identificados, com painéis de azulejo discretos nas proximidades. Demora entre quatro e cinco horas a pé, com paragens decentes para fotografias e para te sentares na pedra a pensar na vida.

Alternativa mais curta: o miniloop a partir de Vale de Porco, cerca de seis quilómetros, três lagares, duas horas. Boa opção se vieres com crianças ou se chegaste tarde e queres voltar antes do almoço.

Equipamento mínimo: dois litros de água por pessoa, chapéu, protector solar (mesmo em Maio, o ultravioleta no planalto é brutal), botas ou ténis de trail (há muita pedra solta), e um GPS no telemóvel com tracks descarregados em offline. A cobertura de rede é irregular. Não confies no Google Maps para te tirar do meio do nada.

O que vais ver, lagar a lagar

  • Lagar de Picote 1: o mais fotogenado. Duas pias comunicantes, viga prensa, encaixe lateral para o fuso. Vista directa para o Vale do Douro Internacional.
  • Lagar da Ribeira da Aveleda: pequeno, isolado, fácil de passar ao lado. É o meu favorito, precisamente por isso. Senta-te ali à sombra de um zimbro e bebe um café da garrafa térmica.
  • Lagar do Penedo Durão: imponente, com escadas talhadas a descer para o tanque. Conjunto com painel interpretativo.
  • Lagar do Convento (Bemposta): reaproveitado em época medieval, com cruz cristã sobreposta a marcas mais antigas. Arqueologia em estratos, sem precisar de qualquer adjectivo pomposo para explicar.

Os restantes três são variações sobre o tema. Se já viste quatro, viste mais ou menos todos. A graça não é colecioná-los, é andar de um para o outro.

Onde dormir (e como não te enganares na escolha)

Mogadouro não é Lisboa nem o Porto. A oferta de alojamento é pequena, mas honesta, e se reservares com uma semana de antecedência tens lugar garantido em casas que valem mais do que os hotéis genéricos de estrada.

A minha recomendação número um, sem hesitar, é A Casa do Gi, uma casa de pedra restaurada com bom senso: chão de tábua larga, lareira a funcionar, dois quartos, pequeno-almoço com pão da padaria local e doce caseiro. O Gi sabe onde estão os lagares e empresta-te um mapa anotado à mão se pedires com jeito. É também o tipo de sítio onde, se chegares cansado da caminhada, ninguém te julga por jantares uma sopa e um queijo e ires dormir às nove.

Alternativa igualmente sólida: Casa das Águas Férreas, mais isolada, com jardim, ideal se vieres em grupo de quatro ou se quiseres cozinhar. Tem cozinha equipada a sério, não aquela coisa simbólica de um fogão e duas tigelas. Diferença em relação à Casa do Gi: aqui estás mais longe do centro, portanto precisas obrigatoriamente de carro.

Comer em Mogadouro: a verdade nua e crua

O Concelho de Mogadouro vive bem de duas coisas: posta mirandesa e amêndoa. A posta é a peça nobre da raça mirandesa, grelhada na brasa, servida geralmente com batata cozida, grelos e azeite da região. Não tem molho. Não tem guarnição rebuscada. Não precisa. Se um restaurante te oferecer posta com molho de Roquefort, sai por onde entraste.

Ordena sempre a posta mal passada, mesmo que normalmente prefiras ao ponto. Esta carne perde tudo se passar do médio raro. E pede vinho tinto da região, há produtores pequenos no planalto que merecem mais atenção do que recebem.

Sobre amêndoa: Mogadouro tem uma das maiores produções do país. A época da floração, entre meados de Fevereiro e princípio de Março, transforma o planalto numa coisa absurdamente bonita, branca e rosada até onde a vista alcança. Se conseguires sincronizar uma visita com essa janela, fá-lo. Para Maio, o que sobra são doces de amêndoa, que encontras em qualquer pastelaria decente do centro.

O que mais fazer enquanto estás por aqui

Se o trilho dos lagares te der apetite por mais, e tens dois ou três dias para gastar, há combinações inteligentes a fazer.

Uma é descer ao Sabor. A albufeira do Baixo Sabor é praticamente desconhecida, e isso é uma sorte se quiseres ter água quieta de manhã cedo sem cruzar barcos a motor. Recomendo seriamente o passeio de caiaque nos lagos do Sabor a partir de Mogadouro, especialmente se reservares para a primeira hora da manhã. Vês corços a beber na margem, garças, e em dias bons águia-de-Bonelli. Custos rondam a tarifa típica de meio dia. Confirma localmente a marca, há mais do que um operador.

Outra combinação que ninguém faz, mas devia, é cruzar o planalto até ao outro lado de Trás-os-Montes e perceber que isto não é tudo igual. Se sobrarem dois dias, vale a pena ler o guia sobre Montalegre fora do Barroso antes de planeares, porque a paisagem muda, a comida muda, o sotaque muda, e gente que assume que Trás-os-Montes é uma coisa só sai sempre desiludida ou surpreendida.

O dia perfeito de caminhada, hora a hora

Acordas às sete. Café e torrada n'A Casa do Gi ou onde estiveres, com calma. Saída do alojamento por volta das oito e meia, condução de vinte minutos até ao início do trilho em Bemposta. Estaciona à sombra, se houver. Em Maio, ainda há.

Das nove ao meio-dia: caminhada pelos primeiros quatro lagares. Faz uma pausa longa, de meia hora, no Lagar da Ribeira da Aveleda. Tira os ténis. Come uma maçã. Não tires fotografias durante esses trinta minutos. Confia.

Meio-dia à uma e meia: continua para os restantes lagares. Almoço leve, sandes ou fruta, no Lagar do Penedo Durão, com a vista de Espanha à tua direita.

Uma e meia às quatro: descida tranquila, regresso ao carro. Banho, calçado civil, descanso até ao jantar.

Ao fim da tarde, e isto é importante porque o planalto a Junho tem uma luz que vale ouro, sobe a um miradouro alto para o pôr do sol. Há vários, e detalhei os melhores no guia Mogadouro ao Pôr do Sol. Leva uma camisola, porque o vento cai quando o sol cai e a temperatura pode descer dez graus em vinte minutos.

Logística honesta

Como chegar: de carro, sem alternativa séria. De Lisboa são cerca de cinco horas. Do Porto, três e meia. Há autocarro da Rede Expressos para Mogadouro, mas depois precisas mesmo de transporte para os trilhos, e não há táxis a circular pelas aldeias do planalto.

Quando ir: a janela ideal é a primeira quinzena de Maio e a primeira quinzena de Outubro. Evita Agosto. Evita também o fim-de-semana das Festas de Santiago em Mogadouro (final de Julho), não pela festa, que é boa, mas porque vais ter pouco silêncio no planalto.

Custo de um fim-de-semana, dois adultos, com alojamento, refeições, gasolina local e uma actividade extra como o caiaque: razoável, claramente abaixo do que pagarias por equivalente no Algarve. Confirma preços antes, mas não esperes ser saqueado.

O que não esperar: vida nocturna, museus interactivos, sinalização perfeita, restaurantes abertos depois das dez. O que esperar: pessoas que te cumprimentam na rua mesmo sem te conhecerem, pão que sabe a pão, e a sensação rara de teres encontrado um sítio que ainda funciona à sua maneira, e não à maneira que o Instagram espera.

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