Ilha do Pico em Agosto: Vulcão, Vinho e Baleias
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Ilha do Pico em Agosto: Vulcão, Vinho e Baleias

· · Aljezur

Às 4h da manhã, na Casa da Montanha, recebe um localizador GPS e começa a subir os 2.351 metros do Pico para ver o nascer do sol acima das nuvens. Depois: vinho crescido em currais de pedra negra, cachalotes ao largo das Lajes e a maior festa da ilha na última semana de agosto.

Agosto em Portugal tem um guião previsível: o país inteiro desce ao litoral, as filas para o gelado dobram a esquina e a EN125 transforma-se num parque de estacionamento. Mas há outro agosto possível, a pouco mais de duas horas de avião de Lisboa. Uma ilha onde uma montanha de 2.351 metros sai diretamente do Atlântico, onde a vinha cresce dentro de currais de pedra negra classificados pela UNESCO, e onde os cachalotes vivem ao largo o ano inteiro, não de passagem, residentes. A Ilha do Pico, nos Açores, é o antídoto para a época alta. E agosto, longe de ser um erro, é precisamente o mês em que a ilha faz mais sentido: o mar está mais manso, a montanha abre com melhor tempo e as Lajes do Pico enchem-se para a maior festa do ano.

Chegar lá sem drama

Duas opções. A direta: voo de Lisboa para o aeroporto do Pico, na Madalena. A clássica: voar para a Horta, no Faial, e apanhar o ferry da Atlânticoline até à Madalena, uma travessia de cerca de meia hora no canal entre as duas ilhas. Se puder, faça a segunda pelo menos num sentido. Ver a montanha crescer à frente do barco, com a base enterrada no mar e o cume frequentemente acima das nuvens, é a melhor introdução possível à ilha. Em agosto, reserve voos e carro de aluguer com semanas de antecedência: a oferta é curta e esgota. O carro não é opcional. O Pico tem 42 quilómetros de comprimento, os transportes públicos são escassos e as três vilas, Madalena, São Roque e Lajes, ficam em cantos diferentes da ilha.

A montanha: 2.351 metros que se ganham a pulso

A subida ao Pico não é um passeio, é uma prova. Começa na Casa da Montanha, a cerca de 1.200 metros de altitude, onde o registo é obrigatório: recebe um localizador GPS, ouve o briefing e paga a taxa de acesso (confirme o valor atual no momento da reserva). O número de pessoas na montanha é limitado, e em agosto os lugares voam, por isso reserve online com dias de antecedência. A subida demora três a quatro horas, quase sempre sobre lava solta e rocha, sem sombra e sem água pelo caminho. Leve mais água do que acha que precisa e um casaco a sério: lá em cima, mesmo em pleno verão, a temperatura cai a pique quando o vento aperta.

O truque que separa os turistas dos convertidos: subir de madrugada. Sair da Casa da Montanha por volta das 4h com frontal na cabeça, chegar ao Piquinho, o cone final que se trepa com as mãos nos últimos setenta metros, e ver o sol nascer com a sombra perfeita da montanha projetada sobre o mar e sobre a ilha do Faial. Nas fumarolas junto ao cume, o chão liberta calor. É dos poucos sítios em Portugal onde se sente, literalmente, que se está em cima de um vulcão adormecido.

Vinho que cresce em pedra

Desça da montanha e vá ver a razão pela qual a UNESCO classificou a paisagem da vinha do Pico como Património Mundial em 2004. Na Criação Velha, a sul da Madalena, a vinha não cresce em socalcos verdes mas dentro de milhares de currais: pequenos cercados de pedra basáltica empilhada à mão, que protegem as videiras do vento e do sal e devolvem à noite o calor acumulado durante o dia. Caminhe pelo trilho entre os currais ao fim da tarde, quando a pedra negra ainda está morna, até ao moinho vermelho da Criação Velha, e perceberá porque é que gerações de picoenses partiram pedra a vida inteira por meia dúzia de cachos.

Depois, prove. As castas locais, Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico, dão brancos salinos e vulcânicos que não se parecem com nada do continente. A cooperativa da ilha, na Madalena, produz o Frei Gigante, o branco que encontrará em todas as mesas locais a preço honesto. Para uma experiência mais ambiciosa, a Azores Wine Company, perto das Bandeiras, fez do vinho do Pico um caso sério de exportação e recebe visitas com prova (reserve antes, em agosto não vale a pena aparecer sem marcação). No Lajido de Santa Luzia, um centro de interpretação instalado entre adegas antigas de pedra explica a cultura da vinha para quem quer contexto antes do copo.

Lajes do Pico: os cachalotes e a festa

O lado sul da ilha pertence às baleias. As Lajes do Pico foram, até aos anos 80, terra de baleeiros que saíam em botes de madeira para caçar cachalotes à mão. Quando a caça acabou, a vila fez a única coisa sensata: converteu os vigias, os homens que passavam os dias a perscrutar o mar de binóculos em punho, em olheiros para a observação turística. A Espaço Talassa, a operar nas Lajes desde 1989, foi pioneira e continua a ser referência: saídas de cerca de três horas, guiadas por gente que fala de cetáceos com rigor científico e não com folclore. Em agosto, as probabilidades de ver cachalotes são altas, e os golfinhos são quase garantidos. Reserve com antecedência e confirme preços diretamente, mas conte com um valor na casa das dezenas de euros por pessoa.

Antes ou depois do barco, o Museu dos Baleeiros, instalado nas antigas casas dos botes junto ao porto, conta a história toda sem romantismo barato: os arpões, os botes, as fotografias dos homens que faziam aquilo por necessidade e não por aventura. E se conseguir fazer coincidir a viagem com a última semana de agosto, apanha a Semana dos Baleeiros, a maior festa da ilha: regatas de botes baleeiros, procissão em honra de Nossa Senhora de Lourdes, padroeira dos baleeiros, concertos e uma vila inteira na rua. É a única altura do ano em que as Lajes parecem cheias, e vale a pena.

O resto da ilha, entre lava e queijo

Guarde meio dia para a Gruta das Torres, perto da Criação Velha: o maior tubo lávico de Portugal, com mais de cinco quilómetros, do qual se visita um troço com capacete e lanterna em visita guiada. Lá dentro, escuridão total e silêncio absoluto quando o guia pede para apagar as luzes. Na costa norte, as piscinas naturais do Cachorro, escavadas na lava junto às Bandeiras, são a resposta do Pico à praia: não há areia, há rocha negra, escadas de ferro e água transparente. E ao fim do dia, a fórmula local que nunca falha: queijo do Pico, amanteigado e de cheiro forte, com pão e um copo de branco da ilha, numa esplanada virada ao canal do Faial.

Plano B: se agosto o prender ao continente

Sejamos honestos: há anos em que os voos para os Açores em agosto esgotam ou atingem preços que estragam a festa. Se for esse o caso, a alternativa continental com o mesmo espírito atlântico e selvagem não está nas praias com bandeira azul e chapéus em fila, está em Aljezur, na Costa Vicentina. A Praia da Arrifana, uma concha encaixada entre arribas, tem o mesmo Atlântico bravo que rodeia o Pico, com a vantagem de se chegar de carro. Para o café da manhã antes da praia, a paragem local é a Mioto Pastelaria Snack-Bar, sem pretensões e com balcão de terra.

Aljezur tem até o seu próprio equivalente à cultura da vinha do Pico: a batata-doce, produto com estatuto quase sagrado no concelho. A experiência O Legado da Batata-Doce percorre os mercados rurais do concelho e explica porque é que este tubérculo define a mesa local. E para quem quer o lado mais cru da costa, há uma experiência de sobrevivência e recoleção na Costa Vicentina que ensina a ler a paisagem em vez de apenas a fotografar. Para dormir, a vila tem alojamentos pequenos e com carácter: a Muxima Aljezur Guesthouse e a A Lareira Guesthouse servem bem quem quer base no centro, e a Releash Aljezur é a opção para quem viaja com prancha no tejadilho.

Veredicto

O Pico em agosto exige planeamento: voos cedo, carro cedo, montanha reservada, barco reservado. Em troca, dá-lhe uma semana que nenhum resort consegue imitar: um nascer do sol a 2.351 metros, um branco vulcânico bebido ao lado da pedra que o criou e um cachalote a levantar a cauda a duas milhas da costa. É o melhor agosto português que a maioria dos portugueses nunca fez. E se o Atlântico dos Açores não couber no orçamento deste ano, o de Aljezur está à espera, três horas a sul de Lisboa, sem fila para embarcar.

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