A Lareira Guesthouse
Aljezur
Duas casas de taipa restauradas em Montes Ferreiros, piscina natural sem cloro e cerâmicas feitas pela família anfitriã. Aberta de Abril a Outubro: reserve com meses de antecedência ou esqueça a ideia.
Montes Ferreiros não aparece nas listas de praias do Algarve nem nos guias rápidos de fim de semana, e é exactamente esse o ponto. A poucos quilómetros da vila de Aljezur, numa estrada de terra batida que serpenteia entre pinheiros e eucaliptos, duas casas de taipa restauradas formam aquilo que os donos chamam, com modéstia desconcertante, de uma simples bed and breakfast. Chama-se Muxima Aljezur Guesthouse, e é o tipo de sítio que se descobre por recomendação de amigos surfistas ou ceramistas, raramente por anúncio.
Muxima significa coração em quimbundo, língua falada em Angola, e a escolha do nome não é decorativa. A casa é gerida em família, com o ritmo lento que isso implica: o pequeno-almoço sai quando sai, a conversa demora, e não há recepção 24 horas porque não há recepção. Há, isso sim, duas casas de taipa, técnica de construção em terra crua que é tradição da Costa Vicentina e que aqui foi recuperada com mão de quem percebe do assunto, com paredes grossas que mantêm o fresco no Verão e o calor nas noites de Abril.
O complexo tem uma piscina natural, sem cloro, que se integra na paisagem em vez de a interromper. À volta, mato mediterrâneo, sobreiros, e o silêncio que só existe quando se está suficientemente longe da Nacional 268. As peças de cerâmica espalhadas pelos quartos e zonas comuns são feitas à mão pelos próprios anfitriões, e não estão à venda na recepção como suvenir, fazem parte da casa.
Aqui está a primeira informação prática que muita gente descobre tarde demais: a Muxima está aberta sazonalmente, de Abril a Outubro. Em Novembro fecha. Reservar para um fim de semana de Dezembro porque alguém viu uma fotografia bonita no Instagram não vai funcionar. Se quer o sítio em condições óptimas, vá em Maio ou Setembro: o tempo está bom, o Atlântico está navegável, e a Praia da Arrifana ainda não está engarrafada de surfistas franceses em férias de Verão.
Junho e a primeira metade de Julho são o ponto doce. Para quem quer compreender a costa nessa altura, vale a pena ler o nosso guia sobre Aljezur em Junho antes de planear roteiros: a água é fria, mas as falésias estão floridas e os restaurantes ainda servem em condições.
A morada oficial é Montes Ferreiros, Cx. Postal 265-A, 8670-050 Aljezur. A morada postal, como acontece muito no interior algarvio, não chega para encontrar a casa de carro. Use GPS, peça a localização exacta directamente aos anfitriões quando reservar, e desconfie de qualquer indicação que envolva a palavra atalho.
De Lisboa, são cerca de três horas pela A2 e depois pela IC4. De Faro, hora e meia. De comboio, esqueça, não chega lá. De autocarro chega-se a Aljezur vila, e a partir daí ou tem carro, ou combina transfer. Não há Uber. Há um táxi local cujo número pedirá aos anfitriões. Aceite esse facto antes de chegar.
A casa está na faixa €€€, o que em Aljezur significa que não é o sítio mais barato da zona, mas também está longe dos preços de Lagos ou Sagres em alta época. Pelo dinheiro tem quarto numa casa de taipa restaurada com cuidado, pequeno-almoço caseiro, acesso à piscina natural, e o luxo cada vez mais raro de não ter trânsito a passar à porta.
Para quem quer comparar com outras opções da zona antes de decidir, A Lareira Guesthouse é uma alternativa interessante mais perto da vila, com outra atmosfera, mais doméstica e menos rural.
São duas casas. Não há vinte quartos. Em Julho e Agosto a casa enche-se com meses de antecedência, muitas vezes por hóspedes que voltam ano após ano. Reserve com tempo, prefira o contacto directo via muxima-aljezur.com ou pelo telefone +351 927 543 399, e tenha paciência se a resposta demorar um dia: como já disse, isto é gerido em família, não é cadeia de hotéis.
Confirme directamente os horários de check-in e check-out, porque não há informação fixa publicada e os anfitriões organizam-se conforme as chegadas. Confirme também a forma de pagamento, e leve algum dinheiro em numerário para gorjetas e pequenos pagamentos na zona, onde nem todos os cafés aceitam cartão.
A Muxima serve pequeno-almoço, mas não almoço nem jantar. Para o resto do dia, vai ter de descer à vila ou às praias. Ao pequeno-almoço informal do dia seguinte, ou para um lanche tardio antes do regresso, o Mioto Pastelaria Snack-Bar em Aljezur resolve sem grandes encenações.
Para um programa gastronómico mais sério, o nosso roteiro entre falésias e o Barrocal propõe um circuito de meio dia que combina batata-doce de Aljezur com peixe fresco de lota. E quem estiver na zona em Julho ou Agosto não pode escapar à sardinha assada: leia o guia do ritual do Verão vicentino e reserve uma noite para isso.
É para quem quer dormir em silêncio, ler na piscina, e usar Aljezur como base para explorar a costa sem o ruído de um resort. É para casais, para amigos com gosto pelo pormenor, para famílias com crianças que já não precisem de animação organizada. Não é para quem quer entretenimento nocturno à porta, ar condicionado central de hotel cinco estrelas, ou room service à meia-noite. Se essa é a sua noção de férias, escolha outro sítio e poupe a frustração de ambas as partes.
Quem vier nas datas certas, com a expectativa certa, sai de lá já a pensar na reserva do ano seguinte. Para alinhar a viagem com um momento alto da vila, considere coincidir com a Prova na Vila, o festival de vinhos de Aljezur: dorme-se em Montes Ferreiros, prova-se na vila, regressa-se devagar.