Aljezur em Junho: As Praias do Algarve Selvagem
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Aljezur em Junho: As Praias do Algarve Selvagem

· · Aljezur

Em Junho, as melhores praias do Algarve não estão em Albufeira: estão em Aljezur, na Costa Vicentina, onde a água é fria, o vento é real, e ainda se almoça sem reserva. Um guia opinativo da Arrifana, Bordeira e Amoreira, com pequeno-almoço na Mioto e batata-doce a sério.

Há uma verdade incómoda sobre o Algarve em Junho que ninguém em Albufeira lhe vai contar: as melhores praias da região não estão na costa sul. Estão em Aljezur, viradas para o Atlântico, onde a água está fria, o vento sopra a sério, e os parques de estacionamento ainda têm lugares depois das nove da manhã. Junho é o mês perfeito para vir cá. A escola ainda não acabou, os alemães e holandeses ainda estão a planear as férias de Julho, e a luz, essa luz oblíqua de início de Verão, transforma as falésias da Costa Vicentina em algo que faz qualquer fotografia parecer manipulada.

Este guia não é sobre praias bonitas. O Algarve tem dúzias delas e qualquer pesquisa no Google devolve as mesmas dez fotos com drone. Este guia é sobre quais delas valem mesmo a sua manhã, qual peixe pedir ao almoço, e porque é que ir a Aljezur em Junho é uma decisão completamente diferente de ir em Agosto, mesmo que o mapa pareça igual.

Porquê Junho, e porquê Aljezur

O Algarve do Sul, de Faro a Lagos, é uma máquina turística bem oleada que funciona a 100% entre Maio e Setembro. A costa oeste, do Cabo de São Vicente até Odeceixe, é outro animal. Faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, o que significa que não há marinas, não há resorts, não há paredões cimentados. Há falésias de xisto, há ondas grandes, há trilhos pedestres como a Rota Vicentina, e há cinco ou seis aldeias com mais surfistas do que padarias.

Junho funciona porque a água do mar começa a ser tolerável, mais ou menos, sem ser intolerável. Estamos a falar de 17 a 18 graus, o que é frio para padrões mediterrânicos e morno para padrões da Costa Vicentina. O vento Norte, o famoso nortada que arruína tantos planos de praia em Agosto, ainda não se instalou em modo permanente. As manhãs costumam ser calmas. As tardes ficam mais ventosas, especialmente a partir das três. Planeie em conformidade.

A outra razão para vir em Junho é que ainda se consegue almoçar sem reserva. Em Agosto, em Aljezur, isso é praticamente impossível depois das 12h30.

Praia da Arrifana: a rainha indiscutível

Vamos ao essencial. Se só tem um dia em Aljezur, vá à Praia da Arrifana. Não é por modismo, é por geometria: é uma baía em forma de meia-lua, com uma falésia de oitenta metros a proteger do nortada, o que faz dela uma das poucas praias da costa oeste onde se pode estar deitado na areia em Junho sem ser polvilhado de areia a 40 km/h. As ondas existem, são consistentes, e há uma escola de surf a operar há anos no extremo sul da praia.

Conselho prático: chegue antes das dez. O parque de estacionamento em cima, junto ao restaurante e à ermida, enche cedo. Há um segundo parque, a meio da descida, mas a meio de Junho já não é garantido. Não tente descer a estrada se vir o sinal de cheio, vai ficar entalado e a fazer manobras de cinco pontos com franceses irritados.

A descida a pé desde o miradouro até à areia leva uns dez minutos. Calçado decente, por favor. Já vi gente descer de chinelo de praia e a chegar lá em baixo a parecer que tinha lutado com o monte.

O que comer, e onde

Aljezur, vila, fica a uns quinze minutos de carro da Arrifana. Não tem nada de espectacular do ponto de vista urbano, mas tem o que interessa: um castelo no topo, um rio que serpenteia, e uma micro-cena gastronómica que recompensa quem procura.

O meu pequeno-almoço de eleição faz-se na Mioto Pastelaria Snack-Bar. Não é instagramável. Não tem matcha. Tem um galão decente, tem torradas com manteiga a sério, e tem aquela atmosfera de pastelaria de vila portuguesa onde toda a gente se conhece e o senhor da mesa do canto traz o jornal há vinte e cinco anos. Chegue antes das nove e meia se quiser sentar-se sem espera. Em Junho ainda funciona, em Agosto esqueça.

Para almoço, a regra é simples: peixe grelhado, batata-doce de Aljezur, salada. Os restaurantes na Praia da Arrifana e em Monte Clérigo praticam preços de praia, mas a relação qualidade-preço continua razoável fora do pico de Agosto. Conte com 18 a 25 euros por pessoa para um almoço com peixe do dia, sem grandes vinhos. Pergunte sempre o preço do peixe ao quilo antes de pedir, é a única coisa que pode dar surpresas em qualquer marisqueira do Algarve.

A batata-doce de Aljezur, sem ironia

Falar de Aljezur sem falar de batata-doce é como falar de Bragança sem falar de posta. A batata-doce de Aljezur tem Indicação Geográfica Protegida, é cultivada nos arrozais e várzeas em redor da vila, e tem uma textura mais cremosa e um sabor menos doce do que as variedades industriais que se vendem nos supermercados. A festa da batata-doce é em Novembro, mas em Junho já se encontra nos restaurantes e nos mercados locais.

Se quer perceber a sério a história agrícola da região, há uma viagem gastronómica pelos mercados de Aljezur centrada na batata-doce que vale a pena para quem gosta de saber o que está a comer e quem o produz. É o tipo de experiência que não se faz por causa do Instagram, faz-se porque depois disso nunca mais se vai olhar para uma batata-doce da mesma maneira.

As outras praias que importam

A Arrifana é a referência, mas há mais.

Monte Clérigo

A cinco minutos de carro a norte da Arrifana. Mais aberta, mais vento, areia a perder de vista. Boa para caminhadas longas e para crianças pequenas, porque a entrada na água é gradual. Tem uma pequena aldeia piscatória junto à praia, com casas brancas e um par de restaurantes. Em Junho ainda se almoça sem reserva, na maior parte dos casos.

Praia da Bordeira

Mais a sul, antes do Carrapateira. É uma das praias mais espectaculares do país, com uma ribeira que desagua na areia, formando uma laguna onde se pode entrar com pranchas insufláveis. É a praia para quem quer caminhar, fotografar, e não necessariamente nadar. A entrada é por estradão de terra batida, faça-se com calma. Há um parque de estacionamento simples, sem sombras, leve água.

Amoreira

A norte de Aljezur, na foz da ribeira. Tem dois lados: o lado da ribeira, com água doce e calma, ideal para crianças, e o lado do mar, com ondas e correntes. É a minha escolha quando ando com família ou quando o vento na Arrifana está insuportável. Há um restaurante na praia, simpático, com pratos de peixe e um pôr-do-sol que justifica ficar até ao fim.

Odeceixe

Tecnicamente já entra no Alentejo, mas o concelho é Aljezur. Mesma fórmula da Amoreira: ribeira de um lado, mar do outro. A vila de Odeceixe, lá em cima na falésia, vale uma volta a pé ao final da tarde. Ruas estreitas, casas caiadas, um moinho restaurado.

Para além da praia: o lado selvagem

Em Junho, com dias longos e temperaturas agradáveis, fazer só praia em Aljezur é desperdiçar metade da experiência. A Costa Vicentina é um território de surfistas, de caminhantes, e de gente que vem aprender a ler o mar e a terra de outra forma.

Para quem quer mergulhar a fundo nessa lógica, há uma experiência de sobrevivência e recolecção na Costa Vicentina que ensina a identificar plantas comestíveis, a colher mariscos das poças de maré, a fazer fogo sem isqueiro. Pode parecer turístico no papel, mas é exactamente o oposto. Sai-se de lá com noção da quantidade de coisas que se passa anos a ignorar enquanto se anda a comer pacotes do supermercado.

Para quem prefere caminhar, a Rota Vicentina passa precisamente por aqui. O troço entre a Arrifana e Monte Clérigo, pelo cimo da falésia, é fazível em duas horas e tem vistas que justificam levantar-se cedo. Em Junho, faça-o de manhã, antes das onze, antes do calor apertar.

Logística: como chegar e onde ficar

Aljezur fica a uns 80 quilómetros de Faro, a hora e meia de carro. De Lisboa, são duas horas e meia pela A2 e depois pela 120. Não há comboio, não há aeroporto, não há autocarro decente. Carro alugado é praticamente obrigatório.

Para dormir, há três opções práticas:

  • Aljezur vila: mais barato, mais autêntico, mas tem de conduzir 15 minutos para chegar a qualquer praia. Boa opção se quer base para várias praias.
  • Arrifana (a aldeia em cima da falésia, não na praia): vistas espectaculares, próximo da praia, mas opções de jantar limitadas.
  • Carrapateira: para quem prioriza a Bordeira e Amado, e não se importa de conduzir mais para chegar a Aljezur.

Em Junho ainda há disponibilidade decente nas guesthouses e turismo rural. Reserve com pelo menos três semanas de antecedência. Em Julho e Agosto, três meses não chegam.

O que NÃO fazer

Não tente fazer Aljezur como base para visitar Albufeira ou Vilamoura. São duas horas de carro, são dois mundos. Quem vem para esta costa vem ficar nesta costa.

Não meta a mão no mar a achar que vai estar como em Tavira. A diferença entre a costa sul e a costa oeste, em termos de temperatura da água, é brutal. Junho ainda significa fato de neoprene curto se estiver mais do que vinte minutos dentro de água.

Não desça a Arrifana de carro se vir filas. Não há onde virar, não há onde estacionar, vai sair de lá com o casamento em risco.

Para quem quer mais Algarve, mas com critério

Aljezur funciona bem como porta de entrada para o Algarve menos óbvio. Se tem mais dias e quer perceber outras vilas com personalidade própria, vale a pena combinar com paragens noutros pontos da região. O guia de bairros de Lagos ajuda a perceber porque é que esta cidade ainda merece umas horas, mesmo com o turismo a apertar. Para quem viaja com crianças e está farto de praias com vento, o guia honesto de Silves para famílias é uma boa alternativa de meio-dia. E se quer perceber o lado culto e antropológico da região, há um olhar sobre cultura local em Faro que mostra um Algarve que está debaixo do nariz de toda a gente que aterra ali e nunca sai do aeroporto.

O essencial, em três frases

Vá em Junho, antes das férias escolares começarem a sério. Acorde cedo, almoce devagar, e durma a sesta antes de voltar à praia ao final da tarde. E quando alguém lhe disser que o melhor do Algarve fica em Albufeira, sorria e mude de assunto. Algumas verdades é melhor guardarmos para nós.

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