Fundão em Junho: Festa da Cereja e a Rota Vermelha da Cova da Beira
Guia

Fundão em Junho: Festa da Cereja e a Rota Vermelha da Cova da Beira

· · Fundão

Três dias de festa em Junho, cerejas a €5/kg directamente do produtor, e uma rota de aldeias na encosta da Gardunha que mudam de feição em quinze dias. Um guia honesto à Festa da Cereja do Fundão e à Cova da Beira, sem clichés rurais.

Há uma altura precisa, normalmente entre a segunda e a terceira semana de Junho, em que a estrada que sobe do Fundão para Alcongosta deixa de ser uma estrada e passa a ser um corredor entre cestos. Tractores parados na berma, mulheres com aventais a separar lotes, miúdos com a boca pintada de roxo. Se nunca conduziu por aqui em Junho, faça-o pelo menos uma vez na vida. Não pelo cliché da "experiência rural", mas pela coisa muito mais prosaica de ver uma economia inteira girar à volta de um fruto que dura três semanas.

A Festa da Cereja do Fundão acontece todos os anos em Junho, normalmente coincidindo com o pico da apanha. A programação muda, os palcos mudam, os patrocinadores mudam, mas a estrutura é sempre a mesma: três dias de música, mostra agrícola, provas de produtos regionais, concurso de cerejas e uma quantidade desproporcionada de pessoas a comer cerejas directamente do saco enquanto andam de um lado para o outro. Confirme as datas exactas no site da Câmara antes de reservar, porque mudam consoante a maturação do fruto.

Por que é que a cereja do Fundão importa

Vamos ser honestos: cerejas há em muitos sítios. A diferença aqui é micro-climática e geográfica. A Cova da Beira, a depressão entre a Serra da Estrela e a Serra da Gardunha, tem um inverno frio que cumpre as horas de frio necessárias para a cerejeira produzir, e uma primavera quente que faz com que o fruto desenvolva açúcares sem ficar aguado. As variedades aqui são as Saco, Burlat, Sweetheart, Lapins, Summit. Se quer aprender alguma coisa numa só viagem, peça para provar três variedades lado a lado em qualquer banca da feira. A diferença entre uma Saco bem madura e uma Burlat é a diferença entre dois vinhos.

Os cerejais aqui são o resultado de uma reconversão agrícola que começou nos anos 1960, quando se percebeu que os solos da Gardunha davam bem para a cerejeira. Hoje há mais de 1500 hectares plantados na Cova da Beira, e a denominação "Cereja da Cova da Beira" tem Indicação Geográfica Protegida. É um daqueles raros casos em Portugal em que a estatística e o sabor batem certo.

Os três dias da festa, descodificados

Sexta à tarde: chegue cedo

O recinto principal costuma instalar-se na zona do Parque do Convento ou em redor da Praça Velha. A sexta à tarde é o melhor momento para passear pelas tendas dos produtores sem stress. Aproveite para falar com os agricultores, perguntar de que aldeia vêm, quantos hectares têm. Vai aprender mais em meia hora do que num documentário inteiro. Compre cerejas para levar para casa nesta altura: ao domingo já só sobram os lotes piores e os preços não baixam tanto como se pensa, porque a procura nestes dias é nacional.

Preços de referência durante a festa: caixa de 1kg de calibre médio entre €4 e €7, calibres superiores podem ir aos €10/kg. Compre directamente aos produtores e não às bancas com nomes giros.

Sábado: o dia inteiro

Sábado é o dia em que o Fundão duplica de população. Há concertos à noite, normalmente com cabeças de cartaz portugueses, e o jantar é um problema se não tiver reservado. Sugestão prática: almoce tarde, lá pelas 14h30, quando os restaurantes já não estão cheios. Para jantar, ou reserva com semanas de antecedência, ou come no recinto da festa, ou faz como os locais e janta às 19h antes do enchente.

Depois dos concertos, a noite continua. O Zona L Bar é, ano após ano, o ponto de encontro de quem ainda não quer ir para casa às duas da manhã. Não é um sítio sofisticado: é um bar de cidade pequena, com música a um volume razoável, gente que se conhece toda e uma certa propensão para conversas que se prolongam até de madrugada. Exactamente o que se quer numa noite de festa.

Domingo: a manhã lenta

Domingo de manhã é altura para o pequeno-almoço demorado, idealmente numa pastelaria com vitrina cheia. Depois, em vez de voltar à festa, fuja para a Rota das Cerejas.

A Rota das Cerejas: o roteiro a sério

A chamada Rota das Cerejas não é uma estrada sinalizada com um logótipo, é mais uma constelação de aldeias na encosta sul da Gardunha onde se concentra a cereja boa: Alcongosta, Souto da Casa, Donas, Alcaide, Soalheira. Faça-a de carro com paciência, parando onde houver placas de "vende-se cereja" escritas à mão. Esse é o sistema.

Alcongosta

É a aldeia-mãe da cereja do Fundão. Ruas estreitas, vestígios da apanha por todo o lado durante Junho, e uma vista para a Cova da Beira que justifica a subida só por si. Ao centro, peça café onde houver gente local sentada. Em Alcongosta também se fazem cestos de verga, ainda, e às vezes apanha-se um artesão a trabalhar à porta. Não é encenação: é o que sobra de uma tradição que era universal e agora é residual.

Souto da Casa e Donas

Continue para Souto da Casa, onde a paisagem se abre. Em Donas, mais abaixo, o ritmo já é o do plano: terreno mais plano, pomares maiores, mais comerciais. É aqui que se compra em quantidade para levar.

Alcaide e Soalheira

Alcaide é provavelmente a aldeia mais bonita da rota. Casas baixas, granito visível, ar de fim de mundo. A Soalheira é também terra de queijo, e há aqui um detalhe que poucos guias mencionam: a combinação queijo de cabra fresco com cereja madura, num pão duro da Beira, é uma das coisas mais simples e mais boas que pode comer em Junho em Portugal. Faça-o ao fim da tarde, com um copo de vinho branco fresco da região.

Onde dormir, sem mistério

Reserve com semanas de antecedência. Em Junho, durante a festa, o Fundão esgota. Há três opções no centro que cumprem bem o seu papel:

  • A Rustic House Fundão é a melhor escolha se anda a dois ou três e quer um espaço com personalidade. Pedra à vista, decoração cuidada, cozinha equipada para quem quer fazer um pequeno-almoço com as cerejas que comprou na feira.
  • Os Gardunha Apartments são a aposta segura para famílias ou para estadias mais longas. Apartamentos com cozinha, mais espaço, melhor relação qualidade/preço se forem três ou quatro pessoas.
  • As Casas da Mina Hostel são a opção para mochileiros, para quem viaja sozinho ou para quem prioriza preço sobre conforto. Ambiente social, boa para conhecer outros viajantes durante o fim-de-semana da festa.

Se tudo isto estiver esgotado (e em Junho, com frequência está), alargue a procura para a Covilhã, a vinte minutos de carro, ou para aldeias no entorno como Soalheira e Donas, onde há cada vez mais alojamento local.

Comer no Fundão: o que pedir, o que evitar

A cozinha aqui é Beira pura: bucho, cabrito assado, borrego, enchidos, queijo da Serra. Não venha à procura de cozinha de autor, venha à procura de tachos. Em qualquer tasca decente, peça cabrito quando ele estiver no quadro. Em qualquer pastelaria, peça um pastel de cereja na época, e desconfie do pastel de cereja a meio do inverno. Coisas óbvias mas que se esquecem em viagem.

Durante a festa, há tendas de comida no recinto. As filas mais compridas são, normalmente, as melhores. Não é regra científica, é observação.

Para além da cereja: o resto do Fundão

O Fundão é uma daquelas cidades que ganham por não ser pretensiosa. Tem museus pequenos mas decentes, um centro histórico para uma manhã, e uma proximidade brutal à serra. Se ficar mais do que o fim-de-semana, vale a pena fazer a maratona de museus que organizámos para tirar o Fundão da etiqueta de "só cerejas": dá para perceber que esta era uma vila com uma rede de mercadores judeus, com uma história de cripto-judaísmo profunda, com indústria de lanifícios e com uma camada de modernismo arquitectónico que escapa a quem só passa pela praça.

Ao fim do dia, se o tempo ajudar e se for romântico (ou estiver a fazer pose de tal), recomendo seriamente o passeio de vela ao pôr-do-sol na Barragem da Marateca. Não é a típica imagem que se associa ao interior de Portugal, e talvez por isso seja tão interessante. A barragem é grande, o silêncio é real, e a luz a esta época do ano, quando bate na água por volta das nove da noite, é de uma cor que justifica a viagem.

E se vier fora de Junho?

A cereja é Junho, ponto. Mas a Cova da Beira tem outra época mágica: Março e início de Abril, quando as cerejeiras florescem. É um espectáculo curtíssimo, sete a dez dias, e é preciso apanhar o momento certo. Para isso temos um guia dedicado, com mapa e indicações precisas para ver as cerejeiras em flor sem se perder no esquema turístico.

No Verão, depois das cerejas e antes das vindimas, o Fundão é uma base excelente para excursões: para a serra, para as aldeias de xisto a partir da Covilhã, num roteiro de um dia que se faz sem pressa, ou para o lado mais alto, o lado dos vales glaciares e dos poços de neve em Manteigas, onde a Serra da Estrela se leva mesmo a sério.

Como chegar e mover-se

De Lisboa: cerca de 2h45 de carro pela A23, saída Fundão. De Porto: cerca de 2h30 pela A25 e A23. De comboio: existem ligações da CP para o Fundão pela linha da Beira Baixa, mas confirme horários porque são limitadas. Para a Rota das Cerejas, carro é obrigatório. Não há transporte público útil entre as aldeias e os horários, quando existem, são incompatíveis com qualquer roteiro de um dia.

O conselho final

A Festa da Cereja do Fundão é exactamente o que parece: uma festa de província bem feita, com música, gente e fruta. Não é um festival gastronómico sofisticado, não é um evento que vai mudar a sua vida. É melhor do que isso: é a oportunidade rara, em 2026, de ver uma região agrícola portuguesa a celebrar-se a si própria sem ironia, sem encenação, sem destino-Instagram. Vá em Junho, compre cerejas a quem as apanhou, jante bem, beba mal, durma pouco. Volte em Setembro para o castanheiro, em Março para a flor, em Janeiro para a neve. Esta Cova da Beira dá para todas as estações, mas Junho é dela, e é difícil de bater.

Serra da Estrela Fundão Junho Cova da Beira Festa da Cereja Agroturismo