Cerejas do Fundão: Junho Doce na Cova da Beira
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Cerejas do Fundão: Junho Doce na Cova da Beira

· · Fundão

Em junho, o Fundão cheira a cereja: 80% da produção nacional vem destas encostas da Gardunha. Um guia prático para perceber a Saco da Burlat, comer bem, dormir descansado, e não falhar a Festa da Cereja.

Há um momento, algures entre a primeira semana e o fim de junho, em que o Fundão deixa de cheirar a primavera e passa a cheirar a cereja. Não é exagero literário: é a fruta a ser descarregada às toneladas no Mercado Municipal antes das 8h, é o sumo a escorrer das caixas de plástico nos bancos da feira, é o vermelho que tinge as mãos de quem prova uma na rua e fica agarrado a comprar um quilo. A Cova da Beira produz cerca de 80% das cerejas portuguesas, e em junho a cidade vive em função disso. Quem chega à procura de uma experiência rural pitoresca encontra outra coisa: uma economia inteira a funcionar em modo de colheita, com camiões frigoríficos a sair para Espanha e França às quatro da manhã.

Esta não é uma reportagem nostálgica sobre tradições campestres. É um guia prático para quem quer perceber porque é que esta cereja, em particular, custa o dobro da que se encontra no supermercado, onde a comer no auge do sabor, e o que fazer no Fundão durante os dias em que toda a região vibra a vermelho. Aviso desde já: se vier no primeiro fim de semana de junho à espera de uma cidade tranquila, esqueça. Reserve cama com antecedência ou prepare-se para dormir na Covilhã.

Porque é que a cereja do Fundão é diferente

A Cereja da Cova da Beira tem Indicação Geográfica Protegida desde 1996, o que significa que para usar o nome tem de vir mesmo daqui, das encostas da Serra da Gardunha entre os 400 e os 800 metros de altitude. Quem se interessa por estas coisas dirá que a combinação de solo granítico, amplitude térmica entre o dia e a noite, e exposição solar das encostas viradas a sudeste produz frutos com mais açúcar e firmeza do que a média. Quem só quer comê-la dirá que estala de outra maneira na boca.

As variedades dominantes são a Burlat (a primeira a sair, em finais de maio), a Saco (a verdadeira estrela local, de junho), a Sweetheart e a Lapins. Se for à feira pedir cerejas e o vendedor lhe perguntar "de qual?", saiba que a Saco é a que os locais comem em casa, mais escura, mais firme, com aquele sabor concentrado que faz com que dois quilos desapareçam num fim de semana sem ninguém perceber como. As Burlat são bonitas para fotografar, mas se vier no início do mês ainda não está no auge. Volte a meio de junho.

O preço, sem ilusões

Na época, espere pagar entre 4€ e 8€ por quilo nas feiras do Fundão, dependendo da variedade e do calibre. As de calibre maior (categoria extra) podem chegar aos 10€ se forem produção biológica. Sim, é mais caro do que no Continente, e há uma razão: o que está no supermercado a 2,99€ raramente é Cova da Beira, e mesmo quando é, foi apanhado dias antes e refrigerado. Aqui, compra a fruta que foi colhida ao amanhecer e que ainda tem a temperatura do campo. Vale a pena pagar a diferença. Compre dois quilos. Vai querer.

A Festa da Cereja: o evento que define o mês

A Festa da Cereja do Fundão acontece, regra geral, no primeiro ou segundo fim de semana de junho. Confirme as datas no site da Câmara Municipal antes de marcar viagem, porque o calendário varia ligeiramente conforme o ano agrícola. Durante três a quatro dias, a cidade enche-se de stands de produtores, restaurantes a servir menus temáticos, concertos no jardim, provas comentadas com agrónomos e produtores e, inevitavelmente, fila para tudo.

Conselho de quem já lá esteve várias vezes: vá ao mercado de manhã cedo, antes das 10h, antes de chegarem os autocarros de excursões. É quando se faz negócio a sério, quando ainda há toda a variedade disponível, e quando consegue falar com os produtores sem pressa. À tarde, a Praça Velha enche-se. À noite, há concertos, normalmente música popular e algumas atuações maiores que rodam pela região. Não espere Primavera Sound. Espere ranchos, bandas filarmónicas, alguma fadista convidada, e tudo isto a funcionar muito bem com um copo de vinho da Beira Interior na mão.

Para lá da festa: a cereja na mesa

Os restaurantes do Fundão entram em modo cereja durante junho. Esperem encontrar pratos como cabrito assado com molho de cereja, sobremesas de cereja (clafoutis aportuguesado, tartes, semifrios), licor de cereja servido como digestivo, e até versões mais ousadas como gaspacho de cereja em alguns sítios mais modernos. Pergunte sempre se a cereja é mesmo da região, porque infelizmente nem todos os estabelecimentos resistem a usar fruta importada quando os preços disparam.

Para o fim de noite, há a vida nocturna possível numa cidade desta dimensão. O Zona L Bar é o sítio para uma cerveja ou um gin tónico depois do jantar, com uma esplanada que enche assim que a temperatura desce. Não espere lounge sofisticado, é um bar de cidade pequena, mas tem ambiente, gente, e abre tarde o suficiente para acabar a noite com calma.

Onde dormir, e porque é que a reserva atempada não é negociável

O Fundão tem cama para uns milhares de pessoas, e durante a Festa da Cereja tudo está lotado. Não é exagero: comece a procurar em março se quiser apanhar o fim de semana grande. Para quem vem fora desses dias específicos, mesmo em junho ainda há disponibilidade, mas convém reservar com uma a duas semanas de antecedência.

Para casais ou viajantes que querem o conforto de um apartamento sem perder o pé na cidade, os Gardunha Apartments oferecem unidades modernas a poucos minutos do centro, ideais para quem fica três ou quatro noites e quer poder fazer um pequeno-almoço em casa antes de sair para as caminhadas matinais pelas cerejeiras. Quem prefere o charme rural com chão de madeira a ranger e janelas para a serra deve olhar para a Rustic House Fundão, uma opção com personalidade clara e um pequeno-almoço caseiro digno de menção. Para mochileiros, viajantes a solo, ou quem está a fazer roteiro pela Beira e só quer uma cama limpa a bom preço, as Casas da Mina Hostel resolvem a vida sem grandes complicações, com a vantagem de criar conversa com outros viajantes na cozinha comum.

O que fazer entre cerejas

Aproveitar o Fundão só pela fruta é desperdício. A região oferece o tipo de coisas que justificam uma estadia de três ou quatro dias, desde que se planeie minimamente.

Manhãs nas cerejeiras

Algumas quintas da região permitem visitas e colheita à mão (o chamado U-Pick), normalmente mediante marcação prévia. Pergunte no Posto de Turismo da Praça do Município, eles têm a lista atualizada e mudam de ano para ano. O melhor momento para ir é entre as 8h e as 10h, antes do calor apertar. Leve chapéu, água, e sapatos fechados, porque as ervas altas escondem o que escondem.

Para quem quer perceber o ciclo completo da cerejeira, vale a pena consultar o nosso guia sobre a floração das cerejeiras no Fundão, que cobre o outro momento do ano em que a Gardunha se transforma, em março e abril, quando tudo fica branco e rosa. É a outra cara desta mesma história: para haver cereja em junho, há flor em março. Vale a pena conhecer as duas estações.

Cultura para os dias mais quentes

Quando o termómetro passa dos 30 graus a meio da tarde (e em junho passa quase sempre), refugiar-se em museus deixa de ser cultura e passa a ser estratégia de sobrevivência. O Fundão tem alguns pequenos espaços museológicos espalhados pela cidade e pela região, e a nossa maratona de museus pelo Fundão traça um percurso que dá para fazer em meio dia, com paragens estratégicas para café e fresco.

Fim de tarde na água

A Barragem da Marateca, a poucos quilómetros da cidade, é o segredo mal guardado de quem vive aqui. Em junho, com os dias longos e o calor a apertar, há poucas coisas melhores do que estar na água ao fim do dia. A nossa proposta de passeio de vela ao pôr do sol na Marateca é uma experiência diferente da costa, mais íntima, mais silenciosa, e com aquela luz que só acontece sobre água doce. Reserve com antecedência, há poucos lugares disponíveis por sessão.

Roteiros para alargar a viagem

Se está no Fundão por três ou quatro noites, faça pelo menos um dia fora da cidade. A região tem distâncias curtas e paisagens que mudam radicalmente em meia hora de carro.

Uma opção é descer até às aldeias de xisto a sudoeste, um mundo completamente diferente do granito da Beira Interior. O nosso roteiro de um dia entre a Covilhã e as aldeias de xisto dá a moldura, e funciona bem como contraponto à intensidade da cidade durante a festa. Outra opção, mais para os amantes de serra e altitude, é apontar a norte até Manteigas, no Vale do Zêzere. O nosso guia de Manteigas e dos Poços de Neve cobre as melhores caminhadas e os miradouros que valem mesmo a pena, e em junho o contraste de estar de manhã a colher cereja a 500 metros e à tarde a 1500 metros junto a um lago glaciar é o tipo de coisa que define férias bem feitas.

Como chegar e como circular

De carro, o Fundão fica a cerca de 3h de Lisboa pela A23, e a 2h30 do Porto pela A24 e A23. É a maneira óbvia, e a única que faz sentido se quiser explorar a região. Em transporte público, há ligações de comboio (linha da Beira Baixa) e algumas carreiras de autocarro da Rede Expressos, mas para conhecer as quintas, a barragem, as aldeias vizinhas, vai precisar de carro mesmo.

Estacionar na cidade durante a Festa da Cereja é um exercício de paciência. Há parques periféricos com transfer para o centro nos dias de maior afluência. Se ficar no centro, escolha alojamento com lugar de estacionamento garantido, ou prepare-se para andar voltas.

O que levar de volta

Levar cerejas frescas para casa é tentador, mas tenha em conta que duram pouco. Compre no último dia da viagem, no mercado, à hora de fechar (negocia melhor), e leve em saco térmico se a viagem de regresso for longa. Em alternativa, há compotas, licores, chocolates de cereja, e cerejas em aguardente, todos com prazos de validade longos e que viajam bem. As compotas dos pequenos produtores locais são, regra geral, muito superiores às de marcas conhecidas, e custam entre 3€ e 5€ o frasco.

Há uma última coisa que se leva e que não cabe no saco: a noção de que esta fruta, este lugar, esta época, são uma daquelas combinações felizes em que o produto, a paisagem, e as pessoas se alinham durante três ou quatro semanas por ano. Em julho, o Fundão volta ao ritmo normal de cidade pequena da Beira. Em junho, é capital de qualquer coisa. Aproveite.

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