Esqueça o Algarve: Em Julho, as Praias São em Setúbal
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Esqueça o Algarve: Em Julho, as Praias São em Setúbal

· · Setúbal

Enquanto meio país sua na fila da EN125, a Praia dos Galapinhos, eleita em 2017 a mais bonita da Europa, espera a 45 minutos de Lisboa por quem estiver disposto a caminhar dez minutos. Este é o guia para trocar o Algarve de julho pela Arrábida sem se arrepender.

Há uma conversa que se repete em todas as esplanadas de Lisboa no final de junho. Alguém pergunta "então, Algarve este ano?" e a mesa inteira suspira. Porque todos sabemos o que isso significa: três horas de A2 com paragens, a EN125 transformada em parque de estacionamento, toldos a 25 euros por dia e uma toalha que fica a quarenta centímetros da toalha de uma família de Madrid. O Algarve em julho não é umas férias, é uma prova de resistência com protetor solar.

E no entanto, a 45 minutos de Lisboa, do outro lado da Ponte 25 de Abril, existe uma serra de calcário que cai direta para uma água tão turquesa que parece editada. Chama-se Arrábida, as praias pertencem a Setúbal, e a única razão pela qual ainda não estão completamente entupidas em julho é que a maioria das pessoas continua a fazer a peregrinação anual para sul sem questionar. Este artigo é sobre como aproveitar essa teimosia alheia.

O problema chama-se julho, não chama-se Algarve

Sejamos justos: o Algarve tem praias extraordinárias. O problema é que em julho toda a Europa sabe disso. A questão não é se o barlavento é bonito, é se vale a pena partilhá-lo com tanta gente ao mesmo tempo. A matemática das férias portuguesas é cruel: o mês em que mais gente pode ir à praia é exatamente o mês em que a praia menos vale a pena.

A Arrábida resolve parte da equação. Não porque esteja vazia, não está, e quem disser o contrário não lá foi num sábado de agosto. Mas porque o acesso é controlado, a escala é mais pequena e, sobretudo, porque dá para ir e voltar no mesmo dia sem hipotecar uma semana de férias. Sai de Lisboa às sete da manhã, está com os pés na água às oito, e ao final da tarde janta choco frito em Setúbal em vez de esperar uma hora por mesa em Albufeira.

A serra que cai no mar

O Parque Natural da Arrábida é uma cordilheira de calcário coberta de vegetação mediterrânica que termina abruptamente no Atlântico. O resultado são enseadas protegidas do vento norte, água invulgarmente calma e transparente para a costa oeste portuguesa, e areais encaixados entre falésias brancas. Quem vem do Algarve reconhece a paleta de cores. Quem vem da Costa da Caparica não acredita no que vê.

Praia da Figueirinha: a porta de entrada

A Praia da Figueirinha é a mais acessível e a mais familiar das três. É também a maior, com um areal generoso e, na maré baixa, uma língua de areia que avança pelo mar dentro e cria uma piscina natural de água morna onde as crianças podem andar dezenas de metros com água pela cintura. Tem apoio de praia, tem vigilância na época balnear, tem estacionamento relativamente perto quando o acesso de carro é permitido. É a escolha óbvia para quem vai com família, e a escolha errada para quem procura sossego ao meio-dia de um domingo de julho. A Figueirinha às nove da manhã de uma terça-feira e a Figueirinha às três da tarde de um sábado são dois lugares diferentes. Escolha o primeiro.

Praia dos Galapinhos: a recompensa para quem caminha

A Praia dos Galapinhos é outra conversa. Em 2017, o site European Best Destinations elegeu-a a praia mais bonita da Europa, e por uma vez a internet não exagerou. É uma enseada pequena, encostada à falésia, com a água mais limpa de toda a Arrábida e uma faixa de pinheiro e mato que desce até quase tocar na areia.

O preço de entrada é o esforço: chega-se a pé, por um trilho a partir das praias vizinhas, e não há apoio de praia nenhum. Isto significa três coisas práticas. Primeiro, leve água, mais do que acha que precisa, porque o regresso é a subir e em julho o sol não perdoa. Segundo, leve sombra própria, um chapéu de sol ou uma tenda baixa, porque a falésia só dá sombra ao final da tarde. Terceiro, leve o lixo de volta consigo, porque não há caixotes e a praia está dentro de um parque natural. O lado bom da inexistência de infraestrutura é que filtra as multidões de forma natural. Quem não está disposto a caminhar fica na Figueirinha, e os Galapinhos agradecem.

Praia do Creiro: o meio-termo inteligente

Entre as duas, a Praia do Creiro é a escolha de quem já fez os trabalhos de casa. Tem areal amplo, água tão calma como a das vizinhas e acesso mais simples do que os Galapinhos, mas atrai menos gente do que a Figueirinha. Bónus para quem gosta de história: mesmo atrás da praia ficam as ruínas de uma estação arqueológica romana ligada à salga de peixe, prova de que há dois mil anos já alguém tinha percebido que este troço de costa era especial. O Creiro também funciona como base para chegar aos Galapinhos a pé, o que faz dele o ponto de partida ideal para um dia de duas praias: manhã no Creiro, caminhada e tarde nos Galapinhos.

Como evitar as multidões: a parte séria

Agora a logística, porque é aqui que a maioria das pessoas falha. No verão, o acesso automóvel à estrada das praias da Arrábida é condicionado, precisamente para evitar o caos que estas enseadas pequenas não aguentam. Em vez de lutar contra isso, use o sistema a seu favor:

  • Vá de manhã cedo. Antes das nove, em qualquer dia da semana, tem estacionamento, tem areal e tem aquela luz rasante sobre a água que justifica a viagem sozinha. Ao meio-dia de sábado, não tem nada disto.
  • Use o autocarro de verão. Na época balnear há habitualmente um serviço de transporte a partir de Setúbal para as praias, criado exatamente por causa das restrições de trânsito. Confirme horários e paragens localmente antes de ir, porque mudam de ano para ano.
  • Prefira dias úteis. Parece óbvio, mas a diferença entre uma quarta-feira e um sábado de julho na Arrábida não é de grau, é de espécie. Se só pode ir ao fim de semana, vá ao domingo de manhã e saia da praia às 13h, quando os outros chegam.
  • Considere chegar por mar. Há operadores em Setúbal que fazem passeios de barco ao longo da costa da Arrábida. Ver as falésias do mar resolve o problema do estacionamento e ainda oferece a melhor perspetiva sobre a serra.

Quando o sol baixa: golfinhos, choco frito e um copo bem servido

E aqui está a verdadeira vantagem de Setúbal sobre o Algarve: o que acontece quando sai da praia. No estuário do Sado vive uma das poucas populações residentes de roazes da Europa, e ver os golfinhos do Sado a partir de um barco que sai do centro de Setúbal é o tipo de experiência que normalmente exige voos e resorts, não uma tarde livre a uma hora de Lisboa. Reserve com antecedência em julho e confirme preços com o operador.

Se prefere binóculos a barbatanas, o estuário é também um dos grandes territórios de aves do país, com flamingos incluídos em certas alturas do ano. O birdwatching no estuário do Sado funciona melhor ao início da manhã ou ao fim da tarde, o que encaixa na perfeição com um dia de praia a meio.

Quanto à comida, a regra é simples: em Setúbal come-se choco frito. É o prato da cidade, frito no momento, servido com batata frita e limão, e qualquer tasca honesta perto do Mercado do Livramento o faz bem. O próprio mercado, já agora, merece a visita matinal: a banca do peixe é das mais impressionantes do país. Para a sobremesa e para o copo, a região responde com queijo de Azeitão, tortas de Azeitão e moscatel de Setúbal, o vinho generoso que as adegas da zona produzem há gerações.

E quando quiser sentar-se com uma bebida na mão depois do duche e do sal, aponte o Stichini Bar para fechar o dia. Um copo ao fim da tarde em Setúbal, com a pele ainda quente da praia, vale mais do que qualquer rooftop sobrelotado do Algarve em julho.

O plano, em resumo

Carro ou comboio até Setúbal na véspera, ou saída de Lisboa antes das oito da manhã. Manhã na Creiro ou na Figueirinha se levar crianças. Caminhada até aos Galapinhos com água e chapéu. Saída da praia a meio da tarde, golfinhos no Sado ou mercado e choco frito, copo no Stichini ao anoitecer. Se a escapadela fizer parte de uns dias maiores na região de Lisboa, aproveite para explorar também a capital com calma, e para isso o nosso guia sobre a cultura local em Lisboa é um bom ponto de partida.

O Algarve continua lá, e em setembro, quando as multidões desaparecem, voltará a valer cada quilómetro. Mas em julho, faça as contas: menos estrada, menos gente, água igual ou melhor, golfinhos no fim do dia. Setúbal não precisa de ganhar ao Algarve em tudo. Em julho, basta-lhe ganhar.

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