Setúbal: Choco Frito e a Crueza Autêntica do Sado
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Setúbal: Choco Frito e a Crueza Autêntica do Sado

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Setúbal não pede desculpa pela sua crueza. Entre o aroma a sardinha assada na Baixa e o caos fascinante do Mercado do Livramento, descobrimos uma cidade que é o antídoto perfeito para a Lisboa turística. Prepare o estômago para o melhor choco frito do mundo e o olhar para a imensidão azul da Arrábida.

A Chegada: Onde o Tejo dá Lugar ao Sado

Esqueça a entrada triunfal pelos Jerónimos ou a descida suave pelas colinas de Alfama. Chegar a Setúbal exige outra disposição de espírito. Se vier de comboio, atravessando a Ponte 25 de Abril, a paisagem transforma-se: o casario denso de Lisboa dissolve-se nos pinhais da Margem Sul até que, subitamente, o horizonte abre-se para o Estuário do Sado. À esquerda, a zona industrial com as suas chaminés e guindastes; à direita, a imponência verde da Serra da Arrábida. É este contraste, o brutalismo produtivo e a beleza natural absoluta, que define o carácter desta cidade. Setúbal não é uma vila cenográfica para turistas; é uma cidade que trabalha, que cheira a gasóleo e a maresia, e que se orgulha de cada cicatriz que o tempo lhe deixou.

Enquanto muitos viajantes utilizam a cidade apenas como um cais de embarque para as praias de Tróia ou como uma paragem rápida antes de rumarem ao Algarve, quem decide ficar descobre uma densidade urbana que falta a muitos destinos mais "limpos". É um ambiente que contrasta fortemente com o que se encontra no Guia de Bairros de Sintra, onde o romantismo domina cada esquina. Em Setúbal, o romantismo é substituído por uma honestidade desarmante. Aqui, o luxo não está no dourado das talhas, mas na frescura de um carapau acabado de sair da rede.

O Mercado do Livramento: O Altar do Peixe

Qualquer exploração séria de Setúbal tem de começar, obrigatoriamente, no Mercado do Livramento. Esqueça o Time Out Market ou qualquer outra tentativa moderna de gourmetizar a experiência de mercado. O Livramento, inaugurado em 1930, é uma catedral funcional. Mal se entra, os olhos são atraídos pelos enormes painéis de azulejos que narram a história da agricultura e da pesca na região, mas o nariz rapidamente toma o controlo. O cheiro é de mar vivo. Centenas de bancas exibem o que de melhor o Sado e o Atlântico oferecem: chocos com a tinta ainda fresca, sardinhas prateadas, polvos massajados e espécies de águas profundas que parecem saídas de um filme de ficção científica.

A dinâmica aqui é ruidosa. As peixeiras de Setúbal são lendárias pela sua voz e pelo seu humor cáustico. Se ficar parado a obstruir a passagem, vai ouvir um comentário seco. É neste teatro diário que se percebe a diferença entre visitar um monumento e viver uma cidade. No Livramento, a comida é levada a sério. Se quiser levar um pedaço de Setúbal consigo, procure os queijos de Azeitão ou o mel da Arrábida nas bancas laterais, mas o verdadeiro espetáculo acontece no corredor central. O mercado fecha às segundas-feiras, um erro comum para quem planeia mal a viagem, e o melhor horário é entre as 8h e as 10h da manhã, quando a seleção é vasta e a energia está no auge. Um café rápido num dos balcões periféricos, acompanhado por um pastel de Setúbal (uma variante local com doce de laranja), custar-lhe-á pouco mais de 2 euros e dá-lhe o bilhete de primeira fila para este caos organizado.

A Baixa e a Fonte Nova: Ruelas com História

Saindo do mercado e caminhando para este, em direção à Avenida Luísa Todi, entramos na Baixa. É uma área que tem sofrido uma renovação lenta, mas que mantém um equilíbrio precário entre as lojas tradicionais de ferragens e os novos cafés de especialidade. Ao contrário da Cultura Local em Lisboa, que por vezes parece sitiada pela gentrificação, Setúbal mantém os seus vizinhos a conversar à janela em ruas como a Rua Arronches Junqueiro. Aqui, a arquitetura é uma mistura de edifícios do século XVIII e intervenções modernistas, muitas vezes com fachadas de azulejos que mereciam mais atenção do que recebem.

Mais a norte, o Bairro da Fonte Nova oferece uma visão do passado piscatório da cidade. É um labirinto de ruas estreitas onde o fado se ouve casualmente vindo de uma rádio numa cozinha aberta. Não procure aqui grandes museus; o interesse está nos pequenos detalhes, como os santuários improvisados nas fachadas ou os vasos de sardinheiras que sobrevivem ao calor do verão. É uma zona para caminhar sem pressas, observando como a luz reflete no calcário das calçadas. Se tiver fome, evite os menus turísticos com fotos de comida na Avenida e procure as tabernas escondidas nestas ruelas. Um prato de amêijoas ou de cadelinhas, partilhado com uma cerveja gelada, é o prelúdio perfeito para o prato principal que define a cidade.

O Ritual do Choco Frito

Não se pode falar de Setúbal sem falar de Choco Frito. É mais do que um prato; é uma instituição religiosa. Mas atenção: nem todo o choco frito é criado da mesma forma. O segredo está na frescura do molusco, na espessura do polme e na temperatura do óleo. O choco deve ser macio por dentro, sem vestígios de borracha, e a crosta deve ser crocante e não gordurosa. Locais como o Leo do Choco ou a Adega Leo do Petisco são pontos de peregrinação. Prepare-se para esperar por uma mesa, especialmente aos fins de semana. O serviço é rápido, eficiente e muitas vezes brusco, faz parte do charme. Uma dose para duas pessoas, acompanhada de batatas fritas e uma salada de tomate com orégãos, ronda os 25 a 30 euros nos locais mais autênticos.

Para acompanhar, a única escolha lógica é um vinho da região. O Moscatel de Setúbal é mundialmente famoso, mas reserve-o para o final da refeição ou para acompanhar uma sobremesa. Durante o almoço, um branco seco das encostas da Arrábida, com a sua acidez vibrante e notas minerais, corta perfeitamente a fritura do choco. É nestes momentos que se percebe que a gastronomia de Setúbal não tenta impressionar com técnicas moleculares; baseia-se na qualidade brutal da matéria-prima.

O Contraponto Azul: A Arrábida

Depois de mergulhar na energia urbana da cidade, a Serra da Arrábida funciona como um bálsamo. É o jardim vertical de Setúbal. A estrada que serpenteia a encosta oferece algumas das vistas mais dramáticas do país, onde o verde mediterrânico encontra um mar que alterna entre o azul-turquesa e o esmeralda profunda. Muitos chegam aqui vindos de outros lados, como sugerido em Passeios de Um Dia a Partir de Cascais, mas quem sai de Setúbal tem a vantagem da proximidade imediata.

A Praia da Figueirinha é a mais acessível e popular, ideal para quem viaja com família devido ao seu extenso areal e águas calmas. No entanto, se preferir algo mais recôndito (embora raramente esteja vazia no verão), a Praia dos Galapinhos foi já eleita a mais bonita da Europa e basta olhar para a transparência da água para perceber porquê. O acesso é feito por trilhos íngremes, o que desencoraja os menos preparados. Um pouco mais à frente, a Praia do Creiro oferece não só uma baía deslumbrante, mas também a Pedra da Anixa e vestígios arqueológicos de uma fábrica romana de salga de peixe, lembrando-nos que a ligação desta região ao mar tem milénios. No verão, o acesso de carro é restrito; utilize os autocarros vaivém que partem de Setúbal para evitar multas pesadas e dores de cabeça com o estacionamento.

Setúbal: O Veredito de Quem Sabe

Setúbal não é para todos. Não é para quem procura ruas imaculadas e lojas de luxo uniformizadas. É uma cidade para quem gosta de descobrir camadas de história por baixo de uma fachada por vezes decadente. É para quem aprecia o peixe grelhado no carvão no meio da rua, para quem quer ver os golfinhos residentes do Sado a brincar perto do ferry, e para quem sabe que a melhor vista não é a de um miradouro pago, mas a do Forte de São Filipe ao pôr do sol, com um copo de Moscatel na mão.

A cidade está a mudar, sim. Há novos hotéis de design e restaurantes que tentam elevar a cozinha regional. Mas enquanto o Mercado do Livramento continuar a ditar o ritmo das manhãs e o choco frito continuar a ser o prato nacional da península de Setúbal, a identidade da cidade estará segura. Venha com apetite, traga sapatos confortáveis para a calçada e deixe os preconceitos em Lisboa. Setúbal não precisa de o convencer; ela simplesmente existe, bruta e bela, à espera que a saiba ver.

Informações Práticas:

  • Como chegar: Comboio Fertagus de Sete Rios ou Roma-Pragal (cerca de 50 min) ou autocarro direto de Lisboa (Praça de Espanha ou Gare do Oriente).
  • Melhor altura: De abril a outubro para aproveitar as praias, mas o inverno tem a vantagem de não haver filas para o choco frito.
  • Custo médio: Um dia em Setúbal, incluindo transporte, almoço farto e alguns petiscos, fica por cerca de 40-50 euros por pessoa.
  • Não perca: O Convento de Jesus, um exemplo magnífico do estilo manuelino, muitas vezes esquecido nos roteiros tradicionais.
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