Setúbal a Pé: Do Mercado do Livramento ao Troino
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Setúbal a Pé: Do Mercado do Livramento ao Troino

· · Setúbal

Setúbal não é apenas a irmã operária de Lisboa; é um destino gastronómico e cultural vibrante que exige ser explorado a pé, do Mercado do Livramento às tabernas do Troino.

Setúbal: O Antídoto para a Lisboa Decorada

Esqueça a versão higienizada de Portugal que vê nos postais de Belém. Setúbal não está aqui para ser bonita para si; está aqui para trabalhar, para pescar e para comer melhor do que em qualquer outro lugar na costa central. Enquanto a capital se debate com a gentrificação, Setúbal mantém-se teimosamente autêntica, com o cheiro a maresia e a gasóleo dos barcos a pairar na Avenida Luísa Todi. Se a Cultura Local em Lisboa se tornou por vezes um espetáculo para turistas, em Setúbal a cultura é, acima de tudo, uma questão de sobrevivência e orgulho local.

Caminhar por Setúbal exige bons sapatos e uma falta de pressa deliberada. Não é uma cidade de grandes monumentos isolados, mas de bairros que funcionam como ecossistemas. O segredo para entender esta terra não é olhar para as fachadas, mas observar as mãos das mulheres que limpam o peixe no mercado ou ouvir o sotaque fechado dos homens que bebem o seu Moscatel às onze da manhã no Largo da Fonte Nova. É uma cidade de contrastes: o betão brutalista de alguns prédios dos anos 70 convive com o manuelino refinado do Convento de Jesus.

O Mercado do Livramento: Onde o Dia Começa

Qualquer exploração séria de Setúbal tem de começar no Mercado do Livramento às oito da manhã. Esqueça o pequeno-almoço no hotel. Vá direto para este edifício art déco, onde as paredes estão cobertas por mais de cinco mil azulejos que narram a história da cidade. Mas não se distraia demasiado com a arte; o verdadeiro espetáculo está nas bancas de mármore. Este foi considerado um dos melhores mercados de peixe do mundo por publicações internacionais, e não é difícil perceber porquê. O brilho das escamas do robalo, a cor vibrante dos pargos e a montanha de choco fresco, o rei da gastronomia local, são de uma crueza fascinante.

Observe como os locais compram. Há um código de conduta: não se toca no peixe, pergunta-se o preço por quilo e aceita-se a recomendação da vendedora. Depois das compras, faça como os setubalenses: tome um café curto num dos quiosques exteriores e veja a cidade acordar. O mercado é o barómetro de Setúbal; se o mar esteve agitado na noite anterior, as bancas estão mais vazias e o humor dos vendedores mais sombrio. É aqui que se sente o pulsar real desta península.

Troino e Fonte Nova: O Coração Salgado

Saindo do mercado e caminhando para oeste, entra-se no Troino. Este é o bairro dos pescadores por excelência. As ruas são estreitas, as casas pequenas e a roupa estendida nas janelas funciona como um dossel colorido sobre quem passa. Aqui, o cheiro a sardinha assada é uma constante entre maio e setembro. É o lugar perfeito para se perder sem mapa. Procure a Rua Álvaro Castelões, que atravessa a zona histórica, mas não tenha medo de se desviar para as travessas onde as portas estão abertas e se ouve a rádio a tocar fado ou notícias locais.

O destino final nesta zona deve ser o Largo da Fonte Nova. Durante décadas, esta praça foi o centro da vida social dos operários das conservas e dos pescadores. Hoje, é um dos lugares mais agradáveis para almoçar ao ar livre. Onde comer o famoso choco frito? Há uma guerra religiosa sobre este tema. O Leo do Petisco é uma instituição, mas prepare-se para as filas. Se quiser algo menos concorrido mas igualmente genuíno, explore as pequenas adegas nas ruas adjacentes. Um dose de choco frito com batata frita e salada custa cerca de 12 a 15 euros e alimenta facilmente duas pessoas. O segredo está na frescura do choco e na fritura em óleo bem quente, sem excesso de polme.

A Baixa e a Sombra de Bocage

Regressando ao centro, a Baixa de Setúbal oferece uma experiência diferente. A Praça do Bocage é o salão de visitas da cidade. Manuel Maria Barbosa du Bocage, o poeta satírico e mestre do improviso, observa tudo do alto da sua estátua no centro da praça. Setúbal revê-se na irreverência de Bocage; a cidade tem esse mesmo espírito desafiador. As esplanadas aqui são perfeitas para ver passar a gente, mas os preços são ligeiramente superiores aos do Troino.

Perca-se nas ruas pedonais que saem da praça. A Rua da Saboeira e a Rua Direita são exemplos de como o comércio tradicional ainda resiste. Aqui encontra sapatarias de antigamente, retrosarias e lojas de ferragens que parecem congeladas no tempo. É nesta zona que deve procurar o doce local: as Tortas de Azeitão (embora originárias da vila vizinha, Setúbal adotou-as como suas) ou os Esses de Azeitão, perfeitos para acompanhar um Moscatel de Setúbal. Uma taça deste vinho generoso no final da tarde é obrigatória. Procure a Casa da Cultura para uma dose de programação cultural contemporânea num edifício recuperado com gosto.

Bairro Salgado: A Elegância da Decadência

Para um contraste total com a rusticidade do Troino, suba até ao Bairro Salgado. Desenvolvido no final do século XIX e início do XX, este era o bairro da burguesia ligada à indústria conserveira. Aqui as ruas são mais largas, as árvores dão uma sombra generosa e as fachadas estão cobertas de azulejos arte nova e românticos. É uma zona residencial silenciosa, onde se sente uma Setúbal mais melancólica e elegante.

Caminhe pela Rua General Daniel de Sousa e admire os palacetes. Muitos estão a ser recuperados, mas a beleza do Bairro Salgado reside precisamente naquelas casas que ainda mantêm a pátina do tempo. É o lugar ideal para um passeio ao fim da tarde, longe da confusão da zona ribeirinha. Se tiver fome, o Restaurante O Ramila, ali perto, é conhecido pelas suas carnes grelhadas e pelo peixe sempre fresco, fugindo ao monopólio do choco frito.

A Escapadela Necessária: Arrábida e as Praias

Embora este guia se foque na cidade a pé, é impossível falar de Setúbal sem mencionar a Serra da Arrábida. A montanha mergulha diretamente no mar, criando um microclima único. Se tiver pernas, pode caminhar pela estrada costeira a partir do Forte de São Filipe, mas o ideal é apanhar o autocarro ou um táxi para as praias. A Praia da Figueirinha é a mais acessível e familiar, com um areal extenso que permite longas caminhadas à beira-mar.

Para quem procura algo mais recôndito, a Praia dos Galapinhos foi eleita a mais bonita da Europa há uns anos e, embora tenha perdido algum sossego com a fama, continua a ser um espetáculo visual de águas azul-turquesa. Logo ao lado, a Praia do Creiro oferece não só um mergulho refrescante mas também a oportunidade de visitar as ruínas de uma antiga fábrica de salga de peixe romana, provando que Setúbal vive do mar há mais de dois mil anos.

Dicas Práticas para o Viajante

Como chegar: A melhor forma de chegar a Setúbal a partir de Lisboa é o comboio da Fertagus (saídas de Roma-Areeiro, Entrecampos ou Sete Rios). A viagem demora cerca de 50 minutos e custa menos de 5 euros. A estação de comboios fica a 15 minutos a pé do centro histórico.

Quando ir: Evite as segundas-feiras, pois o Mercado do Livramento está fechado e muitos restaurantes de peixe também não abrem por não haver peixe fresco. O sábado de manhã é o dia mais vibrante.

O que evitar: Não peça peixe grelhado em restaurantes que não tenham grelhador a carvão à vista. O choco frito congelado é um pecado mortal que alguns estabelecimentos mais turísticos cometem, pergunte sempre se é fresco.

Setúbal não pede desculpa pelo que é. É uma cidade com arestas, com cheiros fortes e com uma identidade que se recusa a ser moldada pelos algoritmos das redes sociais. Se vier com espírito aberto e apetite, Setúbal vai revelar-se não como uma paragem rápida a caminho do Algarve, mas como um destino com uma densidade que poucas cidades em Portugal ainda conservam.

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