Setúbal: Choco Frito, Arrábida e Como Gastar Pouco
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Setúbal: Choco Frito, Arrábida e Como Gastar Pouco

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Setúbal não se penteia para as visitas, e é aí que reside o seu valor. Descubra como comer o melhor choco frito no Bairro do Troino e aceder às águas cristalinas da Arrábida sem gastar uma fortuna em estacionamento ou tours de luxo.

O Sal, o Diesel e a Primeira Impressão

Chegar a Setúbal de comboio é um exercício de paciência e observação. Esqueça a entrada triunfal em Lisboa ou o charme cenográfico das vilas da Linha de Cascais. Aqui, o Fertagus atravessa o Tejo, mas depois mergulha num cenário de sapais, guindastes industriais e armazéns que não pedem desculpa por existir. Setúbal não é uma cidade que se penteia para receber visitas. É uma cidade que cheira a sal, a gasóleo de barco e, invariavelmente, a choco frito. E é precisamente essa honestidade bruta que a torna o destino perfeito para quem quer a experiência real de Portugal sem ter de vender um rim para pagar o almoço.

Enquanto em muitos destinos o "baixo custo" significa comer sandes mofadas num banco de jardim, em Setúbal o orçamento reduzido é o bilhete de identidade dos locais. Se souber para onde olhar, consegue passar um dia inteiro a comer como um rei, a nadar em águas que fariam inveja às Caraíbas e a sentir o pulso de uma comunidade piscatória que ainda não foi higienizada pelo turismo de massas. Ao contrário do que acontece quando planeia Passeios de Um Dia a Partir de Cascais: Os Melhores Destinos, onde a conta final costuma subir com a mesma rapidez da maré, Setúbal permite-lhe manter a carteira fechada e o espírito saciado.

A Catedral do Peixe: Mercado do Livramento

O seu dia tem de começar no Mercado do Livramento. Esqueça o pequeno-almoço no hotel. Às oito da manhã, a Avenida Luísa Todi já está acordada, mas o coração bate forte é dentro deste edifício de 1930. Não se deixe distrair apenas pelos painéis de azulejos que contam a história da faina; foque-se no gelo. Setúbal tem, sem grande margem para debate, um dos melhores mercados de peixe do mundo. Não é uma hipérbole de folheto turístico; é o resultado geográfico de ter o Sado de um lado e o Atlântico do outro.

O truque para quem quer poupar? Não venha apenas ver. Procure as bancas de pão da região, o pão de Setúbal tem uma crosta dura e um miolo que aguenta o que lhe puserem em cima, e compre um queijo de Azeitão pequeno. Por menos de cinco euros, tem um banquete. Observe as peixeiras; o espetáculo de facas a voar e o vernáculo carregado faz parte da experiência. Se quiser levar uma recordação comestível, as conservas locais são baratas e infinitamente superiores a qualquer íman de frigorífico fabricado na China.

A Logística da Arrábida: O Carro é o Seu Inimigo

Aqui é onde a maioria dos turistas erra e gasta o que não tem. Tentar levar um carro para as praias da Arrábida no verão é uma forma refinada de tortura e um atentado ao orçamento (as multas de estacionamento são o prato do dia). A solução inteligente, e a única que recomendo, é o autocarro da Carris Metropolitana. Por pouco mais de dois euros, o autocarro 448 ou 444 tira-o do centro da cidade e deposita-o na areia.

A primeira paragem obrigatória é a Praia da Figueirinha. É a mais acessível e a maior, o que significa que tem espaço para estender a toalha sem ficar com o pé do vizinho na orelha. A água é de um azul impossível, protegida pela serra, o que faz com que não haja ondas. É um lago de água salgada. Se tiver energia, pode caminhar na maré baixa até aos bancos de areia. É grátis e a vista para a Península de Tróia é melhor do que qualquer postal.

Para quem prefere algo mais recôndito, a Praia dos Galapinhos já foi eleita a melhor da Europa, e embora isso tenha trazido multidões, continua a valer a descida íngreme. O segredo é ir cedo, antes das 10h. O custo aqui é apenas o esforço físico das pernas. Leve água e comida do mercado; os bares de praia na Arrábida cobram preços de Saint-Tropez por uma sanduíche de fiambre medíocre.

O Almoço: O Dogma do Choco Frito

Não se pode vir a Setúbal e não comer choco frito. Seria como ir a Roma e ignorar o Papa. Mas há regras. Fuja dos restaurantes com fotos de comida à porta na Luísa Todi. O verdadeiro setubalense vai para as ruas estreitas do Bairro do Troino. Procure lugares com toalhas de papel e onde o vinho da casa venha num jarro de barro.

Uma dose de choco frito para dois, acompanhada de batata frita e uma salada de alface com orégãos, não deve custar mais de 25 euros com bebidas incluídas. O choco deve ser macio, não elástico, e o polme deve estar seco e crocante. Se lhe servirem algo que parece uma borracha frita, levante-se e saia. Acompanhe com um Moscatel de Setúbal no final. É doce, forte e resume o sol da região num copo pequeno. Comparando com a Cultura Local em Lisboa: Tradições, Bairros e Alma Lisboeta, onde o fado e os petiscos se tornaram por vezes uma encenação cara, em Setúbal o serviço é direto, rápido e desprovido de salamaleques.

Cultura de Borla e Vistas de Milhão

Depois do almoço, o corpo pede inércia, mas a carteira agradece o movimento. Suba até à Fortaleza de São Filipe. Pode ir a pé se estiver em forma, ou apanhar um táxi/Uber por uns 5 euros. A entrada na fortaleza é gratuita. A vista lá de cima, com o contorno da Arrábida a mergulhar no mar e a cidade espalhada aos seus pés, é o melhor negócio da cidade. Há uma pequena capela revestida de azulejos no interior que é um tesouro silencioso.

Se preferir ficar ao nível do mar, a Casa da Baía é um centro cultural instalado num antigo recolhimento do século XVIII. O pátio interior é um dos lugares mais agradáveis da cidade para ler um livro ou simplesmente ver o tempo passar. É aqui que percebe a diferença entre esta cidade e o que encontra no Guia de Bairros de Sintra: Descubra Cada Recanto da Vila Encantada. Em Sintra, tudo é vertical e gótico; em Setúbal, tudo é horizontal, marítimo e banhado por uma luz branca que cega se não tiver óculos de sol.

O Sado e o Truque do Ferry

Muitas pessoas gastam 40 ou 50 euros em passeios de barco para ver os golfinhos roazes do Sado. É uma experiência fantástica, mas se o orçamento é curto, há um truque de insider: o ferry para Tróia. Por menos de 10 euros (ida e volta), faz a travessia do estuário num barco grande e lento. Mantenha os olhos fixos na água; os golfinhos não sabem que não pagou o tour de luxo e aparecem frequentemente ao lado do ferry. Mesmo que não apareçam, a vista da Praia do Creiro ao longe e o perfil da serra compensam cada cêntimo.

Ao regressar, perca-se na Rua Álvaro Castelões. É a rua do comércio tradicional, onde ainda sobrevivem lojas que vendem botões, linhas e sapatos de couro que duram uma vida. É o antídoto perfeito para os centros comerciais genéricos. Setúbal não precisa de artifícios para o convencer. No final do dia, com os bolsos ainda pesados e a pele a saber a sal, vai perceber que o luxo aqui não é o que se compra, mas a liberdade de não ter de comprar nada para se sentir parte do lugar.

Dicas Práticas para o Viajante Económico:

  • Transporte: Use o passe Navegante se o tiver (cobre o comboio e os autocarros Carris Metropolitana). Se não, compre o bilhete de autocarro a bordo, mas sai mais barato se carregar o cartão recarregável.
  • Quando ir: Evite os fins de semana de agosto se odeia multidões. Setúbal em maio ou setembro é o paraíso na terra.
  • Comer: No Bairro do Troino, procure restaurantes como o "Adega do Zé" ou similares. Se houver fila de locais, é porque é bom.
  • Água: A água da torneira em Setúbal é perfeitamente potável. Encha a sua garrafa antes de ir para a Arrábida e poupe 2 euros por garrafa.
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