Beja Quando Chove: Refúgios Indoor Que Valem a Pena
A chuva no Alentejo é rara mas, quando cai sobre Beja, transforma a cidade num sítio diferente, mais lento e mais verdadeiro. Da Pousada do Convento aos azulejos do Museu Rainha D. Leonor, da migas com entrecosto à luz cor de mel ao fim da tarde: o guia honesto para um dia que noventa por cento dos turistas perdem.
A chuva no Alentejo é um acontecimento meteorológico raro o suficiente para fazer manchete no café da esquina. Quando cai em Beja, cai com convicção: aquele tipo de aguaceiro horizontal que transforma a Praça da República num espelho cinzento e manda toda a gente para dentro de portas. A boa notícia é que Beja, contra todas as expectativas turísticas, sabe receber o mau tempo. A má notícia é que metade dos visitantes desiste e foge para Lisboa. Erro deles.
Este guia é para quem fica. Para quem percebe que uma cidade revelada na chuva, com as ruas vazias e os museus quase só para si, é uma cidade diferente, melhor até. Há trezentos dias de sol por ano em Beja, mas os outros sessenta e cinco são quando os locais respiram, quando os cafés enchem de conversa lenta, quando o Alentejo deixa de ser postal e passa a ser sítio.
Primeiro: onde dormir quando lá fora cai o dilúvio
Antes de mais, uma confissão: passar um dia de chuva em Beja sem alojamento decente é um exercício de masoquismo. Precisa de uma base. Não para se esconder, mas para entrar e sair, secar as botas, beber um chá, voltar a sair.
A escolha óbvia, e por uma vez a óbvia é a certa, é a Pousada Convento de Beja, instalada no antigo Convento de São Francisco do século XIII. Não é apenas pelo prestígio do nome Pousada: é porque um claustro coberto, com a chuva a bater nas pedras lá fora e o cheiro a café a vir do bar interior, é literalmente o cenário mais alentejano possível para um dia molhado. Peça um quarto que dê para o claustro, não para a rua. A diferença de paisagem justifica os vinte ou trinta euros extra.
Para quem prefere algo menos institucional, a Maria's Guesthouse é a alternativa que recomendo a quem viaja em casal ou sozinho. É uma casa pequena, com o pequeno-almoço servido à mesa de cozinha, e a Maria, se a apanhar de bom humor, dá-lhe dicas sobre Beja que não estão em guia nenhum, este incluído. Reserve com antecedência, são poucos quartos.
O Castelo e a Torre de Menagem: subir mesmo na chuva
Vou ser polémico: a Torre de Menagem do Castelo de Beja é melhor na chuva do que ao sol. Calma, deixe-me explicar.
A torre, com os seus quase quarenta metros, é a mais alta de Portugal e foi mandada erguer por D. Dinis. Em Agosto, com trinta e oito graus à sombra, subir os duzentos e tal degraus de pedra é uma punição. Em Janeiro ou Fevereiro, com a chuva miudinha lá fora, é uma experiência completamente diferente: a planície estende-se cinzenta e infinita, os campos de oliveiras parecem aguarela borrada, e o vento bate-lhe na cara de uma forma que faz sentido. Use sapatos com sola de borracha. As escadas em caracol ficam escorregadias.
A entrada custa poucos euros e o castelo abre tipicamente das 10h às 18h, mas confirme localmente porque os horários variam por estação. À saída, atravesse a praça e refugie-se no Núcleo Visigótico, instalado na pequena Igreja de Santo Amaro, uma das poucas igrejas pré-românicas que sobreviveram em Portugal. É minúscula, vê-se em vinte minutos, mas as colunas com capiteis bizantinos, daquelas que parecem ter saído directas do século VII, valem o desvio.
O museu que ninguém espera: Rainha D. Leonor
O Museu Regional de Beja, conhecido como Museu Rainha D. Leonor, está instalado no antigo Convento da Conceição, e é, sem rodeios, um dos museus mais subestimados do país. A sala dos azulejos é o que toda a gente vai ver, e tem razão para isso: é uma das mais completas colecções de azulejaria mudéjar e hispano-árabe em Portugal, com peças do século XV ao XVII em paredes inteiras, do chão ao tecto.
Mas o que ninguém lhe diz é que deve ir directo à chamada Janela de Mértola. É a janela manuelina onde, segundo a tradição, Mariana Alcoforado, a freira que escreveu as Cartas Portuguesas, esperava o seu cavaleiro francês, Noel Bouton de Chamilly. As Cartas, publicadas em Paris em 1669, são consideradas por muitos o primeiro romance epistolar da literatura europeia. Verdade ou lenda, ficar ali, com a chuva a escorrer pela pedra rendilhada, é uma boa razão para perder meia hora.
O museu costuma estar fechado às segundas. Confirme antes de ir. A entrada é barata, à volta dos dois ou três euros.
Cafés onde se passa o dia (sem ninguém olhar de lado)
O grande talento alentejano é a cadeira de café. Em Beja, num dia de chuva, este talento eleva-se a arte. Há regras tácitas: pede-se um café e um pastel, fica-se duas horas, ninguém o expulsa. É assim que funciona.
O Café Luiz da Rocha, na Rua Capitão João Francisco de Sousa, é uma instituição. Existe desde 1893 e o interior, com balcão de madeira escura e vitrines de doçaria conventual, é uma cápsula do tempo que não tem nada de cenográfico, é simplesmente assim que sempre foi. Peça uma queijada de Beja ou um trouxa de ovos. Beba uma bica. Não peça cappuccino. Por favor.
Para algo mais despretensioso, qualquer café no perímetro da Praça da República serve. O segredo é não pedir comida turística (o tal toast com salmão fumado a sete euros) e ficar pelo básico: meia de leite, torrada com manteiga, pastel de nata. Vai gastar três euros e fica até ao almoço.
Almoço de chuva: cozido, açorda e migas
Aqui é onde as coisas ficam sérias. A cozinha alentejana foi inventada para dias frios, mesmo que o frio só apareça três meses por ano. Um dia chuvoso em Beja é a desculpa perfeita para comer aquilo que faria mal num dia de praia.
Recomendo migas com entrecosto frito. As migas alentejanas, ao contrário das beirãs, fazem-se com pão, alho, azeite e ervas, e ficam uma massa compacta e dourada que se serve com carne. É comida de campo a sério, não vai sair daí leve. O Dom Dinis, na zona do castelo, faz uma versão correcta. Para açorda à alentejana com bacalhau e ovo escalfado, qualquer tasca da Rua Combatentes serve, mas pergunte sempre se é feita na hora. Açorda requentada é um crime contra o Alentejo.
Custo médio de almoço numa casa séria: doze a dezoito euros por pessoa, com vinho da casa. Se lhe pedirem mais de vinte e cinco para um menu do dia, está num sítio para turistas. Saia.
Para quando passa a chuva: o ar fresco que se segue
O Alentejo tem isto: a chuva passa rápido. Em duas horas o céu abre, o sol sai, e o cheiro a terra molhada é uma das melhores coisas que se sente em Portugal. Quando isso acontecer, e vai acontecer, considere uma observação de aves em Beja com a Salva Fauna. Os campos pós-chuva ficam cheios de actividade, especialmente entre Outubro e Março, quando passam por aqui as abetardas e os sisões. Não é exactamente uma actividade indoor, mas é a sequência lógica do dia indoor: você descansa, a chuva descansa, depois sai.
E se a chuva, contra todos os prognósticos, durar dois ou três dias seguidos? Há uma opção radical que poucos consideram: ir ao mar. Sim, no Inverno. A Praia da Zambujeira do Mar a uma hora e pouco de Beja, é dramaticamente bonita quando o tempo está agreste. As falésias com o oceano a bater violento, ninguém na praia, café aberto à beira-mar, é uma experiência que noventa por cento dos turistas perdem porque associam praia a Verão. Erro.
Livros, vinho e silêncio: o luxo de uma tarde fechada
Há um certo tipo de viajante, e suspeito que muitos leitores do boa.pt sejam disto, que não precisa de programa. Para esses, a melhor coisa a fazer numa tarde de chuva em Beja é literalmente nada de especial.
Compre uma garrafa de tinto regional alentejano numa garrafeira local (não compre supermercado, pelo amor de deus), apanhe uma broa fresca e queijo de Serpa numa mercearia tradicional, e volte para o quarto. Se está na Pousada, peça emprestado um livro da pequena biblioteca do hall. Se está em casa de hóspedes, leve o seu. Passe três horas a fazer absolutamente nada produtivo. Esta é, na minha opinião considerada, a coisa mais alentejana que se pode fazer em Beja.
Queijo de Serpa: pasta amanteigada de leite de ovelha, DOP, ronda os trinta euros o quilo numa boa loja, mas pode comprar uma cunha de cento e cinquenta gramas por cinco. Acompanhe com mel da serra de Mértola se encontrar.
E se quiser pôr a hipótese de fugir: as alternativas
Sejamos honestos: três dias de chuva em Beja com uma agenda apertada pode esgotar até o mais paciente. Se está a calcular um plano B, a uma hora e meia de carro, em direcção ao Norte alentejano, fica Portalegre, e Portalegre tem outro tipo de paisagem urbana, mais montanhosa, mais granítica, mais fria. Os nossos guias ao destino servem para isso: um fim de semana real em Portalegre sem armadilhas turísticas, ou se prefere caminhada urbana, uma volta pelos bairros que valem a pena percorrer a pé. E se viaja com o estômago, como deve ser, leia primeiro onde comem realmente os locais em Portalegre antes de cair em qualquer ementa turística.
Como chegar e mover-se em dia de chuva
Beja tem ligações de comboio diárias a partir de Lisboa (cerca de três horas, à volta de quinze euros) e a estação fica a quinze minutos a pé do centro. Em dia de chuva, peça um táxi à porta. São quatro ou cinco euros para o centro histórico. Carro próprio é prático mas o estacionamento no centro é restrito, opte pelo parque grande na Avenida Vasco da Gama e desça a pé.
Dentro do centro histórico, tudo se faz a pé em quinze minutos. Não precisa de táxi de novo. Leve um chapéu de chuva pequeno, daqueles dobráveis, e bote impermeável. Não tente o guarda-chuva grande, o vento alentejano vira-o do avesso em dois minutos.
Última coisa: a luz depois da chuva
Há um momento, ao fim da tarde, depois de um dia inteiro de chuva em Beja, em que a luz que sai pela frincha das nuvens é absolutamente impossível de fotografar e impossível de esquecer. Os edifícios brancos, as muralhas, a torre, tudo fica banhado num cor de mel raro. Saia para a rua nessa altura, mesmo que ainda chuvisque. Suba à zona do castelo, olhe para a planície a Sul. É para isto que se vem a Beja em Janeiro. Os turistas de Verão nunca o saberão.