Beja a Partir do Centro: Os Melhores Bate-Voltas
Sete destinos a partir de Beja, da Mértola debruçada sobre o Guadiana à Zambujeira a hora e meia de carro. Com instruções concretas: que estrada, quanto tempo, o que pedir ao almoço.
Beja é uma cidade que recompensa a paciência. Mas também recompensa quem sabe sair dela. A planície alentejana, vista a partir do castelo, parece infinita, e essa sensação não engana: num raio de cento e vinte quilómetros há praia atlântica, vilas amuralhadas, ermidas em montes solitários e estradas onde se conduz durante meia hora sem cruzar outro carro. A questão não é se vale a pena fazer bate-voltas a partir de Beja. É escolher quais.
Este guia foi feito para quem tem dois, três ou quatro dias na cidade e percebeu, ao segundo pequeno-almoço, que ficar só em Beja é desperdiçar o melhor do mapa. Vou dar-vos sete destinos, por ordem de distância, com instruções concretas: que estrada apanhar, quanto tempo demora, o que comer ao chegar, e quando faz sentido voltar para dormir em Beja em vez de pernoitar fora.
Antes de sair: a base de operações
Sair faz mais sentido se a base for boa. Beja tem dois alojamentos que recomendo sem hesitar consoante o orçamento e o estilo de viagem. Para quem quer algo discreto, com proprietária presente e pequeno-almoço a sério, a Maria's Guesthouse é a escolha certa, sobretudo se viajam em casal e querem um sítio que não seja um hotel impessoal. Para quem quer dormir num edifício histórico, com pátio interior e o silêncio de claustro que só conventos antigos conseguem dar, a Pousada Convento de Beja custa mais, mas ficam a dormir dentro de um monumento.
Sobre transporte: a maioria destes destinos exige carro. Há autocarros da Rede Expressos para algumas cidades, mas com horários que tornam o bate-volta impraticável. Se chegaram de comboio a Beja, aluguem carro à partida. Vai ser o melhor euro investido na viagem.
Serpa: 30 km, queijo e silêncio
Comecem por Serpa porque é o bate-volta mais curto e o que melhor explica o Baixo Alentejo. São trinta quilómetros pela IP8 a Este. Meia hora de carro, no máximo. Saem de Beja às nove, estão a estacionar junto às muralhas às nove e meia.
O que ver: as muralhas, o Aqueduto, o castelo. Mas o ponto alto não é arquitectónico, é gastronómico. Serpa é a capital do queijo de ovelha curado em Portugal, e há queijarias na vila e nos arredores onde se prova e compra directamente ao produtor. Não comprem queijo de Serpa no supermercado de Beja antes de virem aqui. Não vale a pena.
O que comer
Migas alentejanas com entrecosto, gaspacho à alentejana no Verão, ensopado de borrego no Inverno. Em qualquer tasca da praça. Almoço completo com vinho da casa, vinte e cinco euros para dois com sorte e sem extras.
Como voltar
Voltar a Beja para dormir é a decisão certa. Serpa tem alojamento, mas a vida nocturna é literalmente os grilos. Se quiserem um final de dia animado, voltem.
Mértola: 50 km, a mais bonita do Sul
Mértola é, possivelmente, a vila mais fotogénica do Alentejo. Está pendurada sobre o Guadiana, tem uma mesquita reconvertida em igreja que ainda mantém a planta islâmica original, e um castelo de onde se vê o rio fazer uma curva fechada à volta da vila. Cinquenta quilómetros pela IP2 e depois IC27. Pouco mais de quarenta minutos.
Façam isto: subam ao castelo logo à chegada, antes do calor. Desçam pela rua principal até à igreja matriz. Visitem o núcleo museológico islâmico, que é dos melhores do país e custa pouco. Depois almocem junto ao rio.
O detalhe que faz diferença
O melhor da experiência de Mértola não é a vila em si, é o caminho de terra batida que sai dela em direcção ao Pulo do Lobo, uma queda de água do Guadiana a quinze quilómetros para Norte. A estrada é má, o estacionamento é precário, e em Agosto há mosquitos. Mesmo assim, vão. Em Maio, com o caudal alto, é dos espectáculos naturais mais subestimados do país.
Évora: 80 km, o clássico que é mesmo bom
Évora é Património Mundial, está em todos os guias, e por isso há sempre quem queira ser contrarian e dizer que é turística e que vale mais a pena ir a outra vila. Discordo. Évora é genuinamente extraordinária, e estar a oitenta quilómetros de Beja sem visitar é um erro.
Oitenta quilómetros pela A2 e depois IP2, hora e dez de carro. Saiam cedo, oito da manhã, para chegar antes dos autocarros de excursão.
Comecem pelo Templo Romano. Depois Sé Catedral, com a subida ao terraço, que vale o bilhete. Capela dos Ossos, sim, mesmo que esteja cheia: é cumprir o ritual. Almocem na Praça do Giraldo ou nas ruas adjacentes, mas evitem os menus turísticos com fotografias. Procurem uma tasca onde os clientes falem português entre si.
O que pedir em Évora
Açorda alentejana com bacalhau, ensopado de borrego, sericaia com ameixa de Elvas. Vinhos do Alentejo a copo, há cartas curtas e honestas em qualquer sítio decente. Almoço sério ronda os trinta euros por pessoa.
Portalegre: 180 km, o desvio que vale a pena
Portalegre não é, tecnicamente, um bate-volta de Beja. São cento e oitenta quilómetros, quase duas horas de carro só para um lado. Mas se tiverem três dias na região, façam um dia em Portalegre, ou melhor, fiquem lá uma noite e voltem no dia seguinte. É a cidade mais subestimada do Alto Alentejo, com uma altitude diferente, um clima diferente, e uma cozinha que mistura influências espanholas que não se encontram no Baixo.
Em vez de explicar tudo aqui, deixo três leituras que aprofundam a cidade muito além do que cabe num parágrafo. Para quem só tem um fim de semana, comecem por este guia honesto sobre o que fazer em Portalegre sem cair em armadilhas. Para quem prefere descobrir a cidade a pé, este outro texto sobre os bairros de Portalegre que valem cada passo é o que devia ter levado quando lá fui pela primeira vez. E se a vossa prioridade é comer, o mapa dos sítios onde comem os locais é mais útil do que qualquer recomendação genérica.
Zambujeira do Mar: 90 km, o oceano
Beja está a hora e meia do Atlântico. É um luxo que muitos visitantes não percebem. Noventa quilómetros pela IC1 e depois pela estrada da costa. Em Julho e Agosto, saiam às oito para evitar o trânsito de regresso à tardinha.
A escolha óbvia é a Praia da Zambujeira do Mar, e é óbvia por uma razão: as falésias, a areia branca, a água atlântica fria a sério, e a vila pequena onde ainda se almoça peixe sem pagar preços de Cascais. Levem casaco, mesmo em Agosto. O vento da costa vicentina não brinca.
Comer ali
Peixe grelhado simples: sargo, pargo, robalo, conforme a entrada do dia. Acompanhamento clássico: batata cozida com casca e salada de alface com cebola. Não peçam arrozes complicados. Aqui o peixe é a estrela.
Quando ir
Maio, Junho e Setembro. Agosto é uma loucura, sobretudo no fim de semana do Festival Sudoeste, que enche tudo num raio de quinze quilómetros. Saibam o calendário antes de marcar.
Vila Nova de Milfontes: 100 km, o estuário
Se acharem que Zambujeira é demasiado vento e falésia, Vila Nova de Milfontes é a alternativa: estuário do Mira, areia mais protegida, e uma vila com mais oferta de restaurantes. Cem quilómetros, hora e quarenta de carro.
O que fazer ali além de praia: passeio de barco pelo estuário até ao Moinho da Asneira, ao final da tarde, com o sol a pôr-se pelo lado oeste. É clichê turístico, mas é genuinamente bonito.
Mourão e o Alqueva: 70 km, a barragem
Para quem nunca viu o Alqueva, vale o desvio. Setenta quilómetros para Nordeste, hora de carro pela IP8 e depois estradas secundárias. Mourão é uma vila pequena, com castelo, mas o que interessa é o lago artificial maior da Europa Ocidental, e os passeios de barco que partem da Amieira.
Se forem ao final do dia, fiquem para o pôr do Sol. O Alqueva tem certificação de céu escuro, e em noites sem lua, a Via Láctea é visível a olho nu. Levem comida e bebida, há poucos sítios abertos à noite ali.
Para os ornitólogos: ficar perto e ir devagar
Nem todos os melhores bate-voltas envolvem percorrer cem quilómetros. Para quem se interessa por aves (e a planície alentejana é um dos melhores territórios da Europa para observação), há uma experiência de observação de aves nos arredores de Beja com guias da Salva Fauna que faz mais sentido do que qualquer deslocação longa. Sai-se antes do amanhecer, vai-se a sítios que ninguém mais conhece, e regressa-se a tempo de almoçar na cidade. É o oposto da lógica turística do bate-volta, e é exactamente por isso que é boa.
Conselhos práticos finais
- Atestem o depósito antes de sair. As bombas de gasolina no Alentejo não são frequentes em estradas secundárias.
- Levem água. Sempre. Mesmo em Maio.
- Não confiem cegamente no GPS para estradas secundárias. Algumas das que aparecem no Google Maps estão em estado precário ou são privadas.
- Almocem cedo. Em muitas vilas pequenas, depois das duas e meia já não se serve.
- Confirmem os horários dos museus localmente. Muitos fecham à segunda e alguns têm pausa para almoço.
Beja é uma boa cidade para dormir e uma cidade ainda melhor de onde partir. A planície que rodeia é generosa com quem se atreve a percorrê-la, e o erro que mais visitantes cometem é tratá-la como destino único. Tratem-na como base. Façam dois ou três bate-voltas. Voltem ao fim do dia, jantem devagar, durmam bem. Repitam.