Bares de Rooftop e Esplanadas de Lisboa no Verão
Há uma hora exacta, por volta das oito e meia, em que Lisboa muda de marcha e sobe um andar. Este é o nosso mapa opinativo dos rooftops, miradouros e esplanadas onde beber e ver o sol descer sobre os sete montes, com a regra que ninguém vos dá sobre a hora de chegar.
Há uma hora exacta em que Lisboa muda de marcha no Verão. São oito e meia da tarde, o calor do dia largou as pedras da calçada, e a cidade inteira parece subir um andar. Os telhados enchem-se, as esplanadas estendem cadeiras até onde cabem, e o Tejo lá em baixo apanha aquela luz cor de laranja queimado que dura uns vinte minutos e que nenhuma fotografia consegue roubar. É a melhor altura do dia para beber qualquer coisa em Lisboa, e a pior altura para chegar sem plano. Porque toda a gente teve a mesma ideia.
Este é o meu mapa pessoal dos sítios onde subir, beber e ver o sol descer sobre os sete montes. Tem opiniões. Tem ordem de prioridade. E tem o aviso que ninguém vos dá: o melhor rooftop de Lisboa muitas vezes não é um rooftop, é uma esplanada de bairro com uma garrafa de vinho verde a suar no balde.
A regra das sete e meia
Comecemos pelo essencial: o pôr do sol no Verão lisboeta acontece por volta das nove da noite. Quem chega a um rooftop popular depois das oito não senta. Esta é a única regra que importa. Cheguem cedo, ocupem a mesa, peçam a primeira rodada devagar e deixem o lugar encher à vossa volta. Vão pagar o mesmo e ficar com o melhor lugar da casa.
Park: o segredo que já não é segredo
O Park é o rooftop que toda a gente recomenda e com razão, mesmo que já não tenha nada de escondido. Fica no topo de um parque de estacionamento na Calçada do Combro, no Bairro Alto, e a graça é precisamente essa: apanha-se um elevador de garagem cinzento e deprimente, sai-se ao último piso, e de repente está-se num jardim suspenso com vista para a Basílica da Estrela e o rio ao fundo. Cocktails à volta dos dez a doze euros, cervejas mais em conta, e DJ ao fim da tarde nos dias quentes. O meu conselho: sentem-se do lado direito, virados para a Estrela, e cheguem antes das sete. Depois das oito é cotovelo com cotovelo.
Topo Martim Moniz: vista de castelo, multidão de praça
Do outro lado da cidade, no topo de um centro comercial sem graça em Martim Moniz, está o Topo. A vista é das melhores de Lisboa para o Castelo de São Jorge, emoldurado como se alguém tivesse desenhado o enquadramento de propósito. A praça lá em baixo é o coração mais multicultural da cidade, e isso transparece na música e na energia do bar. Petiscos honestos, cocktails competentes. Vão por causa da vista do castelo ao anoitecer, quando as muralhas se iluminam. Fica.
A alternativa que prefiro: subir a um miradouro
E agora a opinião que me vai valer discussões: na maioria das noites de Verão, prefiro um miradouro a um rooftop. Sem fila, sem mínimo de consumo, sem cocktail de doze euros. Compra-se uma cerveja num quiosque, senta-se no murete e tem-se a mesma cidade aos pés.
O meu favorito absoluto é o Miradouro da Senhora do Monte, na Graça. É o ponto mais alto acessível da cidade e, ao contrário do Miradouro de Santa Catarina ou da Graça, costuma ter espaço para respirar. Subam a pé pela Graça se tiverem pernas, ou apanhem o elétrico 28 e desçam perto. Levem uma garrafa de vinho do quiosque, sentem-se debaixo dos pinheiros e esperem pelas nove horas. A cidade inteira, do castelo à ponte, abre-se à vossa frente. É de graça e é melhor do que metade dos bares pagos.
Príncipe Real e o ritual da esplanada
Se há bairro feito para a esplanada de Verão é o Príncipe Real. O jardim no centro da praça tem um quiosque histórico com mesas à sombra do cedro centenário, aquela árvore enorme cujos ramos foram domados em forma de chapéu. Pedem-se uma imperial e umas azeitonas e fica-se uma hora a ver o bairro passar. Em redor, o Lost In é uma esplanada-bar com vista para a cidade baixa e cocktails decentes, embora caia mais no campo turístico. Para mim, o quiosque do jardim ganha sempre.
Para perceber porque é que a esplanada é quase uma instituição em Lisboa, vale a pena ler o nosso guia sobre as tradições e a vida de bairro lisboeta. A esplanada não é só beber ao ar livre: é o teatro onde a cidade se vê a si própria.
Chiado: do café histórico ao copo de fim de tarde
O Chiado tem outro ritmo. Antes de subir a qualquer rooftop, faço quase sempre paragem n'A Brasileira, o café mais famoso da cidade, onde a estátua do Fernando Pessoa em bronze está sempre rodeada de telemóveis. É turístico, sim, e a bica custa mais do que devia. Mas há uma hora, por volta das seis da tarde, em que os turistas estão a jantar e os lisboetas ainda não chegaram, em que se pode ter aquela esplanada quase só para nós. Peçam a bica, não o pastel, e usem a paragem para arrancar a noite com calma.
Dali sobe-se ao Bairro Alto a pé em dez minutos, ou desce-se ao Cais do Sodré para apanhar o pôr do sol à beira-rio.
Comer antes de beber: o erro que toda a gente faz
Regra de ouro de qualquer noite lisboeta: comam alguma coisa sólida antes da terceira imperial. E em Lisboa isso significa uma bifana. Façam um desvio até As Bifanas do Afonso, perto do Rossio, e peçam uma bifana com mostarda e uma imperial bem fresca. É barato, é rápido, e é exatamente o tipo de comida que aguenta uma noite de Verão. Comer de pé ao balcão faz parte da experiência. Não se sentem à espera de menu, porque não há.
Quando a noite pede fado em vez de DJ
Nem todas as noites de Verão são de cocktail e batida eletrónica. Há noites, sobretudo já tarde, em que a cidade pede outra coisa. Para essas, desço ao Bairro Alto e entro n'O Faia, uma das casas de fado mais sérias da cidade. Não é barato, há mínimo de consumo e jantar, por isso reservem e vão preparados para gastar. Mas ouvir fado em condições, depois de uma noite quente nos rooftops, é a forma certa de fechar o dia. Verão lisboeta também é isto: passar da esplanada com música para a sala onde se faz silêncio quando a fadista começa.
Cultura à luz do dia, copos à noite
Se quiserem encher o dia antes da maratona de esplanadas, há duas paragens que combinam lindamente com uma noite de copos. O Museu Nacional de Arte Antiga, em Alcântara, tem aquilo que considero a melhor esplanada-jardim de museu da cidade, com vista de frente para o Tejo e para a ponte. Uma visita ao fim da tarde, seguida de um copo no terraço do museu antes de fechar, é um plano que poucos turistas conhecem.
Do lado oposto da cidade, o Museu Calouste Gulbenkian tem um dos jardins mais bonitos e frescos de Lisboa, perfeito para escapar ao calor do meio-dia antes de a noite começar. Levem um livro, sentem-se à beira do lago, e deixem o dia arrefecer.
Chegar lá de bicicleta: a versão sem suor
Lisboa e bicicleta no Verão soam a contradição, sobretudo com sete montes pela frente. Mas há uma forma inteligente de o fazer: a descida. A experiência Pedalar do Topo ao Rio arranca em cima e desce até ao rio, o que significa vista, brisa e zero suor. Se preferirem terreno plano, o roteiro ribeirinho da Bike a Wish segue o Tejo até Belém quase sem subir um centímetro. Qualquer um dos dois é uma forma de gastar a tarde para chegar ao rooftop com sede já merecida.
Fugir da cidade quando o calor aperta
Quando Lisboa passa dos trinta e cinco graus e nem as esplanadas salvam, a cidade esvazia-se em direção a Sintra, onde a serra mantém um microclima vários graus mais fresco e húmido. Vale a pena ter o nosso guia dos bairros de Sintra à mão para um dia de fuga. E para quem quiser empurrar a viagem mais para norte, o roteiro dos doces tradicionais de Mafra prova que a melhor esplanada de Verão às vezes é a de uma pastelaria de vila com um doce conventual no prato.
O meu plano de noite perfeita
Se me dessem uma noite de Julho em Lisboa, fazia assim: bifana e imperial às seis n'As Bifanas do Afonso, bica de cortesia n'A Brasileira por volta das sete, subida ao Miradouro da Senhora do Monte com garrafa de vinho verde para o pôr do sol às nove, e depois, conforme o corpo, ou o Park para acabar com batida e cocktail, ou O Faia para fechar com fado e silêncio. Custa pouco, anda-se muito, e termina-se a noite com a sensação de ter visto a cidade inteira mudar de marcha. Que é, no fundo, o que o Verão lisboeta sabe fazer melhor.